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Marielle, Presente!

Por Luiza de Paula
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FOTO: NEXO JORNAL. THAIS ALVARENGA/REPRODUÇÃO/FACEBOOK
Quatorze de março. Bairro do Estácio, Rio de Janeiro. E mais uma “Da Silva”, como tantas outras, fora assassinada em um ato expresso de ódio, intolerância e covardia. Cria da Maré, negra e pobre, ousou ultrapassar o muro elitista da Pontifícia Universidade Católica – PUC/RJ –, conseguiu bolsa integral e formou-se Cientista Social.
Não satisfeita, foi parar na Universidade Federal Fluminense para fazer mestrado em Administração Pública. Inteligentíssima. Cheia de conhecimento de causa para falar com propriedade acerca da desigualdade, favelização, crime organizado. Foi acompanhar de perto a Intervenção Federal na área de segurança pública e denunciou determinados abusos dessa operação.
O fatal foi a sua defesa pelos Direitos Humanos, afinal, não sei que tipo de ignorância consentida quase generalizada, que literalmente blinda uma parte significativa da população de entender o básico, o basilar, sobre Direitos Humanos. Aqueles lá que respaldam nossa vida, instituem nossa liberdade de expressão, dignidade da pessoa humana – o que parece ser um grande problema - direito à educação, coisa e tal...  Ou seja, “Direitos que defendem bandidos”. Perceberam que a premissa não bate com a conclusão? O ideal seria: ou seja, direitos que defendem a dignidade do ser humano.
Mas aí é como eu disse, essa tal da dignidade é um problema. Querem que ela seja seletiva. E por Marielle considerá-la um dos pilares principais para a solução dos nossos problemas, e por não restringi-la apenas ao político que foi preso por colarinho branco e exige bons tratamentos no sistema carcerário, é que foi morta. Pagou com a própria vida por defender a dignidade da pessoa humana sem restrições de classe. Pagou com a própria vida por lutar contra opressão.
Intelectual, negra, da Maré.  Direitos Humanos. Luta LGBT. Feminismo. Da esquerda política. Tudo isso parece demais para uma sociedade fortemente desigual, racista, com pavor aos Direitos Humanos, que engole obrigada – quando engole – a causa LGBT; a concentração dessas bandeiras em uma só pessoa, para uma coletividade com graves resquícios do patriarcado, misógina e machista, foi considerada uma cruz pesada demais.
Assassinada com a tentativa de calar uma voz legítima, política, eleita por mais de 45 mil votos vereadora do Rio de Janeiro. E pessoas serem mortas pelas suas ideias é gravíssimo. E pessoas serem mortas por defenderem os Direitos Humanos é totalmente incompreensível. E pessoas serem mortas por denunciarem o crime organizado e os abusos de profissionais durante o exercício da sua profissão é algo aterrorizante.
Tudo bem que não vivemos em uma plena Democracia, mas crimes como estes são a decretação da falência de parte robusta do Estado Democrático de Direito.
Um crime político, mas o MBL, determinados deputados e parte das pessoas estão divulgando fake news, segundo o jornal El País, sobre Marielle. Um crime político, mas estão tentando desvirtua-lo. Uma morte, mas isso parece ser secundário.
É, Marielle. Tempos sombrios por aqui! Tentaram, covardemente, calar a tua voz, consequentemente, as tuas lutas. Ingênuos! Reacenderam com todo clamor cada bandeira levantada por você. Somos resiliência pura, por isso lembramos: “faz da tua dor a tua luta.” Aquela velha luta do feminismo, da defesa dos Direitos Humanos, de olharmos pra favela de forma lúcida, do olhar atento para LGBTfobia. Eu não vou conseguir me empenhar totalmente em todas elas, mas junto comigo tem uma multidão incansável e juntos iremos reparar cada uma com atenção máxima.
Sabe, Marielle, iremos ter vigilância redobrada para que eu não volte a falar, assim como falei na primeira aula que “ministrei” – entre mil aspas - sobre mortes políticas. Falava de Vladmir Herzog enquanto você era brutalmente assassinada. E isso não sai da minha cabeça. Não parece real, porque não pode ser real. Mas foi. Só que a sua representatividade e simbolismo são do tamanho de algo que eu não sei o nome ainda.
Esse texto foi barra pesadíssima de fazer, Marielle. Ficou todo torto, meio sem compasso. Tentei escrever pra você, pra aliviar a sua dor e a minha dor. Mas isso foi violento demais. Não cabe em palavras. Não cabe em nada.
Marielle, presente! Agora e Sempre!

Um comentário:

  1. Triste realidade. Muito bem expressada. Parabéns Luíza. Excelente artigo.

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