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Vozes Grupert: artigos sobre corrupção

Todos temos vozes. Somos vozes. Às vezes, elas falam numa mesma sintonia. A ideia dessa postagem é reunir produções dos nossos membros sobre o tema geral corrupção. Suas vozes estão marcadas nesses artigos de opinião sobre as diversas corrupções, não só a política, mas também aquelas presentes nas mais diversas situações do nosso dia a dia. Naturalizada no cotidiano pela constante midiatização espetacularizada, ela não pode deixar de ser discutida com reflexões consistentes. As vozes falam, e o Grupert pergunta: Para você, o que é a corrupção?


A cultura do “jeitinho brasileiro”

por Jéssica Cavalcanti

Alice não devolve o excesso de troco quando o recebe errado. Marcelo senta na cadeira preferencial e finge estar dormindo sempre que um idoso sobe no ônibus. Camila não corre atrás do professor quando ele erra sua nota para mais no sistema online. Victor sempre pega a rota mais longa quando leva turistas em seu táxi. Bruno pagou para ser aprovado no teste de direção. O curioso é perceber que eles estão nas ruas, protestando contra a corrupção dos governantes do país. São revolucionários, pessoas de bem, sujeitos que querem e lutam para ver o Brasil ir para frente. Não parece nenhum problema cometer delitos no dia a dia, enquanto rombos muito maiores estão acontecendo no plenário de Brasília.

A verdade é que, em uma conjuntura de naturalização da desonestidade, nós precisamos falar sobre pequenas corrupções. Obviamente, esse não é um atributo unicamente nosso. Em todos os lugares, presente em cada camada social que integra a hierarquia de uma nação, instituição ou agrupamento humano, de alguma forma ela está lá. Porém, cabe analisarmos como no Brasil, a corrupção tornou-se um elemento cultural, intrínseco ao caráter de praticamente toda uma população.

Isso nos leva, obrigatoriamente, a problematizar essa construção social em torno da desonestidade no país. Não foi algo que surgiu da noite para o dia, pelo contrário. A corrupção como mecanismo de sobrevivência configurou-se como uma resposta ao processo sociohistórico pelo qual passamos. A civilização brasileira, como a conhecemos, começou a ser formada com a chegada da expedição portuguesa, a qual subjugou os povos aborígenes à escravidão, roubando deles o direito de possuírem sua própria terra e serem livres nela. Após o extermínio da população indígena quase em sua totalidade e a incorporação de outros povos ao território recém-descoberto, nossa sociedade foi sendo moldada de acordo com os interesses dos europeus. Dessa forma, cresceu com marcas de dominação e exploração de uma minoria sobre as classes subalternas, a qual foi, desde sempre, privilegiada frente a uma massiva população de pobres, cada vez mais submetidos à precarização de suas condições de vida.

O papel do Estado enquanto promovente do bem-estar social tornou-se utópico. As camadas mais pauperizadas da sociedade passaram a ser mera força de trabalho na construção de uma nação industrializada e economicamente globalizada. O conjunto de uma educação pública sucateada, a falta de oportunidades no mercado de trabalho e o descaso dos governantes dificultam, assim, a possibilidade de ascensão de uma gente socialmente condicionada à miséria e, muitas vezes, à criminalidade. Diante do caráter seletivo, clientelista e exíguo das políticas públicas, o brasileiro teve, de fato, que aprender a dar o seu “jeitinho” para sobreviver.

É importante dizer que não tenho intenção de justificar a falta de honestidade dos seres sociais. E, de maneira alguma, generalizar também. Mas as nuances que permeiam os comportamentos dos sujeitos individuais e coletivos precisam ser levadas em consideração.

Compreende-se que, no entanto, a corrupção que observamos no dia a dia não se trata apenas da parcela marginalizada da população. Se observarmos bem, ela veio de cima para baixo. Alice, Marcelo, Camila, Victor e Bruno somos eu e você. Estudam, trabalham, em muitos casos têm uma boa condição socioeconômica, e são “contra a corrupção”. Sofremos com a impunidade dos políticos, enquanto nosso próprio conceito de justiça está corrompido. Talvez o que eles – nós – não tenham notado é que, assim como o sistema instaurado influencia em nossas atitudes diárias, nossas ações têm potencial mantenedor ou transformador da sociedade em que vivemos. Somos reflexo dela e ela um reflexo de nós.

Por essa razão, precisamos falar sobre pequenas corrupções. Promover debates públicos, para fazer nascer assim, um processo de conscientização e criticidade que seja aplicado em nossas autoavaliações. Para que, dessa forma, não continuemos réus da desonestidade que assola não só o cenário político em Brasília, mas o cotidiano de incontáveis brasileiros.

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A geração espontânea da corrupção

por Ana Flávia Sanção

Trazida e pregada como praga pós-moderna ou contemporânea, a corrupção é o centro das notícias brasileiras. Tal político fez isso, tal política fez aquilo; esquemas mirabolantes para lá, esquemas mirabolantes para cá; dinheiro desviado para a Suíça, dinheiro desviado para o México. Vivemos numa sociedade midiatizada que nos lembra, todos os dias, que nossos governantes são desleais para com a própria nação.

Enchemos as bocas, as redes sociais, perdemos nosso tempo discutindo quem é o pior corrupto. Tratamo-los como se fossem divindades infernais, erradas em qualquer parte. Eles não fazem parte de nós – não, eles não nos representam.

Mas eles são brasileiros, certo?

Os corruptos não nascem espontaneamente; não estamos falando das teorias de geração espontânea, já provadas falsas, de séculos atrás. Estamos falando de gente, de sociologia. Os corruptos governantes de hoje já foram tão gente quanto a gente. Eles foram criados como brasileiros de raiz, nascidos e crescidos com os mesmos preceitos que todos nós. Iguaizinhos.

Seria válido então perguntar de onde toda essa corrupção teria vindo? Como algo que não sabemos a origem pode infectar tantos dos nossos?  A reposta é: ela não veio de lugar nenhum. Paramos então com as questões. Como assim a corrupção não veio de lugar nenhum? Como alguém se torna corrupto?

A corrupção não veio de algum lugar – ela está presente em nós. Nós, brasileiros, somos corrompidos desde o nosso nascimento. Os portugueses corrompiam os índios e os negros – e assim nasceu a etnia brasileira, com base em quem passava a perna em quem. Criamos a nossa nação através de um “jeitinho”.

Sim, o famoso “jeitinho brasileiro”, mundialmente conhecido pela sua eficácia. O esperto passando por cima do burro, o rico passando por cima do pobre – a eficácia de sempre favorecer apenas aquilo do meu interesse.

Ações pequenas, mínimas, quase insignificantes, montam uma ideologia individual e social do autofavorecimento. São coisas bestas – como um pai mentir a idade de um filho para não pagar entrada num evento; como uma mulher fingir uma gravidez para passar na fila do preferencial; como uma mãe pedir para o filho furar a fila da cantina só para ir mais rápido.

Independente de quais sejam, elas sempre estarão ali. Faz parte da nossa cultura, do nosso sangue. Somos frutos da junção de três principais culturas, na qual uma única detinha o poder sobre todas as outras. O modo como esse poder foi sendo adquirido e espelhado pelo resto da população foi apenas um mecanismo de defesa; uma cláusula da lei de Talião – aqui se faz, aqui se paga. Você é, eu também serei.

Para não ser tão injusta, tenho de deixar claro que a corrupção, o ser corrupto, faz parte de qualquer ser humano. Não só o brasileiro – por favor, não sejamos egocêntricos –, como qualquer outro indivíduo nesse planeta traz consigo um pouco da corrupção. O Homem é corrupto, afinal é um ser vivo individualista. Pensamos em nós primeiro; nossos instintos animais mais profundos são primeiramente e irrevogavelmente individuais.

Mas, nesse momento, estamos falando da nossa corrupção. Além de característica animal humana presente, nossa cultura nos criou para sermos piores do que os corruptos normais. Nós somos os responsáveis pelos políticos corruptos, porque eles são brasileiros.

Não podemos apontá-los como únicos malfeitores, pois eles são nós. Sim, eles nos representam. Talvez não politicamente, nem socialmente, mas como povo brasileiro. Como esperaríamos governantes decentes se nós, a nação, somos tão defeituosos nessa questão?

Nós não respeitamos paradas reservadas a deficientes e idosos. Roubamos a água e a luz do vizinho com construções ilegais. Damos dinheiro à polícia para não sermos presos. Compramos nossas carteiras de habilitação. Jogamos lixo nas ruas e nos rios. Furamos fila até para comprar pipoca. É o nosso “jeitinho” em ação.

Como podemos então julgar os políticos como os únicos passivos de corrupção, quando nós nos corrompemos pouco a pouco todos os dias? Não estou falando que suas atitudes são certas, só garantindo que eles não são os únicos. Eles são filhos do Brasil, e como diz o ditado: tal pai, tal filho.

De pequenas corrupções a maiores corrupções, vamos criando um ciclo vicioso, no qual eu, você, o vizinho, todos nós fazemos parte. Esse ciclo gera mais um, que gera mais um, e vamos seguindo nisso infinitamente. Não adianta julgar o topo se a base também está suja. Eles são nós – o nosso reflexo. Nós somos eles – os seus criadores.

E juntos somos brasileiros. 

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