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A necessidade da política em tempos de crise

É necessário mais do que nunca a prática política no Brasil. O fim dela abre espaços para salvadores de fáceis discursos

Por Luiz Henrique



Só a política salva o Brasil. Por mais contraditório que pareça, com a classe de políticos imersa na imoralidade, é preciso deixá-la mais viva do que nunca. Seu fim significa o perigo da democracia e a ascensão dos salvadores de fáceis e perigosos discursos. A tormenta que toma conta do país não passa por simples soluções. Isso fica claro na repressão de Michel Temer em Brasília, na última quarta-feira (24), e na sua resistência de permanecer no cargo para o qual não foi eleito. É a negação total do ambiente democrático. Só a política, em sua essência, dá conta da complexidade dessa terra em transe.

Temos dois exemplos próximos e recentes para dar dimensão do que significa o fim da política: a eleição do Donald Trump, no Estados Unidos, e do João Dória, em São Paulo. Dois homens que se puseram à parte da classe de políticos, encarnaram o papel de gestores bem-sucedidos de empresas e surpreenderam ao saírem vitoriosos. O que todo mundo esqueceu é que a cidade e a pátria não são negócios privados, mas uma teia de contradições e metamorfoses. O resultado é, de um lado, um presidente que fecha as portas do país de forma arbitrária e desrespeita a soberania dos poderes, e, do outro, um prefeito que destrói edifícios com moradores e espalha a repressão na cracolândia sem dó nem piedade para anunciar que ela chegou ao fim – uma falácia, como se provou horas depois da ação da Polícia Militar.

A tormenta que vive o Brasil revelou que a política até então era moeda de troca para os grandes e poderosos empresários. As revelações dos sócios da JBS relembram um cenário esquecido pelo país desde o início das investigações: o financiamento empresarial de campanha sempre foi um investimento para as empresas. Em diversos trechos das delações, Joesley e Wesley afirmam que "pagavam propina com doações legais de campanha" para serem favorecidos no futuro.

É nesse ponto que reside uma das provas de que a existência da política é necessária: a ex-presidente Dilma pôs fim ao financiamento de empresas nas eleições em setembro de 2015 – este autor comemorou no Caderno de Pauta. Uma medida essencialmente política, resultado de debates dos setores sociais. A primeira eleição que ocorreu com a nova regra foi em 2016. Durante esse processo eleitoral, muitos candidatos foram descobertos por estarem recebendo propina. É muito mais fácil investigar a corrupção quando ela não está fantasiada de doação legal.


É certo que a forma atual como se dá a política está podre, junto com a maquinaria das eleições que se desenham em 2018. Quem alcança o poder, e assim será enquanto não for alterada as regras do jogo, apoia-se nas práticas que hoje são rechaçadas. O fim do financiamento empresarial é uma medida que não se sustenta sozinha, sobretudo pela crise na qual o país está imerso.

É preciso reconstruir a política por meio da própria política, e isso não é fácil. O primeiro passo é a convocação de eleições diretas neste momento, com regras postas pelo povo. Mas a medida não garante o país nos trilhos do progresso. O futuro é sempre incerto e é preciso constante diálogo para não cairmos no abismo. A existência da pátria é uma tarefa contínua - feita na democracia, uma tarefa do próprio povo.

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