Novo

O que importa é o caminho

Por: Kathleen Lopes
Mesas redondas espalhadas simetricamente pelo preto e branco do piso cerâmico abrigam indivíduos em busca de um escape da correria insana da caótica Buenos Aires. Por trás do balcão envernizado, Martín deixa de lado a pulseira que fazia e prepara mais uma dose de Fernet; talvez a décima do dia. Sextas são sempre assim. Enquanto alguns conseguem, finalmente, descanso do trabalho, o dele, por sua vez, só piora.
Através da janela o rapaz observa a típica paisagem da capital argentina: homens e mulheres presos em sua correria diária, o incessante dia-a-dia resumido em trabalho, filhos, trabalho, casa, trabalho. Com apenas 19 anos, Martín compreende, tem a certeza, de que essa vida forjada em rotinas previsivelmente maçantes não é o que aspira para si; se assim o fosse, não seria tão infeliz ao tentar encaixar-se nela.
Assim, ele decide deixar para trás o destino que renega. E partir — partir sem prever que de partidas seria sua vida dali em diante.
Nascido na Argentina, Martín, hoje com 25 anos, está há mais de três viajando e vivendo como artesão. Foi em San Marco de La Sierra, Cordoba, onde conheceu seus amigos e parceiros de arte, viagens e crenças. Junto deles, vive uma vida sem planos futuros, focada no presente, imprevisível como uma vez cobiçara.
A barba espalhada pelo maxilar é o único detalhe que o aproxima da real idade; de resto – rosto, olhar e, principalmente, sorriso – é criança, provavelmente o resultado de uma vida vivida sem estresses e imposições. De fato, é menino até nos hábitos: está preferencialmente brincando, jogando bola com os amigos invés de passar a noite bebendo e festejando com eles. Os pés descalços conhecem o mundo através do sentir, da percepção. O chão há muito deixou de ser apenas chão: é, agora, páginas de um contínuo livro onde ele escreve a liberdade sob forma de passos. Sentado de pernas cruzadas, relembra sua infância enquanto seus dedos minuciosamente trançam cordões e brincam com as pedras e macramês espalhados ao seu redor.
Morar no mato, ter sua própria horta, levar uma vida orgânica e simples carregada pelas energias positivas da natureza: eis o seu modelo de vida perfeita. Está em Natal há um mês, mas ao ser perguntado sobre sua permanência no estado, conta: “Pra mim Natal já deu, quero ir para outros lugares, onde tem mais natureza”. Ele não tem sonhos definidos. Carrega, contudo, a confiança de que eles se fazem presentes na sua jornada; mas que estejam constantemente mudando, assim como seus sentimentos, vontades e planos.
Viver como Martín demanda muito mais que tão-somente pretensão de conhecer o mundo; tanto é que demonstra constante e enorme desprendimento em relação a tudo. Mesmo quando revela preocupação com os sentimentos dos que lhes cercam, confessa priorizar a própria liberdade, as próprias vontades, as próprias emoções. “A gente tem que viver nossa própria vida”, fala sem demonstrar arrependimento. Viver como ele significa, acima de tudo, acreditar em uma busca infindável, cujo resultado final pouco importa, mas sim as peripécias do caminho.
Das muitas coisas que adquiriu no Brasil, fala do gosto por Cartola e Chico Buarque, além do açaí que toma todos os dias. Ao comentar a respeito do que acredita, da sua utopia, seus expressivos olhos castanhos as vezes parecem completar o que seu sotaque torna difícil compreender.
Pés descalços, roupas surradas e cabelo desgrenhado: não liga realmente para a aparência. Do que gosta? De pessoas simples, humildes, engraçadas e, principalmente, de bom coração. Sua conexão com a força interior e com o universo o torna mais do que um viajante do mundo, mas um apreciador de tudo aquilo que o dinheiro não compra. Sem nutrir expectativa ou pressa, Martín pinta suas muitas histórias em uma interminável tela composta, sobretudo, do agora. “Un objetivo no es importante lo que importa es el camino”.
*Também publicado em www.o-livreiro.com
Fonte: http://adrianismyname.deviantart.com/art/I-want-to-leave-245637715

Nenhum comentário