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Sina de Maria

Por: Pedro Vinícius
O nome dela é Maria.
Maria do Carmo Conceição. 58 anos. Empregada doméstica. Negra. Mãe de cinco filhos; um José que já se foi, três Marias que ainda lhe restam e uma que há muito se esvaneceu, levada por uma infecção que o médico não soube tratar quando ainda era apenas um bebê.
Viúva de dois filhos e um marido, Maria vive em uma casa singela de periferia, com a filha mais nova e três netos; um menino chamado Lucas e duas graciosas meninas também Maria.
Maria trabalha em casarão de gente “bacana”. É uma dessas residências pomposas de muro alto e fechado, cerca elétrica, garagem com portão automático e meia-dúzia de câmeras de segurança que acompanham cada passo dos transeuntes. Dentro, a grama é verde e simétrica, perfeitamente aparada; dois jambeiros antigos ladeiam cada extremidade da construção, como os guardas de um castelo real. É casa de rico: enfeitada por dentro com seus móveis vernizados e luxuosos, obras de arte que ornam as paredes vazias, equipada com seus carrões 4×4 e de uma fachada impecavelmente branca, porque o branco simula “limpeza, pudor e classe”.
Maria trabalha naquela casa há dez anos, mas empregada doméstica o é desde os 13. Ali, como em todas as famílias pela qual passou, já fez de tudo: foi babá, jardineira, cozinheira e servente. Gente como ela, dizem os patrões, é “pau pra toda obra”; sabe de tudo um pouco porque a necessidade exigiu que assim o fosse, porque a fome cobrava, nada sorrateira, seu preço. Maria nunca recebeu um bônus pelos trabalhos adicionais que desempenhou, nunca conseguiu um trocado a mais pelas horas extras ou pelas noites a fio que varava cuidando das crianças brancas enquanto as suas ficavam em casa, sozinhas, famintas; definhando.
Maria ainda não sabe ler. Ainda. Durante 57 anos, a ela foi negada qualquer tipo de educação formal. Como tantos outros iguais a ela cujos rostos a história esqueceu, Maria jamais pôde pisar numa escola durante grande parte da vida. Quando pequena, no interior, morava na zona rural do estado; enquanto a mãe trabalhava na lavoura, era a menina quem precisava cuidar dos irmãos menores e dos afazeres domésticos, as mãos tão novas já tão calejadas. Sua irmã Maria Lúcia a substituiu no momento em que completou idade o suficiente para tratar dos caçulas e do casebre de taipa, e Maria foi realocada para o infortúnio fatigante da roça com os pais. De lá só saiu aos 12 anos, fugindo da seca inóspita do sertão que desolara o plantio e fizera padecer os caprinos. Abandonaram tudo naquela sina coletiva de “Vidas Secas”, rumando desolados para o desconhecido emblemático da capital. Nesse meio tempo, Maria já tinha se tornado velha demais para aprender, diziam.
Hoje, incentivada pela filha, Maria estuda à noite em uma escola de sua comunidade.
Ela não se esquece da sensação da caneta em seus dedos, da primeira vez que conseguiu registrar, sem ajuda de terceiros e por completo, seu nome; recorda perfeitamente da excitação no peito, o coração que martelava acelerado, o tremular suave dos dedos calejados quando a ponta da caneta encontrava, finalmente, a superfície da folha, insinuando-se pela linha do papel e concebendo formas que enfim lhe eram reconhecíveis — símbolos que distinguia, afinal, não mais figuras misteriosas que todos pareciam compreender exceto ela. Não se esquece do deslumbre, do estupor, ao dar-se conta de que havia escrito ela mesma sua alcunha, sua identidade, seu “Maria”.
Maria do Carmo Conceição nunca desistiu. Maria do Carmo Conceição sabe que vem de uma sina de Marias que expiavam eternamente por um crime que nunca cometeram. Que por serem Marias — negras, pobres, nordestinas, mulheres — tiveram que calcar a vida silentes, aturando tanto, perdendo tanto, rezando tanto. Maria do Carmo Conceição carrega na pele as marcas das Marias que lhe precederam: as Marias dos navios negreiros, as Marias das senzalas, as Marias das Casas Grandes de todos os tempos, as Marias violentadas pelos sinhorzinhos de todas as épocas, as Marias para as quais tudo sempre fora acintosamente negado.
E para quem sempre teve tão pouco, Maria do Carmo Conceição encontrou, talvez sem nem perceber, naquela palavra, naquele elemento comum a todas as suas equações, a única coisa que lhe era certa.
Porque Maria do Carmo Conceição teve quatro filhas Maria. Cinco netas Maria. Uma mãe chamada Maria, uma avó Maria, finadas tias que eram Maria. Todas as mulheres daquela família, impreterivelmente, eram Marias. Maria Isabel. Maria de Cândido. Maria Alice. Maria do Rosário. Maria Régia. Maria da Guia. Maria de Fátima. Maria do Céu. Maria Aparecida… Marias. É como se houvesse um acordo tácito entre as partes, um pacto selado há gerações, uma tradição inquebrantável que pronunciava que não importava o quanto mudasse, quanto tempo transcorresse, quantas vidas se fossem, Maria elas ainda seriam.

*Também publicado em www.o-livreiro.com


Fonte: http://www.deviantart.com/art/old-woman-young-boy-197750236

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