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Sobre Jornalismo e Literatura: “Jornalistas Escritores do RN: Entrevistas”

Lançamento de e-book marca o encerramento da Semana de Jornalismo da UFRN 


Por  Henrique Mendes e Tiago Silveira


Jornalismo e Literatura se relacionam pelo material comum, a palavra. Uma relação que se nota nos mais diversos momentos históricos, no mundo todo e com diferentes escritores jornalistas ou vice-versa, desde Emile Zola, passando inclusive por Castro Alves, até Nélida Piñon. Os folhetins - como bem lembrou o professor Adriano Gomes - publicados de forma seriada em periódicos no século XIX, legaram para a cultura nacional não só as mais importantes obras literárias brasileiras, como também um modelo de produzir ficção extremamente bem-sucedido por aqui - as radionovelas, que migraram para a televisão e se tornaram o suprassumo do show business no Brasil. “Nesses cerca de quatro séculos de existência dos jornais, gerações e gerações de jornalistas-escritores têm percorrido caminhos que unem as redações às editoras de livros”, arremata a professora Socorro Veloso, no inspirado prefácio escrito para a obra, onde ela trata com os jornalistas entrevistados sobre o poder de salvação que a literatura supostamente poderia ter. 

Reprodução Capa do Livro Jornalistas Escritores
do RN: Entrevistas
Essa relação, no entanto, encontraria um contraponto no tempo: enquanto o jornalismo é uma expressão datada, que condiciona o tempo ao próprio tempo, a literatura é a escrita contra esse tempo em busca da posteridade. Para o lendário jornalista e professor Emanoel Barreto “jornalismo é literatura sob pressão ”. A crônica, então, seria o ponto de equilíbrio, o gênero comum ao Jornalismo e à Literatura, o gênero que torna o mais banal acontecimento cotidiano em um texto sublime, cuja “grandeza é não ter importância quanto a sua condição de manchete, mas ter importância quanto à condição humana que ficou naquele indício”, conforme nos ensina o professor Barreto, homenageado pelos alunos veteranos do curso, em sua fala na mesa redonda que encerrou a 1ª Semana de Jornalismo da UFRN, na última sexta (12).

Sob coordenação do professor Antônio Condorelli, compuseram a mesa, além do já citado Barreto, os docentes Adriano Gomes, Josimey Costa, Adriano Cruz, e o escritor Gustavo Sobral. Condorelli, iniciando a conversa, disse que, “Além de sermos seres racionais, Homo sapiens, somos também seres de emoção e sensação”, enfatizando a sensibilidade necessária ao fazer jornalístico.

Sem perder “o costume da carreira acadêmica”, como ela mesma brinca, a professora Josimey Costa recorreu a alguns pensamentos do escritor francês Marcel Proust para sustentar a importância de o jornalista, durante o exercício da escrita, olhar para o interior de si, prática que, segundo atesta sua experiência na área, o profissional das redações faz pouco. Citou também o autor referência no Jornalismo Ciro Marcondes Filho, segundo o pensamento do qual, “a informação jornalística, quando também é comunicação, transcende a mera descrição dos fatos”, o que o fizeram os entrevistados para o e-book Jornalistas escritores do RN: Entrevistas, não se prendendo aos limites de espaço e à tecnicidade dos manuais de redação.

Nas entrevistas do livro, resultado do esforço de 44 estudantes de Jornalismo do segundo semestre de 2016, Emanoel Barreto, Josimey Costa, Antônio Condorelli, Adriano Gomes e Gustavo Sobral, presentes à mesa-redonda, expõem suas visões não apenas sobre a profissão e as aspirações de quem é jornalista e encontra na forma literária de escrever o significado de seu ofício, mas também suas próprias visões de mundo, seus pontos de vista  sobre as transformações do jornalismo na atualidade e a função do escritor em nossa sociedade. Pontos de vista individuais que se tornam coletivos na medida em que tanto têm a nos ensinar. Além delxs, Glácia Marillac, autora de “O amor é – 108 poemas para simplificar a vida”; Rafael Duarte, autor da biografia de Carlos Alexandre; a editora de livros Themis Lima; o repórter Luan Xavier; Flávio Rezende, autor de “O Sonhador”, entre outros títulos;  Paulo Nascimento e Rafael Barbosa, autores de “Valdetário Carneiro: a essência da bala” ; e Adriano Cruz, autor de  “Alguma coisa e cor” participam das entrevistas coletadas e contribuem para o projeto, tornando-o um marco documental essencial da produção escrita potiguar e uma afirmação importantíssima do próprio curso de Jornalismo da UFRN que, apesar de existir desde a década de 60, só em 2017 deixa de ser uma habilitação da Comunicação Social.

Organizadora do livro junto com o mestrando em Estudos da Mídia John William Lopes,  Socorro Veloso vê no conteúdo do e-book uma amostra fundamental de como fugir dos tecnicismos que correm à solta nos cursos de Jornalismo. “A ideia do livro é estimular os alunos a pensarem novas formas para a escrita jornalística que saiam dos esquematismos e engessamentos oferecidos por formatos como a pirâmide invertida, por exemplo”, assinala ela.  Segundo a professora do Departamento de Comunicação Social da UFRN, coordenadora-geral da Semana de Jornalismo e também homenageada na noite, a literatura oferece não apenas boas técnicas, mas uma forma de pensar o jornalismo de maneira mais sensível, aprofundada e empática. “Quando a gente bebe na fonte da literatura a gente se nutre do melhor que a gente pode para aprimorar o nosso campo, o campo jornalístico”, resume.

Podemos dizer, portanto, que o Jornalismo que envereda pelos caminhos da Literatura, torna-se mais humano, sensível às coisas do mundo. Dá voz, liberdade e beleza à subjetividade do narrador, tornando o texto mais honesto. E é com essa liberdade que podemos nutrir nossos objetivos distantes, que são nossa razão de viver, pois, como disse Barreto, “o Jornalismo tem que viver sempre de utopias”. Ou, ainda, nas palavras do posfácio de Gustavo Sobral, temos que reconhecer que “o jornalismo sempre foi a casa do escritor brasileiro”; e continua sendo.

O e-book está disponível para download no link https://goo.gl/Po17ZQ

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