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A força de Mama África

Um relato da resistência e luta do negro


Por Luiz Henrique Gomes

Hoje é dia de lembrar a resistência negra, forjada a sangue e a dor. Dia de lembrar seus heróis e heroínas, seus martírios, sua luta e o seu grito que, apesar de violentas tentativas, não conseguiram conter.

Retirados de sua terra, arrastados como bichos e transportados junto aos ratos e às pestes, os negros não esqueceram seus deuses, seus reinos e a antiga vida deixada na África. Escravizados no novo continente, a lembrança de outra vida sempre permaneceu na memória e foi o combustível necessário para lutar contra o chicote e a miséria.

As mulheres negras, antigas rainhas e guerreiras africanas, eram consideradas mulas na América. Como todo negro, eram vistas como propriedade do senhor de engenho, dono do cafezal ou do algodoeiro, mas contavam com um tormento específico e maior: eram mulheres e, portanto, os senhores também as tomavam para sexo. Eram forçadas e depois abandonadas com suas crias, crianças sem pai que eram odiadas por todos e vista como fruto do pecado.

Resistir às vontades dos senhores era cruel, sem eufemismos. Convém lembrar o que aconteceu com a negra Patsey, relatado no livro Doze anos de escravidão, de Solomon Northup, quando tentou fugir do seu senhor: amarrada a um tronco de árvore, nua, a negra teve seu corpo agredido até o chicote arrancar toda a pele de suas costas para ter, logo depois, sal grosso jogado sobre a carne viva. Tudo na frente dos outros escravos para que servisse de lição.

O ódio, assim, foi se misturando ao sonho da liberdade. As fugas daquele inferno eram vistas pelos senhores como doença crônica de uma gente preguiçosa. Havia quem acreditasse que era sinônimo de ingratidão: afinal, o pão mofado, a cachaça e a farinha eram um ato de bondade!

E, na formação dos quilombos, ficou claro que já não eram o mesmo povo do continente africano. Os negros haviam se reinventado para sobreviver tamanha fora a rigidez da escravidão. As religiões, as danças e os hábitos sincréticos eram o resultado de seus gestos ancestrais e da necessidade de enganar o branco para continuar pedindo forças a Iemanjá, Iansã e Exu, sem receber castigo.

Aos olhos dos escravos, fugitivos ou não, esses quilombos eram verdadeiras fortalezas e reinos. Contavam com seus reis e rainhas, guerreiros, guerreiras e alquimistas; contavam
com seus festivais e seus banquetes. Representavam a África, a liberdade e a vida. Por isso cravavam com tanto afinco suas raízes nesse espaço – para resistir às tentativas de destruição.

Com o fim da escravidão a luta e a resistência negra não acabaram. O ódio contra a pele negra persistia e, por isso, não jamais baixaram a guarda. Aos trancos e barrancos ocuparam as cidades e mostravam à força bruta sua capacidade de construção, deixando a marca da África no continente americano de cima a baixo.

E, que fique bem claro: até os dias atuais, o racismo continua a existir. Os casos da atriz Taís Araújo, do goleiro Aranha e da jornalista Maju são retratos disso, mas são os únicos que tiveram repercussão midiática no último ano. No entanto, o que aconteceu com a negra Patsey, por exemplo, persiste até os dias de hoje: basta olhar o mapa da violência divulgado recentemente para ver que, aqui no Rio Grande do Norte, a violência contra a mulher negra cresceu mais de 200%, nos últimos 10 anos.

Ainda são vistas como propriedades, como mulheres que só servem para a reprodução. Seus filhos continuam sem pai, continuam sendo fruto do pecado e odiado por todos; são os mais vulneráveis a morte, acusados de não terem mérito para conquistar alguma coisa.

Por isso, hoje, dia da consciência negra, é dia de saudar e lembrar toda a caminhada de vitórias e derrotas do povo negro para não esquecer que o sofrimento ainda está marcado na pele; que todo avanço foi fruto de muita luta e resistência, e não é tolerável retroceder um só passo.

O racismo precisa ser combatido até que a liberdade seja alcançada. E isso só será possível quando a consciência for negra todos os dias.


Resistência negra norte-americana. Fonte: arte.tv

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