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Uma família de consideração em uma rua de menosprezo

Era uma casa: não tinha teto, não tinha nada além dos seus 11 moradores e toda a cumplicidade que cabia em seus corações


Por Filipe Cabral, João Pedro Patrício, Lucas Cortez e Vitória Laís

Eles vivem em uma calçada próxima ao Corpo de Bombeiros da Avenida Prudente de Morais. Não têm luxo – e nem precisam dele - entre dois colchões e uma caixa: dentro dela, coisas que pessoas comuns guardam em armários enormes. Se o barulho dos carros que passavam pela avenida fosse ignorado, os pedestres poderiam observar com mais atenção em alguns colchões sem cama, sobre as calçadas sujas de folhas e lixo, as figuras de pessoas serenas, irradiadas pelo extremo calor e raios do sol. 

Roberta, 24, é só mais uma dessas pessoas deitadas; seu cabelo cheio de estilo foi resultado de um teste proposto por um cabeleireiro local e ela aparenta ser a chefe da família de sete crianças. Contando os filhos com o cuidado de quem lista seus tesouros, ela perde a conta e precisa de ajuda: Lucas, Mateus, Evelin, Pâmela, Manu, Letícia, e Vitória - relembrada por Mateus, que em seus apenas 7 anos, de sapequices, já se mostra o mais ousado deles. Além de Roberta, a família é composta por mais três mulheres – Fabiana, 34, e Samara, 28 – sentavam cada qual no seu colchão, e, durante a conversa, foram as responsáveis por manter calado o garotinho. “É conversa de adulto”, disse uma, enquanto a outra explicava que ele ainda tinha de aprender o que viria a ser isso.


Fabiana e uma das crianças da família (Foto: Lucas Cortez) 



Os colchões, os chinelos e o material escolar das crianças são produtos de doações de muitas igrejas, mas nada de ONGs ou programas estatais. “Alimenta a alma, o espírito e o corpo também”, explica uma Roberta até satisfeita, apesar da situação. Talvez essa satisfação venha do chamado “alimento espiritual”, ou seja, apenas um disfarce para não enlouquecer e continuar vivendo. “A gente se sente menosprezado, mas não se estressa muito com essas coisas, não", ressalta a moça. Ela atribui a falta de estresse ao excesso de otimismo, já que a visão do futuro está tão clara quanto a do presente – que não é bem um presente. Alugar uma casa ou ganhar uma do governo é o desejo que impulsiona a vida da jovem mulher, que reitera que apenas uma residência seria o bastante para todos eles.

A retrospectiva das experiências adquiridas no passado também são muito translúcidas para Roberta. Ela conta das vezes que ia tomar banho no cemitério ou que sobia nos muros de supermercados para ficar pendurada enquanto enchia uma garrafa nas torneiras que encontrava, resultando em: um banho com o auxílio dos produtos de higiene doados pelas pessoas. O pequeno momento refrescante não ofusca as memórias dolorosas. 

As “abordagens sociais”, como ela chama, contribuem ainda mais para o medo e o perigo constantes. “Uma vez a gente tava dormindo aí as polícias já chegou apontando as armas, até pras crianças”, conta Fabiana com aquele ar de quem tem certeza que os seus ouvintes não estão acreditando. Entretando, para a sua sorte, alguns realmente acreditam. 



Albergue e abrigo ou rua? 

A idade das crianças varia – entre 7 a 12 anos – assim como o tamanho da família. “Aí vem, aí depois vai embora, volta de novo, e assim vai indo", tenta explicar Roberta no que se refere aos parentes quase nômades, gesticulando como quem apresenta um seminário. Na verdade, a moça dona de tatuagens e correntes estudou até o primeiro ano do Ensino Médio. “Quase que eu acabava o segundo”, afirma, completando que a sua antiga professora alegava que ela tinha tudo para continuar. O que a fez parar foi uma de suas gravidezes, que a obrigou a ficar menos ativa e enérgica, gerando custos. E no momento em que estava precisando trabalhar para sustentá-los, o desemprego provocou um baque na sua porta – não daqueles baques que se escuta quando alguém chuta a sua barraca ou pisa em um dos poucos objetos que ela guarda consigo - mas aqueles de quando a porta se fecha com a força do vento. Agora, a família se vira com o que aparece e alterna o lugar de estadia semanalmente. Ficam uns dias na Avenida Prudente de Morais e outros na Via Costeira, vendem água para ajudar um moço e limpam terreno por uns trocados.

Pensando nas muitas crianças em situação de rua, o Estado, através do Conselho Tutelar, em alguns casos, oferece estadia e o direcionamento do filho à outra família – adoção, o que nem sempre é visto com bons olhos pelos moradores de rua. Vale ressaltar que tal medida só é tomada caso seja constatado que está havendo negligência por parte dos pais.

“Meu filho é meu e ninguém toma”, é o que esbraveja com todo afinco a mãe que não quer que seus filhos sejam levados para a adoção. Roberta resiste ao Conselho que vez ou outra solicita levá-los para um abrigo e colocá-los em um albergue. Com um medo visível, diz que sabe que lá eles vão pra adoção, mas não é isso o que ela deseja.

Sobre os meninos e meninas, a matriarca, preocupada, afirma que todos estudam, mesmo que alguns ainda não possuam os documentos pessoais,  que ela se adianta em dizer que está providenciando e, por isso, só conseguiram matricular seus filhos com uma ajuda. Além do mais, se orgulha em dizer que o outro garoto já escreve e lê, só o Mateus que é o mais danado.

A moradia


A convivência

Atualmente, é corriqueiro, nos grandes centros, muitos indivíduos “invisibilizarem” diariamente essas pessoas que fazem da rua o seu lar. Enquanto o falso moralismo e o reduzido exercício da empatia predominam, os moradores em situação de rua se sentem menosprezados, segundo a Roberta. Eles encaram preconceitos, dia após dia, sendo julgados, vendo a violência nos lugares mais remotos de seu contexto social. Sabendo disso, as dificuldades batem à porta – do lar sem paredes, toda manhã, assim como se encarregam de lembrar as coisas boas que a vida oferece.

Religiosamente, ela esclarece que costumam receber doações de pessoas solidárias, não todo dia; uma vez ou outra. Já com uma voz carregada de afeto, conta com entusiasmo que no Natal puderam saborear um ceia enorme, atropelando até a fala do próprio grupo por pura animação.

É importante salientar que, embora haja conflitos vez ou outra, a convivência entre todos eles é tranquila. Além disso, Roberta e sua família já possuem a credibilidade dos moradores da região, recebendo, assim, auxílios que são ofertados a eles/sem teto. A família toda sabe, mais do que ninguém, que se quiserem sobreviver às adversidades do mundo afora, precisam, no mínimo, de uns aos outros, fomentando uma sólida relação afetiva entre seus membros.

Relação essa exposta na luta pela guarda das crianças. Não seria novidade se, por falta de condições, decidissem aceitar a ida dos meninos e meninas para alguma casa de apoio; mas isso nunca nem chegou perto de ser cotado. O laço que desenvolveram através dos vários empasses cotidianos nutriu a garra e a esperança, acima de qualquer coisa, que conseguirão a provisão, nem que seja para apenas mais um dia, e assim por diante.

Baseado no que eles ouvem, muitos acreditam que “bandido” seja um sinônimo coerente para “moradores de rua”. Com isso, tais pessoas em situação de rua acabam sempre tendo o receio de serem estigmatizadas como ladrões ou indivíduos de mau caráter. Exemplo disso, nessa família, são os olhares de cuidado e repreensão dos adultos às crianças, como forma de orientação.

Logo, Robertas, Fabianas e Samaras são mais do que só mulheres. Elas são toda uma classe de indivíduos que são marginalizados, calados e oprimidos e, ainda assim, levam com eles a esperança de dias melhores.

Por fim, a casa - que não é engraçada, não possui teto - mas também não está vazia, foi visivelmente construída com muito esmero, seja na Salgado Filho, na Prudente de Morais, ou só apenas nos corações de cada um de seus moradores. 

Um comentário:

  1. Gostei do texto. Seria ótimo se mais pessoas conhecessem essa história. Talvez as coisas mudariam

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