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A agenda dos Coletivos de Mídia Contra Hegemônica

Mesa redonda debate os caminhos da comunicação alternativa no cenário político atual


Por Henrique Mendes e Tiago Silveira


Gramsci definiria hegemonia como a dominação de um grupo social sobre outro, mais especificamente da burguesia sobre o proletariado, por meio da sobreposição das ideias a partir de ações conjuntas de vários segmentos. Para o pensador, nenhum domínio absoluto de uma classe sobre as demais é possível sem que haja tanto um consenso passivo das classes dominadas quanto uma articulação de um bloco de alianças em torno de si. Assim, no contexto da ordem social vigente atualmente, é possível afirmar que a classe dominante só consegue se estabelecer como dirigente porque tem alianças poderosas, sobretudo com a grande mídia.

Registros de mídia alternativa no Brasil, com ideias contrárias à hegemonia político-social vigente, remontam ao período colonial: pasquins pedindo a abdicação de D. Pedro I, fanzines pela abolição da monarquia portuguesa e da escravatura e panfletos de propaganda pela proclamação da república foram recorrentes em todos estes momentos históricos de crise. Na ditadura de Getúlio, Oswald Andrade e Pagu assinavam O Homem do Povo, revista ligada ao Partido Comunista. A censura do regime militar de 1964, inclusive à imprensa corporativa, também fez proliferar a necessidade de veículos alternativos, emergindo, também, neste período, as rádios comunitárias e piratas.

 Foi sob esta temática que se desenvolveu a penúltima mesa redonda da I Semana de Jornalismo da UFRN, que contou com a presença de Celinna Carvalho da Mídia Ninja RN; Isadora Morena, representando a Marcha Mundial das Mulheres e o Fórum Potiguar de Comunicação; e João Paulo Farias do Levante Popular da Juventude. Elxs apresentaram seus coletivos e falaram dos desafios da mídia alternativa atualmente.
             
Mesa com os coletivos (Foto: Jéssica Cavalcanti)

“É uma forma de fugir do padrão da grande mídia, que não dá espaço para as minorias”, responde Celinna Carvalho sobre a atuação dos coletivos de comunicação. Para ela, o trabalho nesse núcleo alternativo de mídia é uma ação militante: não tem financiamento e a maioria das pautas são feitas a partir de ações colaborativas. Celinna enfatiza que, a despeito dos interesses capitalistas, é importante o estudo e o uso das redes sociais por estes coletivos e, bem-humorada, acrescenta: “Ocupa o Facebook, cara, porque é só o que temos no momento”.

Isadora Morena acredita que é necessário ampliar as vozes das minorias, que tem pouco espaço na grande mídia, reprodutora dos discursos das instituições oficias. Morena salientou, ainda, a importância de fortalecer o nosso campo, não só profissional, mas de saber científico, já que “o jornalismo é uma prática reflexiva”. A jornalista falou, também, sobre a urgência de democratizar os espaços de comunicação desta Universidade, como a TVU e a FMU.

Responsável por agitação e propaganda no Levante, João Paulo Farias vê como crescente a importância da mídia alternativa para empreender a disputa contra a hegemonia. “Quanto mais espaços a gente conseguir criar ou alcançar melhor para a gente conseguir fazer essa disputa na sociedade”, diz ele.

Os caminhos propostos para a efetividade das ações contra-hegemônicas no atual momento político são diversos, parte de um processo ainda em construção pelos coletivos: vão desde o debate pelo marco regulatório da mídia não atendido pela Constituinte de 1988 – e que no momento  encontra barreiras ainda maiores como os ataques do governo Temer à EBC (Empresa Brasileira de Comunicação) – até a criação de um curso popular de comunicação junto ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) com o objetivo de minimizar o poder de distorção das declarações de integrantes deste e de outros movimentos sociais nas raras e rápidas vezes em que a mídia corporativa oportuniza momentos de fala desses grupos.

Necessidade é a palavra-chave deste debate. Construir uma alternativa ao oligopólio dos grandes veículos do país se faz imprescindível e está atrelado a qualquer reforma política, educacional ou social que pretendamos para o futuro do país.

Acompanhe e colabore com os coletivos de mídia alternativa:

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