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Muitos sorrisos e gratidão

Por Fernanda Cristina

Apolônio de Carvalho, exímio ativista social e que passou boa parte da sua vida no exílio, disse uma vez a seguinte frase: “A vida é uma coisa extraordinária, é um dom. E é preciso valorizá-la... É preciso construir algo, ter um fio condutor: olhar o horizonte de modificação da sociedade”.

A vida é mesmo algo incrível. É bem verdade que nem sempre é fácil, e em alguns momentos ela é bem dura, para uns mais para outros menos. Mas é preciso valorizá-la em todas as suas vertentes e nuances. Minha mãe costuma dizer que tudo que se leva dessa vida é o que se vive e o que se faz por alguém. 

E existem duas coisas que não podem faltar na vida: amor e alegria. 

No amor, estão contidas várias coisas: carinho, doação, compreensão, amizade, bondade. Na alegria estão contidos: sonhos, sorrisos, brincadeiras, conquistas e também doação. Doação é a palavra em comum entre as duas, porque a vida é também uma troca. Eu dou o que eu tenho de bom e você me devolve o que também tem. Uma doação recíproca. Talvez fosse este o tal fio condutor de que Apolônio falava, talvez seja ele que possa transformar mesmo uma vida, a sociedade e o mundo, ou pelo menos por um dia. 

Há muito havia o desejo de se solidarizar. Trazer amor e alegria a alguém, sem ver a quem. E então chegou o mês de outubro e com ele o dia das crianças. Só se mobiliza em trazer a felicidade a um rosto infantil quem não esqueceu a fase e guarda em seu cerne o espírito de criança. Quando pensamos numa ação solidária para desenvolver, escolhemos as crianças, pois nelas há muito amor e alegria ingênua tão pura e um senso de doação tão bonito. Escolhemos o dia delas, ou pelo menos a data oficial no calendário. Decidimos fazer a ação em abrigos de crianças. Começamos a planejar tudo o que faríamos e como faríamos, pra doar não apenas presentes, mas, com um pouco do nosso amor, levar alegria a quem tanto necessitava dela.


Foram alguns dias de arrecadação de brinquedos, doações, preparação. A ansiedade tomava conta de mim a cada brinquedo que chegava, e a expectativa de como seria ação solidária, a imaginação dos sorrisos, das brincadeiras, das historias que seriam contadas.  Na terça embalava os presentes em contagem regressiva. Estava chegando o dia. E chegou. Café, trocar de roupa, sacolas nos braços, alegria no peito e lá fui eu. Encontrei com o pessoal e partimos, rumo ao abrigo. 

A chegada foi regada de abraços carinhosos nos dois lugares e de um sol tímido entre as nuvens iluminando ainda mais o lugar. A curiosidade por saber o que aqueles estranhos amigos traziam nas sacolas era constante nos olhinhos de cada um, e de repente não éramos mais tão estranhos assim.

Foi feito um círculo de cadeiras no pátio para que todos se reunissem e começássemos a programação. Eu resolvi me vestir de Emília, um dos meus personagens favoritos das histórias infantis. Enquanto entrava no personagem, o restante do grupo ia conhecendo cada um, os nomes idades, e animando para cada entrada da Emília, a eterna boneca de pano que se tornou criança, espoleta que só ela, trazendo consigo toda magia da infância. Naquela hora, ali vestida do personagem para aquelas crianças, talvez fosse eu a mais criança de todas elas. Tirei do bolso uma boa história para contar. Era mágico ver a atenção e os sorrisos de cada um, a cada página da história que era contada nós viajávamos juntos na imaginação.

Brincadeiras, morto e vivo, dança das cadeiras, músicas, bolo, bala, brinquedo, presente, presença, riso, alegria. 

Ah, meus pequenos, vê-los sorrir, receber seu carinho, os abraços apertados, conhecer um pouquinho de cada um, e contar um pouquinho de mim foi tão incrível. Queria poder dizê-los como vocês fizeram meu dia melhor, como me fizeram melhor. 

Gratidão.

2 comentários:

  1. Certamente a ação enriquece o receptor, mas muito mais o doador. É incrível esse prazer em gerar prazer. É uma rede, uma cadeia sem fim. Parabéns pelo ato. Que sirva de exemplo pra nós!

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