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Das coisas que importam

Por Luiza de Paula

Por volta dos meus 12 anos, em 2010, quando pela primeira vez uma mulher pisou com honrarias presidenciais no Palácio do Planalto, quando o Rio de Janeiro presenciava uma guerra e a tropa de elite tomou o Morro do Alemão, quando os franceses protestavam contra a reforma da previdência e quando não poderíamos prever que, 8 anos depois, a guerra no Rio ainda persistia e que viraríamos “Je suis français” no brado contra uma terrível reforma previdenciária no Brasil, ouvi nessa época esta frase sabiamente dita por um parente distante, naqueles almoços familiares feitos aos domingos: “Na vida temos no máximo cinco amigos. Precisamos apenas de uma mão para contá-los.” 

Lembro dos meus ouvidos curiosos e olhares atentos para tentar captar a proposição que para mim, à época, mais parecia uma frase de efeito. Soava tão incoerente quanto Michel Temer na presidência do Brasil e tão nonsense quanto a arte dadaísta. Afinal, eu tinha altíssima convicção – comportamento típico dos 12 anos – que cinco amigos não constituíam nem um quarto do total da minha galera.

De todo modo, meu hipocampo jogou um futebol direitinho e armazenou na memória de longa duração aquela expressão que, apenas anos mais tarde, ressurgiu como uma fênix e que, só então, pude comprovar, empiricamente, a sua veracidade. E para tal, não pensem que sai brigando com o mundo. Não. É que a breve e singela maturidade dos 19 permitiu-me abstrair mais adequadamente a exteriorização da amizade. Defini-la seria inútil. 

Prefiro dizer que a sua manifestação nos permite apenas que sejamos como somos. E sermos, acredite, é um dos nossos maiores desafios dessa vida.
Imagem: Wallpaper Abyss
                                                                                 


Percebo isso cada vez que surge uma conversa genuína, íntima e profunda – como aquelas que, em hipótese alguma, devemos ter com colegas. Vejo, também, a personificação da amizade nos jantares, nos churrascos. Nas ligações saudosas para amiga que mora fora. Na fossa. Nos medos, na ansiedade causada pelos amores. Nas bebedeiras. Na alegria. No glitter, no Carnaval. No verão e no inverno. No aniversário de uma amiga que fez 20 anos – achei uma afronta a chegada tão rápida e sorrateira dessa idade que soa como se nós fôssemos gente grande, fortes e independentes – mas que nada. 

E desde que meu olhar começou a ser educado para capturar as sutilezas e delicadezas da vida (por culpa boa de Clarice, Eliane Brum, Rubem Braga, Manoel de Barros e Maria), ando tendo doses de epifania com aquilo que é singelo: o velho e bom cotidiano, tão cheio de grandiosidades espirituais; tão rico de coisas que têm a desimportância como fachada, mas que são tão grandiosas e virtuosas. Alô amigas e amigos. Alô família. 

Oito anos depois, abandonei as convicções, adotei e coloquei no lado esquerdo do peito o olhar alerta e segui com o quarto da minha galera de 2010. A eficiência é de 100%. Recomendo! No final das contas e da vida, é isso que importa. Um salve para a minha, a nossa turma! Aqueles que, como disse Elis Regina, só tomaram champanhe conosco, após a ingestão de muita grama em conjunto.

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