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O Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016

Por Ana Flávia Sanção

Imagem: Alkis Konstantinidis/Reuters

Sexta-feira (5) foi dia de festa para os atletas de todo o mundo com a abertura das Olimpíadas 2016 no Rio de Janeiro. A cerimônia ocorreu no estádio Maracanã e reuniu os atletas, os organizadores, os artistas e o público num espetáculo de luz, cor e música.

As atrações, que tinham como objetivo unir a cultura brasileira, a diversidade e a sustentabilidade, trouxeram elementos culturais e históricos, como os índios e o aviador Santos Dumont. Na música participaram brasileiros dos mais diversos estilos — tivemos Karol Konká, Ludmilla, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Anitta, entre outros artistas. Um dos grandes destaques da noite foi para a modelo Gisele Bündchen, que entrou desfilando ao som de Garota de Ipanema.


Gisele atravessando o Maracanã. Imagem: Mike Blake/ Reuters

Esteve presente a todo o momento o tema da sustentabilidade. Desde os índios às imagens do aquecimento global e à formação dos arcos olímpicos por enormes mudas de plantas, a importância do cuidado com a natureza foi lembrada. Um detalhe importante foram as sementes trazidas por cada atleta participante, que serão plantadas no Parque Radical de Deodoro. Elas farão parte do legado deixado pelas Olimpíadas, batizado de "Floresta dos Atletas". 

O show da pluralidade cultural olímpica ficou para as delegações dos países participantes dos Jogos. Todos os países traziam elementos culturais em seus figurinos, com grande destaque para os países africanos e do oriente médio, que além de cultura, traziam a diversidade racial e religiosa. A representatividade não parou por aí; apresentando a delegação brasileira, a última a entrar, estava a modelo transexual Lea T.


Delegação de Burundi. Imagem: David J. Phillip/AD Photo

Mas o verdadeiro clímax da noite foi a entrada da chama olímpica nas mãos de Guga, que foi recebido por um coro emocionante dos brasileiros presentes do estádio, e a ascensão da chama na pira, acendida pelo ex-atleta olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima. Vanderlei, nas Olimpíadas de 2004, estava em primeiro lugar de uma prova de maratona, quando foi impedido de continuar pelo padre irlandês Neil Horan, o que prejudicou seu desempenho na prova e gerou uma comoção nacional pela situação vivida pelo atleta.

Ao fim da entrada das delegações tivemos o discurso muito bem feito pelo Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, que integrou o texto com partes em inglês, português e francês, e o discurso feito pelo Presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach. Logo após, a abertura oficial dos Jogos foi dada pelo presidente interino Michel Temer, que preferiu não ser anunciado diante do temor de vaias e que, mesmo assim, foi cercado por elas durante sua breve fala.


Atletas da delegação brasileira adentrando o Maracanã. Imagem: Stefan Wermuth/ Reuters

O evento em termos gerais foi um completo sucesso — não ocorreram erros ou complicações técnicas ou de segurança. E ainda que tenha sido aplaudido por boa parte dos brasileiros, algumas respostas não foram tão positivas assim. Parte da população voltou a criticar a crise política e social do Brasil e do Rio de Janeiro, alegando coisas como atos de “pão e circo”. Internacionalmente, as reações também foram diversas. O jornal britânico The Guardian publicou, em forma de crítica, que a “Cerimônia de abertura do Rio-2016 é um misto de patriotismo aparado e clima de preocupação. Com alguma ajuda da supermodelo Gisele Bündchen, uma equipe de refugiados, milhares de mudas, a rapper de 12 anos MC Soffia e uma injeção de patriotismo, organizadores esperam que a cerimônia de abertura marque a ruptura definitiva de uma construção conturbada”. Já o jornal espanhol Marca aprovou: “Um espetáculo maravilhoso de luzes, imagens e som, que como novidade incluiu uma mensagem altamente simbólica que poderia ser resumida em um ‘salvem o planeta’, slogan que se torna mais importante no país que abriga a saqueada floresta amazônica”. Outros, como o New York Times, se posicionaram num meio-termo: “Se havia uma nação com a necessidade de um espetáculo de elevação neste momento, mesmo que sob a forma de um exercício de relações públicas, esta nação é o Brasil”.


A crise política e econômica

O Brasil vem sofrendo nos últimos dois anos as consequências de uma crise econômica, filha da crise imobiliária americana de 2008, que causou não só um descarrilamento da inflação e desvalorização do real como a maior reviravolta política da última década.

Com a inflação em alta e o preço do dólar oscilando constantemente, a importação e a exportação do Brasil, principalmente de petróleo e commodities, sofreu um abalado forte. Estamos pagando mais caro pela compra e recebendo menos pela venda dos nossos produtos. Em janeiro de 2016, o dólar atingiu a maior cotação da história, saindo por R$ 4,16 reais.  Pessoas perderam o emprego e a economia do país desceu ladeira abaixo. As medidas tomadas pelo governo não tiveram resultado além de reclamações por uma boa parte da população brasileira.

Somada à evolução da Operação Lava-Jato pela Polícia Federal, a crise econômica se tornou política, acarretando protestos contra e a favor do antigo governo em poder e que, ao final, levou à saída da presidente Dilma Rousseff através de um processo de impeachment. Desde a tomada de poder do presidente interino, Michel Temer, as relações sociopolíticas do Brasil se tornaram incertas. Há quem não apoie as medidas do atual governante, há aqueles que defendem a saída definitiva de Dilma e há aqueles que queiram novas eleições. Numa pesquisa do Ibope, em abril desse ano, antes da saída de Rousseff, 62% dos entrevistados preferiam a saída de ambos políticos e novas eleições para presidente.

Dentro do caos brasileiro, o Rio de Janeiro, sede das Olimpíadas, entrou em estado de calamidade pública. Há meses que um dos mais importantes estados do país vem lidando com um descontrole do dinheiro público. Após a ajuda do Estado ser embargada pelo não pagamento de uma dívida de mais ou menos US$ 8 milhões à Agência de Francesa de Desenvolvimento, o governador Francisco Dornelles decretou calamidade diante da falta de recursos para lidar com as finalizações das instalações olímpicas.

O Decreto de calamidade pública é um pedido de ajuda nacional diante de alguma catástrofe natural ou material sofrida por determinado estado ou cidade da federação e que não pode ser resolvida pelo governo estadual. A situação engloba os diversos setores da sociedade: econômico, social, sanitário, etc. A deficiência da economia carioca afeta a sociedade como um todo, interferindo na qualidade de vida, de saúda e de educação da população. Após receber ajuda nacional para o término das obras olímpicas, o governo estadual do Rio se vê agora na missão de corrigir a crise socioeconômica na qual sua população vive.

Os questionamentos sobre a segurança
           
Julho foi um mês caótico para todo o mundo. Com diversos ataques terroristas o principal deles em Nice, França, durante a comemoração do Dia da Bastilha, em 14 de julho, por um tunisiano naturalizado francês chamado Mohammed Bouhel, que atropelou dezenas de pessoas, matando 85 — o tema da segurança perante a situação do Estado Islâmico se intensificou nas mídias. Com pouco tempo para as Olimpíadas, o principal foco da nação era o que seria feito para impedir algum tipo de atentado no Brasil e às delegações.

A quinze dias dos jogos, 21 de julho, uma operação policial feita em sete estados da federação prendeu dez supostos terroristas. O Ministro da Justiça, Alexandre Moraes, garantiu que não houve contato direto com o grupo extremista Estado Islâmico e que não passavam de amadores. Para manter a proficiência, a PM e o Exército simularam ataques terroristas e garantiram que as forças de segurança do Brasil estavam preparadas para qualquer ocorrência.
            
Lidar com uma possível ameaça terrorista não é a única coisa que os policiais e o exército brasileiro terão de enfrentar durante o mês dos Jogos Olímpicos. A falta de segurança do próprio estado do Rio chama atenção. Com uma quantidade alarmante de assaltos na capital, a preocupação com o bem-estar dos visitantes e dos moradores deverá ser redobrada. Com 11 dias para a abertura já tivemos uma notícia ruim — o atleta neozelandês de jiu-jitsu, Jay Lee, denunciou um sequestro por parte de policiais na capital olímpica. Segundo Lee, ele foi forçado a retirar dinheiro de um caixa eletrônico para que não fosse preso.
            
Deve ser levado em consideração também os outros estados que sediarão os jogos de futebol. Além do Rio de Janeiro, as cidades de Belo Horizonte, Brasília, Manaus, Salvador e São Paulo receberão as seleções olímpicas para os jogos. Um torcedor que compareceu ao primeiro jogo do Brasil, no dia 4 de agosto no Estádio Mané Garrincha em Brasília, e que preferiu não ser identificado, deu uma entrevista ao GRUPERT afirmando que “Eles dizem que não podem entrar com bolsas no estádio, mas tem galera que entra com bolsa muito grande e tem galera com bolsa pequenininha que é barrado”.

O que esperar do Brasil no esporte
           
A delegação da casa está trazendo em torno de 465 atletas para as competições, participando praticamente de todas as modalidades oferecidas. Dentre eles temos nomes conhecidos do esporte brasileiro como Marta e Cristiane, do futebol feminino, Neymar, do futebol masculino, Daniele e Digo Hypólito e Jade Barbosa, da ginástica artística, e Rafaela Silva, do judô, que foi desclassificada nas Olimpíadas de 2012 em Londres.
            
Expectativas crescem diante não somente das seleções de futebol, como também das seleções de vôlei. A seleção feminina, comandada pela capitã Fabiana Claudino e treinada por José Roberto Guimarães, vem com toda a força após conquistar seu 11° título do Grand Prix de Voleibol em 2016, na cidade de Bangcoc, Tailândia. A masculina também chega às Olimpíadas com grandes expectativas. O time ficou em segundo lugar da Liga Mundial de Voleibol desse ano e promete vir com tudo para garantir seu ouro olímpico. 

Na natação, apesar de não termos nosso recordista mundial e campeão olímpico, César Cielo, teremos alguns nomes conhecidos como Thiago Pereira, competindo pelos 200 metros medley.

O futebol, um dos esportes favoritos do povo brasileiro, está sob os olhares atenciosos e cautelosos do povo desde que seu rendimento vem caindo nos últimos anos. A seleção olímpica que vai disputar os jogos é a sub-23, que conta com três jogadores mais velhos, Neymar, Fernando Prass e Douglas Costa. Depois da saída traumática da Copa do Mundo e da eliminação da Copa América, os torcedores mantêm as expectativas baixas. O primeiro jogo disputado pela seleção, no dia 4 de Agosto, já desapontou os espectadores — o time do Brasil empatou de zero a zero com o time da África do Sul.

O Comitê Olímpico espera que o Brasil alcance ao menos uma posição entre os dez primeiros colocados no quadro geral de medalhas. A possibilidade é válida, mas os atletas precisarão se esforçar para enfrentar potências esportivas como Estados Unidos, China e Reino Unido. Nos Jogos passados, o país alcançou a 17ª posição. É claro que a torcida é essencial. Dar apoio aos atletas brasileiros faz parte do espírito olímpico — assim como respeitar os atletas das outras delegações — e curtir as histórias de superação, as lágrimas e as comemorações junto com eles engloba tudo o que o evento mais prega.

Esses jogos serão mais uma provação para a sociedade brasileira. Eles provarão, dentre altos e baixos, que o país pode sim promover um evento de grande porte, mesmo que não seja o ideal no meio de uma crise sociopolítica como a que vivemos. Já está feito — o que nos resta agora é dar apoio e torcer pelos nossos representantes e tentar tirar os melhores frutos possíveis do legado que as Olimpíadas vieram nos deixar, independentemente do que aconteça. 



Link das fontes: G1 / G1 / G1 / G1 / G1 / Estadão / UOL / Roberta Jungmann / Terra

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