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26 de setembro: dia de Marina Colasanti

A escritora faz 80 anos e um sem-número de histórias


Por Tiago Silveira


Marina Colasanti. Foto: Marina Manda Lembranças 



Assim foi nomeada la ragazza de olhar oliva que nasceu, em 26 de setembro, na ex-colônia italiana da Eritreia, nos cornos africanos, país banhado pelo exuberante Mar Vermelho-Sangue de mênstruo de azul tranquilo. Sempre itinerante, nossa Passageira em trânsito saiu de lá por volta dos dois anos e foi para a Líbia. Passou um período na Itália, mas, devido aos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, sua família veio para o Brasil, em 1948. 

“Quando, em conversas, digo que nasci na África, sei que o interlocutor me vê quase entre choupanas, elefantes ao longe, poeira erguida por um jipe, o Sol abrasador recortando a silhueta da savana. A África, para os brasileiros, é sempre um filme da África”, escreveu em Minha guerra alheia, memórias de sua primeira infância. 


Viveu durante seus primeiros anos a ganancia do imperialismo sórdido que culminou na Segunda Guerra, com Mussolini declarando guerra à França e ao Reio Unido na apinhada Piazza Venezia. E lembra: “Várias canções de guerra fizeram parte do nosso repertório infantil”. 


Aos dez anos, foi morar na castelosa casa do Parque Lage, no Rio. Essa construção esteve ligada às questões da Guerra, pois parte de sua família estava no Brasil e outra, em Roma. Morou nessa casa por pelo menos dois anos, junto a seu irmão Arduíno Colasanti, que foi então ator do Cinema Novo, “príncipe submarino”, como declarou o diretor Luiz Carlos Lacerda. 


Sobre seus primeiros tempos no Brasil, escreveu o livro de memórias Minha tia minha me contou, uma história de amor à sua tia-avó, a qual foi responsável por sua vinda a este país. Diva por biografia e personalidade, como diz Marina, Gabriella Besanzoni adorava cantar e percorria o mundo. 


Começou a estudar pintura muito cedo, por volta dos 15. Depois, Estudou Belas Artes, e começou a trabalhar com gravura em metal. Além de artista plástica, trabalhou em TV, revista, jornal, tradução, foi publicitária e ilustradora. Escritora de várias idades, dá preferência a textos curtos, como contos, crônicas, ensaios, poemas. Marina dedica-se também à produção de contos de fada, o que a diferencia dos escritores brasileiros e a faz uma das escritoras mais completas de nossa literatura. 


Com mais de cinquenta títulos publicados, Marina é escritora premiadíssima. Tem coleção de Jabutis e prêmios da Câmara Brasileira do Livro, do Concurso Latino americano de Cuentos para Niños, da Fundação Nacional do Livro Infantil, e é recentemente anunciada como vencedora da XIII edição do Prêmio Iberoamericano SM de Literatura Infantil e Juvenil. 


Apaixonada pelas palavras, escreve também sobre leitura, escrita e literatura, como os ensaios de Fragatas para terras distantes. Ela diz que sua atividade como escritora é consequência de suas leituras, e acredita ser impossível construir alunos leitores sem professores que não são leitores. Atribui o fato de o Brasil ser pouco leitor à pouca importância que damos à leitura como elemento de desenvolvimento, e portanto temos poucas bibliotecas e muitos analfabetos funcionais. 


A escritora diz que nunca pensou chegar aos oitenta, pois alguns parentes morreram muito cedo, e se acha sortuda chegar a essa idade. Para ela, morte – que trancou uma vez no armário em um conto – é um tema que se fala pouco, mas adora entrar por essa “porta escura”. “Eu conto meu tempo, hoje, de uma maneira diferente do que contava antes. Eu não desperdiço tempo nenhum. O tempo se tornou mais precioso do que sempre foi”. 




Menina do


Marina começou sua carreira jornalística no Caderno B do Jornal do Brasil, levada por Yllen Kerr e Millôr Fernades. Leitora atenta e com largo conhecimento de mundo, foi ser copidesque, a primeira daquele jornal, atividade hoje em desuso. O B ganhou repercussão nacional no segmento da cultura, sobretudo do Rio, nas palavras de Marina, espalhando o pólen carioca para todo País. 


Pauteira, lia muitas revistas estrangeiras, como americanas, francesas, italianas, para ver o que estava acontecendo no mundo e então transmitir para a pauta. “Nós não éramos pautados pelos divulgadores. Éramos pautados pela vida cultural não só do País, como de fora”, diz. O jornalista Alberto Dines era o então editor chefe. Criativo, estimulava a criatividade das meninas e meninos do B. Junto com Yllen Kerr na reportagem e Carlos Leonam na coluna social, criaram uma página de verão, com Marina responsável pelas ilustrações e crônicas. 




Marina na redação do Jornal do Brasil. Foto: Marina Manda Lembranças 




Vários textos de Marina não passaram pela censura prévia do período ditatorial. Às vezes, o jornalista Tite de Lemos segurava as crônicas por já saber que não ia passar. No entanto, É, onde lista coisas proibidas sem colocar a palavra “proibido”, apenas no fim, passou. 



"É" passou pela censura ditatorial. Foto: Marina Manda Lembranças


Trabalhar no Jornal do Brasil foi determinante para a carreira de escritora de Marina. Aliou os conhecimentos adquiridos no Jornal e aos adquiridos por meio de muita leitura e se fez jornalista e escritora. “Me fiz escritora no Jornal. Eu aprendi a escrever no jornal, para o jornal. Só depois passei a escrever para mim”. 




Eu sou uma mulher 
Eu sou uma mulherque sempre achou bonito menstruar.
Os homens vertem sangue por doença sangria ou por punhal cravado, rubra urgência a estancar trancar no escuro emaranhado das artérias.
Em nós o sangue aflora como fonte no côncavo do corpo olho-d'água escarlate encharcado cetim que escorre em fio.
Nosso sangue se dáde mão beijada se entrega ao tempo como chuva ou vento.
O sangue masculino tinge as armas e o mar empapa o chão dos campos de batalhar espinga nas bandeiras mancha a história.
O nosso vai colhido em brancos panos escorre sobre as coxas benze o leito manso sangrar sem grito que anuncia a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar. Pois há um sangue que corre para a Morte. E o nosso que se entrega para a Lua.



In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993 




Em um mundo misógino e averso ao feminino, nada melhor para começar a falar da mulher-escritora Marina Colasanti do que evocando imagens do feminino por meio de Eu sou uma mulher. Seria redundante usarmos o termo “mulher-escritora” se não fosse um posicionamento político, pois, historicamente, o mundo das letras foi exclusivamente masculino. 


Para podermos imergir nos textos e desvelar o que está por trás das palavras, é necessário contextualizar a obra, posicionando-a no meu momento histórico. Dessa forma, a literatura feminista de Marina é espelho da condição da mulher atual e também ato de transgressão, pois a cultura também é espaço de lutas sociais, como bem ilustra Virgínia Leal (2010): “ser uma escritora contemporânea é dialogar com a história da inserção das mulheres no campo literário, considerando-se a atuação dos movimentos feministas como força social”. 


Marina e Clarice Lispector no início
da década de 60. Foto: Marina Manda Lembranças

Marina interessou-se por questões de gênero muito cedo, profissionalmente com a escrita de ensaios jornalísticos sobre comportamento, em 1960. Suas primeiras obras em 1970 já apresentavam a temática da mulher, e, entre 1985 e 1989, foi membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. 

“É como se as estatísticas brasileiras de violência contra a mulher não nos cobrissem de vergonha. E se basta uma porta doméstica fechada para legitimar a violência, porque se veria inibida no aperto anônimo de um ônibus ou vagão?”, escreveu em crônica motivada por kit-defesa distribuído pelo Movimento Mulheres em Luta no metrô de São Paulo, para chamar atenção sobre o assédio e a violência machista que ocorre nesses espaços. 






Balada dos casais



Casada com o também escritor Affonso Romano de Sant'Anna, eles completam juntos oitenta anos este ano, uma vida de parceria. Como diz na dedicatória de Passageira em trânsito, partilham dupla viagem de vida e poesia. Estão juntos também no álbum Balada dos casais, do cantor, compositor e poeta mineiro Thelmo Lins, que reúne poemas musicados de Marina e Affonso. 


Marina continua sempre em trânsito viajando o Brasil e o mundo, participando de conferências, palestras e congressos sobre escrita, leitura e Literatura. Continua com seu olhar apurado sobre o mundo e escrevendo para jovens e adultos. Toda quinta, temos uma crônica de primeira em seu site




Marina e Affonso. Foto: Marina Manda Lembranças

Um comentário:

  1. Liiiindaaaaaa matéria perfil!! Já pensou esse feat Marina Colasanti e Clarice Lispector na presidencia do brasil minha gente? queria

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