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As experiências universitárias dos estudantes estrangeiros na UFRN

Por Ana Flávia Sanção e Marcelha Pereira
Foto: ilustração
Uma das grandes possibilidades que a universidade pode oferecer são as conexões interculturais que ela nos permite criar durante nosso período acadêmico. Não indiferente a isso, a UFRN, considerada uma das melhores universidades do Norte-Nordeste brasileiro e entre as 50 melhores da América do Sul, recebe todos os anos uma média de 30 alunos intercambistas. São eles estudantes europeus, norte-americanos, latinos, nórdicos, africanos e asiáticos, que procuram uma ampliação de seu conhecimento e cultura.


Entre os principais programas de intercâmbio está o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que traz alunos de universidades de países em desenvolvimento que possuem acordos educacionais e técnico-científicos com a UFRN, principalmente da África e da América Latina. Além de outros programas, há também a mobilidade acadêmica, que permite que alunos de universidades parceiras venham estudar durante períodos limitados, normalmente de seis meses a um ano.


No ranking das nacionalidades mais frequentes estão Portugal, França, Espanha, China e Argentina. Já os cursos que mais recebem, segundo Dr. Márcio Barbosa, Chefe do Escritório de Relações Internacionais, são Letras e Arquitetura. Só no intervalo de 2007 a 2017, a UFRN recebeu 421 estudantes internacionais. sendo 2012 o ano de maior acolhimento, com 62 alunos.


Márcio Barbosa. Foto: Tribuna do Norte
A Universidade enxerga com grande importância esse recebimento dos estudantes de fora do país. Barbosa diz que a internacionalização é fundamental porque ela permite à UFRN conhecer novas culturas e, através desse conhecimento, conhecer a si mesma. De acordo com ele, cada aluno internacional que entra em contato com alunos brasileiros em sala de aula traz consigo um mundo diferente, um problema diferente com soluções diferentes.


“Conhecer essas culturas diferentes é importante para promover também a paz entre os povos. Parece muito utópico dizer isso, mas eu vou pensar diferente de um país como o Iraque, por exemplo, se eu tenho um colega iraquiano na minha sala; o qual vai me dizer como é a vida lá, o dia-a-dia, o que as pessoas sofrem. Então os estereótipos que fazemos de outras culturas podem ser combatidos através do conhecimento interpessoal”, comenta o Chefe do Escritório de Relações Internacionais.


Como forma de oferecer um suporte aos intercambistas e ainda ajudar na interação deles com os nativos, cada aluno que chega deve receber um padrinho. Esse tipo de suporte integra o programa chamado Exchange Fellow, no qual um estudante brasileiro da UFRN, preferencialmente do curso daquele aluno que está chegando e obrigatoriamente que fale a mesma língua que ele, torna-se seu padrinho.


A função desse padrinho é dar uma espécie de alicerce ao intercambista até que ele seja capaz de se orientar bem pela universidade e cidade. “Não é que o padrinho vai fazer as coisas pelo outro, mas vai dar informações e ajuda ao novato a chegar a um local específico, por exemplo”, explica Barbosa.


Mansour Gakou. Foto: Marcelha Pereira
Contudo, ao conversar com alguns alunos intercambistas, é observada certa falta de alunos para serem Exchange Fellows voluntariamente. Nem todos os intercambistas recebem o padrinho, como idealizado. O estudante de Arquitetura Mansour Gakou conta que, como secretário da Associação dos Estudantes da PEC-G, ele encara frequentemente esse tipo de situação.


“Tem um amigo meu que na hora de chegar em Natal, ele foi para a SRI com as malas. A SRI ligou para a gente perguntando se alguém poderia ir lá recebê-lo. Eu saí de aula e fui, mas sem saber o que fazer. Então tivemos que deixá-lo em nossa casa até que ele pudesse ter as condições de procurar um apartamento ou kitnet”, desabafa. O caso é parecido com o de Océane Le Gouareguer, francesa da Ilha Reunião, que, apesar de conhecer o programa, não possui um Fellow. “Não, eu sei nada sobre isso. Minha faculdade apenas me mandou para cá e disse ‘divirta-se’. A administração de lá é a mesma daqui - terrível”.



As experiências universitárias dos intercambistas


A vinda desses estudantes significa uma troca. Eles trazem uma bagagem com suas experiências dos seus países de origem e ao mesmo tempo que ensinam, aprendem com os alunos brasileiros. Com diferentes contextos sociais, eles se integram a um novo ambiente de socialização. O Caderno de Pauta para conhecer mais um pouco de suas experiências, sentou para conversar com quatro deles.


Adrian Makowski. Foto: Marcelha Pereira
Adrian Makowski é polonês, tem 23 anos e veio da Escola Superior de Arquitetura e Urbanismo de Marselha, na França. Escolheu o Brasil porque queria conhecer a América Latina e optou pela nossa cidade por ela ser litorânea e pela sua vontade de conhecer o surf.


Está aqui há seis meses e vai ficar até o final do ano. A principal diferença que sentiu da França foi a maneira de ensinar. “Aqui tem uma relação estudante-professor mais perto, aqui somos mais cooperativos. Na França, há uma distância entre professor e estudante. Aqui somos um pouco mais juntos, somos mais perto de outros estudantes também”.


O polonês prefere não comparar muito as culturas, segundo ele, não dá para dizer exatamente o que é melhor ou pior.  “É apenas diferente, mas é realmente interessante”, finaliza. A respeito das pessoas, diz que elas são muito gentis, principalmente as da Vila de Ponta Negra, seu lugar preferido da cidade.  


Mansour Gakou. Foto: Marcelha Pereira
Mansour Gakou tem 22 anos e vem do Senegal, África. Lá, ele fazia Biologia, mas parou o curso para vir para o Brasil estudar Arquitetura pelo programa PEC-G. Está aqui há três anos e conta que tentou oito cidades antes de decidir vir para Natal: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador, Fortaleza, Recife e Minas Gerais. Nenhuma dessas cidades tinham vagas disponíveis para o programa, então ele acabou optando pela Cidade do Sol.


Sobre sua experiência como estudante estrangeiro, revela que há muitos pontos culturais semelhantes e que aprendeu muito com o país. “Tem muita riqueza em termos de cultura, paisagem, construção. Agora, o lado negativo é o choque de você sair de um país, vir para um outro e enfrentar a violência”, diz.


Antes de chegar ao Brasil, Mansour não entendia o que era racismo e não soube que estava sendo vítima de uma ação racista quando, em um bar de Salvador, duas mulheres mudaram de mesa para não sentar perto dele. Só veio saber um tempo depois, quando falou sobre o ocorrido com um amigo. “Eu saí de uma realidade onde a gente não conhece o racismo, não encara o racismo, não entende o conceito de racismo”, comenta.


Quando perguntado sobre a recepção que as pessoas brasileiras tiveram com ele, o estudante de Arquitetura diz que é difícil julgar porque depende de pessoa para pessoa. Durante esse tempo em Natal, ele encontrou muita gente. Tanto pessoas que o acolheram bem, quanto pessoas que não foram assim tão receptivas. No geral, Mansour Gakou se demonstra feliz por estar no Brasil, especialmente em Natal, apesar dos desafios cotidianos.  


Océane Le Gouareguer. Foto: rede social
Océane Le Gouareguer é natural da Ilha Reunião, território francês no Oceano Índico. Aos 22 anos, decidiu fazer intercâmbio para Brasil após um de seus professores dizer que as pessoas eram “mais legais e mente abertas”. Até então ela não sabia muito sobre a América do Sul - mas mesmo assim não se arrependeu. Há um mês morando na Vila de Ponta Negra, ela elogia o carisma a simpatia de seus conhecidos brasileiros.


“As pessoas aqui são sempre receptivas. Apesar de eu não falar português muito bem, elas me ajudam. Na França, é completamente diferente. Quando você é um estranho, as pessoas não perdem tempo explicando. É muito difícil se você não fala francês. Mas aqui é maravilhoso”, conta.


A socialização para ela é a parte mais importante. Apesar de não ter um Exchange Fellow, Océane mora com duas brasileiras na Vila de Ponta Negra, ela diz que é feliz e que isso a ajuda a aprender o português, a cultura e “como ser brasileira”.


Boris Alcaraz. Foto: rede social
Boris Alcaraz, de 21 anos, é um boliviano que adora o mar; esse foi o principal motivo por ter escolhido a cidade do Natal. Ainda novato na UFRN, estando aqui há apenas duas semanas, já começou a entender o português, apesar de não conseguir falá-lo ainda. Para ele, as principais mudanças foram o clima e o tamanho do campus universitário. “É a primeira vez que eu visito um campus universitário tão grande. Eu me perdi no meu primeiro dia. Eu tive de pedir ajuda e foi bem difícil entender para onde eu deveria ir”, revela.


Ainda sobre as diferenças culturais, Boris relata que as pessoas são mais amigáveis e abertas aqui do na sua cidade de origem, Sucre, na Bolívia. Ele se sente como se estivesse na sua nova casa. “A universidade é muito legal e as pessoas estão sempre abertas para tudo, são muito sociáveis”.


Outro ponto importante para ele é o aprendizado que o contato com a nova cultura trás. “É uma grande mudança de maneiras, comportamentos, clima e lugares. É uma oportunidade de aprender novas coisas, novos hábitos, novos locais e a conhecer a cultura brasileira”.

*Algumas entrevistas foram traduzidas do inglês para o português

Mais informações: http://www.sri.ufrn.br/

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