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Campus do IFRN celebra crescimento no número de ingressantes portadores de necessidades especiais

Pela primeira vez, o campus São Gonçalo do Amarante consegue preencher todas as vagas destinadas às ações afirmativas para pessoas com algum tipo de deficiência 

Por Francisca Pires

Rebeca Pessoa de Brito
“Estudar aqui tem sido uma experiência que nunca vivi! Não me arrependo nenhum pouco de ter feito o processo seletivo, pelo contrário. Os professores têm se empenhado muito para me ajudar, nós formamos uma grande parceria que vem dando certo”, comemora Rebeca Pessoa de Brito, estudante do curso técnico integrado em Logística no IFRN. 

Rebeca tem 14 anos e aos três foi diagnosticada com Artrite Crônica Juvenil - doença silenciosa que costuma apresentar sintomas somente em estado já avançado. A inflamação nos ossos acabou afetando a visão, comprometendo-a completamente com o passar do tempo. 

A jovem chegou a viajar até Recife em busca de tratamento, mas nenhum médico lhe deu algum tipo de esperança, todos diziam que transplantes e demais tratamentos não eram capazes de mudar sua situação. “Resolvi não arriscar, pois ainda consigo ver a claridade e tinha medo de depois dos procedimentos não conseguir mais ver nada. Logo, comuniquei essa decisão aos meus pais”. 

Ela relata nunca ter se sentido verdadeiramente excluída, mas que precisou buscar meios de desenvolver seu aprendizado nas escolas em que estudou, por não encontrar a estrutura necessária para o atendimento de suas demandas diárias. Suas esperanças se renovaram ao ver no Instituto Federal uma oportunidade de encontrar suporte para seu desenvolvimento acadêmico e pessoal.

“Há quatro anos eu frequentava o CAP (Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual) de Lagoa Nova. Até que em 2016, um colega, também deficiente visual, fez o processo seletivo do IFRN e foi aprovado para o campus Natal-Zona Norte. No ano seguinte, meus professores e familiares começaram a me incentivar para fazer o processo seletivo também, me contaram sobre a estrutura, os recursos que o IF poderia oferecer para o meu aprendizado e eu decidi fazer”.

Para realização do processo seletivo, Rebeca precisou do auxílio de um funcionário do campus que leu as questões, marcou as alternativas que ela escolheu e transcreveu sua redação. Além disso, foi ofertada à aluna uma sala separada dos demais e uma hora a mais para a realização de prova. 

Luan Redmann
O mesmo procedimento foi realizado na aplicação da prova do ENEM de Luan Redmann, aluno da graduação em Redes de Computadores. Ele, por sua vez, possui sequelas motoras e na fala em decorrência de uma doença rara, diagnosticada quando ele tinha apenas seis anos. Luan, hoje com 19 anos, comenta que quando começou a apresentar os primeiros sintomas da Síndrome de Adem, só haviam 3 casos relatados no mundo inteiro (o dele, um caso na Alemanha e outro nos Estados Unidos). Os médicos tiveram dificuldades para estabelecer um diagnóstico fixo, visto que seus sintomas também se encaixavam em um quadro de esclerose múltipla. 

A respeito de exclusão social e preconceito, ele conta: “É engraçado falar sobre exclusão, porque eu nunca sofri bullying por parte de ninguém. Depois de um tempo percebi que o preconceito que eu achava que sofria era algo da minha cabeça, partia de mim mesmo. Então, resolvi mudar, me amar mais, trabalhar minha autoestima e estou bem mais feliz. Aqui no IFRN é tudo maravilhoso, eu adoro esse lugar! Meus professores e colegas são demais, me tratam muito bem. Nunca me senti diferente”. 

O estudante finaliza descrevendo que assiste aulas normalmente. Somente para a realização das atividades avaliativas, assim como Rebeca, faz uso de um notebook ofertado pela instituição. 

Atualmente, o campus São Gonçalo do Amarante contempla cinco alunos portadores de necessidades especiais em seu corpo discente, quatro na modalidade técnico integrado e um na modalidade de graduação. Para atender as demandas desses alunos, a instituição possui o NAPNE - Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais. 

Yane Ramalho, professora e coordenadora
Yane Ramalho, professora e coordenadora do núcleo, explica os detalhes da atuação deste grupo: “O NAPNE em São Gonçalo do Amarante começou desde a criação do campus, mas está em atuação de fato desde o ano passado. O núcleo é composto por professores, servidores do campus e equipe multidisciplinar - psicólogo, pedagogo, assistente social e intérprete de libras. As intervenções começaram pelos professores e técnicos administrativos nas reuniões pedagógicas, buscando informá-los e sensibilizá-los a respeito da inserção destes novos alunos portadores de deficiência”. 

A professora conta que em 2018 o NAPNE tem atuado de forma mais ativa em virtude da presença desses cinco alunos, em especial da Rebeca - primeira deficiente visual a ingressar no campus. Há preocupação específica quanto à sua acessibilidade que exige uma maior adaptação por parte do corpo docente e dos servidores. Os professores passaram a procurar com frequência o Núcleo para sanar suas dúvidas e aprender como planejar suas aulas de modo a incluir esses alunos.

“Depois de 2016, com a legitimação das ações afirmativas, houve uma busca maior por parte destas pessoas. Nós desejamos receber bem mais daqui para frente, o objetivo é ter, em cada turma, até quatro alunos portadores de algum tipo de deficiência. O IFRN lida bem com o acolhimento destas pessoas, mas tudo é uma questão de tempo e adaptação. O NAPNE trabalha muito com essa visão de formação dos professores e alunos. É uma transformação na sala de aula, os discentes passaram a buscar incluir e não excluir essas pessoas como acontecia antigamente”.

Ao ser questionada quanto às principais dificuldades presentes na instituição, Yane destaca: “O que podemos fazer para melhorar, nós estamos fazendo. A maior dificuldade no momento é a falta de um espaço físico para o núcleo, visto que o objetivo é poder ofertar um maior acolhimento ao aluno que precise ser atendido. O NAPNE agora luta, também, por mudanças na estrutura da instituição, a fim de melhorar ainda mais a acessibilidade. Em termos de materiais didáticos, estamos buscando trazer livros em braille, já que a Rebeca possui total domínio”. 

Além disso, a coordenadora salienta a necessidade da criação de parcerias governamentais entre institutos voltados a atender exclusivamente essas pessoas e as escolas, sejam elas estaduais ou federais. Assim, o suprimento das necessidades e o atendimento destes alunos começará a ser feito de forma mais rápida, sistemática e completa.

Luiz Alberto Pimentel, diretor acadêmico
Acerca de possíveis queixas de bullying realizadas pelos alunos com necessidades especiais à direção do campus, o diretor acadêmico, Luiz Alberto Pimentel, afirma: “Alguns dos alunos não declaram sua deficiência para a direção da instituição e nós acabamos descobrindo no decorrer do ano letivo, por meio do trabalho da pedagogia. Quando isso acontece fica mais complicado acompanhar de perto a interação entre esses discentes. No entanto, aqueles que são declarados, são muito bem recebidos pelos colegas, eles costumam ser ‘adotados’ pelos amigos que, por conta própria, disponibilizam-se a dar o suporte necessário no dia-a-dia”. 

Luiz conta que o IFRN preza por uma perspectiva de inserção de inclusão muito clara, presente desde a própria missão da escola. É importante ter esses alunos justamente pela busca de uma educação que respeite as diferenças: “Ainda existem muitas dificuldades, porém fica claro todos os dias que eles têm muito a nos ensinar e ensinar aos seus colegas. É uma construção diária, estamos todos aprendendo juntos”. 

A Rebeca e o Luan, personagens do início dessa matéria, possuem muitos planos. Ela pretende finalizar o curso técnico em Logística e em sequência ingressar no ensino superior. Formar-se em Logística ou Administração para que possa ser uma grande empresária, proprietária de uma grande rede de lojas. Ele, por sua vez, apesar de cursar uma graduação voltada à tecnologia, sonha em outra área: a educação. Luan tem o objetivo de estudar Letras para lecionar e ser um grande professor de português. Ambos acreditam na mudança através da educação, por outro lado os educadores acreditam que eles estão mudando a forma de educar. Nessa parceria, na qual a diferença une, todos acabam ganhando.

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