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Recuperando a Ribeira junto à sociedade


Muitas tentativas de revitalizar a localidade histórica de Natal foram feitas ao longo dos anos, a mais recente vem do campus universitário da cidade


Por Ana Beatriz Cordeiro, Anna Vale, Germano Freitas e Hilda Vasconcelos


O bairro da Ribeira, núcleo boêmio e cultural da cidade do Natal, vem sendo alvo de tentativas de reconstrução e revitalização desde os anos 90. Esse esforço se dá com o intuito de preservar suas edificações históricas, que demonstram algumas das mais antigas referências à arquitetura modernista na cidade. 

A mais recente iniciativa para “reviver” o segundo bairro mais antigo de Natal veio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em parceria com a Caixa Econômica Federal, Ministério das Cidades e Prefeitura do Natal, por meio da primeira edição nacional do concurso universitário BID UrbanLab.

Com o objetivo de “buscar soluções criativas e ideias inovadoras para os problemas urbanos da América Latina e do Caribe,” a competição convidou universidades brasileiras a pensar projetos de desenvolvimento urbanístico, social e patrimonial inovadores para intervenção em bairros como a Ribeira. Foi a primeira edição do concurso em solo tupiniquim, que desde 2015, já ocorreu na Cidade do Panamá, Colômbia e, paralelamente à edição brasileira, em Mendoza, Argentina.

A primeira fase do concurso recebeu 40 propostas, das quais apenas metade foram aprovadas para a etapa seguinte. Destas, 7 provenientes da Cidade do Sol: 6 da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mais uma da Universidade Potiguar (UNP).

Entre as três finalistas, a equipe vencedora veio diretamente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFRN, com um projeto intitulado “Olhos da Ribeira”. Composta por Marcela Scheer, Dmetryus Targino, Nicholas Martino, Mariah Holder e orientada pela professora Ruth Ataíde, a equipe propôs um diálogo com os moradores do bairro para tomar as decisões que viriam a afetá-los. Além de oferecer-lhes a chance de se tornarem investidores na revitalização.

Sendo a única equipe potiguar entre as finalistas, os estudantes já estavam familiarizados com a situação do bairro desde muito antes do anúncio do concurso. Marcela, de 24 anos, por exemplo, era graduanda na época do concurso, mas possuía o conhecimento de uma vida inteira passada ali: “Eu passei minha infância e minha adolescência toda na Ribeira, porque estudei no Salesiano. Vi aquela praça [Augusto Severo] ser reformada e os terminais de ônibus mudando mil vezes. Sempre foi um lugar com o qual eu me identifiquei muito”.
Dmetryus Targino (esquerda); Mariah Holder (topo); Nicholas Martino (direita) e Marcela Scheer (abaixo), integrantes da equipe vencedora / Foto: Cícero Oliveira

Além disso, ela explica que foi muito vista a questão da Ribeira como patrimônio histórico em projetos de pesquisa oferecidos pelo curso. No entanto, o concurso permitiu o aprofundamento desse conhecimento, como também de temas técnicos que não seriam tão estudados. Nicholas, também de 24 anos, completa que, ao contrário do concurso, na pesquisa, o estudo é muito voltado aos problemas e, não necessariamente, às soluções; uma mudança considerada bem-vinda.

Entre os muitos destaques do bairro, o que mais chamou a atenção da equipe ao visitar a Ribeira para avaliação, foi o Terminal Pesqueiro. Localizado na Avenida Tavares de Lima, é o lar da pesca artesanal do bairro, fonte de sustento de muita gente. Apesar da percepção popular de que estaria abandonado, os próprios pescadores foram fundamentais para entender alguns dos problemas que precisavam ser resolvidos ali. Dmetryus, 22, graduando de Arquitetura e Urbanismo, conta que enxergar a Ribeira pelos olhos da comunidade que vive ali, os ensinou algo que não está nos livros.

Na medida em que o processo de elaboração do projeto de revitalização foi iniciado, eles relatam que tudo parecia servir de inspiração: “Quando estamos fazendo projeto, tudo que a gente vê, pensa ‘meu Deus, isso vai ficar perfeito na Ribeira’”, exemplifica Marcela. Ela admite ter se apropriado de alguns elementos da revitalização do Recife Antigo. Foi a falta de experiência dos membros da equipe, no que diz respeito à participação em concursos, que os levou a explorar os projetos vencedores do BID Urban Lab em edições passadas. Sendo o primeiro ganhador, no ano de 2015, em Curundú, no Panamá, a sua maior inspiração gráfica e de apresentação de produto. 

Uma vez que as três equipes finalistas foram escolhidas, o produto final deveria ser apresentado em Washington D.C., nos Estados Unidos, na sede do BID, para uma banca de jurados e especialistas internacionais que formavam a comissão julgadora do concurso. Apesar do cenário, a apresentação seria em português, com tradução simultânea. Cada expressão era pensada e treinada, com o intuito de montar um discurso publicitário que vendesse a premissa do Projeto “Olhos da Ribeira”. A equipe teve direito a um dia de treinamento e a orientação do banco quanto ao roteiro, mas foram feitas mudanças até na véspera da apresentação. “Cada palavra foi pensada e decorada, parecia que eu estava fazendo discurso político,” conta Nicholas, o responsável pelo discurso.

Conforme o site do concurso, a equipe vencedora teria a oportunidade de validar e adaptar a sua proposta, trabalhando em parceria com técnicos locais, a Prefeitura, especialistas do BID, do Ministério das Cidades e da CAIXA, entre o período de fevereiro e março de 2018. No entanto, a equipe explica que essa movimentação ainda não ocorreu, devido ao momento turbulento vivido pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), de revisão do plano diretor – o que deixa os trabalhos na Ribeira sem prioridade. 

Ainda, tanto a equipe quanto a Secretaria, esperavam que os estudantes trabalhassem no projeto, mas o banco apenas os financiará por um mês. Dmetryus argumenta que o período é completamente inviável para a implementação de um plano de grande escala como esse, “não dá nem para juntar os dados suficientes para começar o projeto”. A estratégia para lidar com isso parte da Prefeitura, que pretende gerar um clamor social para o projeto a partir de uma exposição, incentivando, assim, o Banco Interamericano a financiá-lo.

Apesar dos altos e baixos que, inevitavelmente, vieram com a tentativa de colocar o projeto em prática, o grupo permanece empenhado e esperançoso. Em consenso, explicam que, se pudessem trabalhar em apenas um aspecto da intervenção planejada durante esse curto período, seria a criação de um deck a partir da Avenida Tavares de Lira - que apresenta grande potencial por seu tamanho. Além da revitalização do espaço já funcional do Terminal Pesqueiro.
Deck às margens do Rio Potengi, conforme apresentado na proposta / Foto: Olhos da Ribeira/BID Urban Lab

Foi observada, durante a fase de elaboração, a partir de conversas com as diversas comunidades presentes no bairro, que há, sim, o desejo de transformá-lo e recuperá-lo por parte dos seus próprios moradores. Além disso, o grupo nota que a gestão tem sido um problema nas tentativas anteriores de revitalizar o bairro, seja no emprego dos investimentos ou dos impostos cobrados. Assim, a inclusão da participação social foi pensada para equilibrar esses dois pontos: o cidadão, como investidor, seria parte essencial da tomada de decisões do projeto e estaria presente em todas as suas etapas. “Daí a gente teve a ideia de um aplicativo em que as pessoas poderiam opinar, ajudar na gestão, se mobilizar, fiscalizar e ter um sentimento de comunidade”, conclui Marcela. 

Apesar das dificuldades enfrentadas na implementação do projeto “Olhares da Ribeira”, é inegável seu potencial e o esforço empregado pela equipe em sua elaboração. Em uma proposta que se preocupou bastante em como aquilo seria viável e condizente com o que já existe no bairro, a equipe se apoiou no resgate da memória, no desenvolvimento econômico e na recuperação da vitalidade da Ribeira. Oferecendo uma nova possibilidade para a região, baseada no potencial natural, social e econômico que já possui.

Para o projeto completo, acesse o link.

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