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Ribeira para conhecer, desenhar e preservar


Projeto de extensão da UFRN leva pessoas a pensar e falar sobre o bairro

Por Ana Beatriz Cordeiro, Anna Vale, Germano Freitas e Hilda Vasconcelos

Segundo bairro na história de Natal, a Ribeira passou por muitos momentos, formas, reformas e teve sua relação com o restante da cidade modificada de diversas maneiras. Nascendo como bairro comercial, graças às mercadorias que vinham pelo Rio Potengi, a localidade logo se tornou o núcleo da cidade. Hoje, passa por um cenário de descaso e sofre com a estigma de insegurança.

Houve grande crescimento no início do século XX, com a construção da Praça Augusto Severo, que em seus arredores viria abrigar o Grupo Escolar de mesmo nome – sede do Atheneu e da antiga Faculdade de Direito. Até a década de 80, antes da relocação da rodoviária, acomodava grande movimentação devido à mesma e ao Porto de Natal, que desempenhou papel importante durante a Segunda Guerra Mundial. Neste período, veio o alto da atividade turística e boêmia, pelo qual o bairro é conhecido até hoje, com os cabarés e casas de entretenimento da época.

Lar de algumas das mais antigas referências à arquitetura modernista em Natal, o bairro sofre com o boato de que seus arredores são inseguros, devido a falta do trânsito de pessoas, sobrevivendo na estaca de local cultural e histórico. Em 1990, passou a integrar a Zona Especial de Preservação Histórica, junto a Cidade Alta. Diversos projetos de revitalização trataram de tentar guardar as suas construções e, ainda hoje, novas ideias surgem e tentam sair do papel. Enquanto isso, a Ribeira recebe eventos, como o Circuito Cultural Ribeira e as diversas festas na Rua Chile, além da atenção da academia.

Professor José Clewton e Professora Eunádia Cavalcante / Foto: Germano Freitas

Os professores José Clewton e Eunádia Cavalcante, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), são dois entusiastas quando se trata da Ribeira. Além da discussão natural que acontece dentro do ambiente universitário, durante as aulas e pesquisas, ambos são coordenadores do grupo Urban Sketchers em Natal. O grupo já realiza eventos na capital potiguar há cinco anos, com o intuito de praticar o desenho urbanístico. 

O bairro da Ribeira possui seus admiradores, apesar do descaso com o qual sofre diariamente daqueles que não a conhecem, por desinteresse ou falta de informação. É com o intuito de educar o público externo sobre a importância dessa área como patrimônio histórico e cultural da Cidade do Sol que os dois professores da UFRN, em parceria com o grupo Urban Sketchers, criaram o projeto de extensão “Ribeira Desenhada”.

O movimento Urban Sketchers nasceu do interesse do jornalista espanhol Gabriel Campanario em desenhos de locação, ou seja, feitos ao ar livre, que o levou a criar um blog, em 2008, para reunir outros entusiastas por esta atividade artística. Eunádia e José Clewton estão entre estes entusiastas na cidade do Natal, e foi por conta dos encontros mensais do grupo que surgiu a ideia de não só desenhar, mas pensar e discutir sobre o seu objeto de inspiração, por assim dizer.

Tendo em vista as movimentações anteriormente ocorridas em torno da Ribeira, as tentativas de “reavivar” o bairro por meio de intervenções governamentais ou privadas, era uma escolha natural, explica o professor José Clewton. Assim, foi formulada a ideia de juntar desenho e discussão do patrimônio da Ribeira, trazendo ao longo disso moradores e proprietários de edifícios históricos que debaterão em torno das permanências, resistências, descasos e insistências no decorrer da sua vivência no bairro.

A previsão inicial é que os encontros ocorram pelos próximos cinco meses, conforme o modelo mensal já usado pelo Urban Sketchers, e sejam movidos por essas conversas, com outras atividades ocasionais agregadas: na primeira edição, ocorrerá apresentação cultural da banda Líquidos Modernos, compostas apenas de pessoas vinculadas ao curso de arquitetura. 

Será apresentada ainda, uma exposição de imagens e registros das equipes que participaram da mais recente edição do concurso internacional BID Urban Lab, o qual buscava justamente soluções criativas e inovadoras para a revitalização do bairro. Intitulada de “Apropriar Ribeira”, mostra o olhar das equipes em fotografias e desenhos iniciais; como enxergaram a vivência e a necessidade daquele lugar para o desenvolvimento das propostas.

A professora Eunádia explica a importância da apropriação do bairro para conseguir ver além dos estigmas criados pela sociedade: “Você conversa com pessoas, principalmente os mais jovens, e eles têm a Ribeira como um lugar abandonado, que não acontece nada lá, e essas imagens mostram o contrário: que tem vida na Ribeira, que tem trabalho na Ribeira, que as pessoas estão por lá”. 

Infelizmente, o fechamento do Teatro Alberto Maranhão, maior atrativo cultural e gerador de movimento noturno do bairro, dificulta o engajamento da população. Apesar disso, o espírito boêmio ainda permeia o bairro que, de tempo em tempo, é agraciado com um evento de certo calibre, como o Festival MADA, no passado; o Festival Literário de Natal e o Ribeira Boêmia, mas, sem ações ou espetáculos a serem realizados, não há movimento noturno.

Ela explica que, por conta do descaso e abandono de algumas edificações por seus proprietários, existem locais construídos para abrigar atividades comerciais, de serviço ou moradia que são ignorados em favor de imóveis localizados nas “beiradas” do bairro, no que chamam de “Nova Ribeira”, em negação da original. Essa negação se estende aos órgãos públicos, como a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), que abandonou prédio próprio em favor de aluguéis por toda a cidade. “Esse tipo de ação retira o movimento do bairro,” reforça a professora.

Mas existem também aqueles que sabem apreciar o valor arquitetônico e histórico dos prédios da Ribeira. É o caso da recém-inaugurada Galeria B-612, na Rua Doutor Barata. O edifício já foi lar de um banco e de uma gráfica mas, ao adaptar o imóvel para o novo empreendimento, o proprietário procurou manter e respeitar a sua história. “Foi uma intervenção muito cuidadosa e interessante. Acredito que pouca gente na cidade saiba da existência desta galeria e desta importante iniciativa de insistência na Ribeira como um espaço a se investir,” aponta Eunádia.

Outra estrutura cuidadosamente conservada é a do Edifício Bila, localizado na Rua Duque de Caxias, e escolhido pelo Projeto Rehabitar, em 2008, para uma intervenção por parte da SEMURB, apesar de a iniciativa ter nascido do dono do imóvel, e que funciona hoje para residência e comércio. É nele que acontecerá o primeiro encontro do projeto, no Nalva Melo Café Salão, cuja proprietária, a mencionada Nalva Melo, cabeleireira e animadora cultural, puxará a primeira conversa, em conjunto com Alexandre Gurgel, morador do Bila.

Quanto ao público, Eunádia garante que os próprios participantes do Urban Sketchers não são apenas arquitetos, mas todos aqueles que se interessarem por desenho e pela cidade. A preocupação está nos olhares de cada um e em sua forma de registro, seja grafite, canetinha, aquarela, etc. “O importante é estarmos juntos para observar a cidade, observar esses lugares, e a partir dos nossos registros, compreender e discutir a cidade,” explica.

Foto: Divulgação
Entre artistas, amantes da Ribeira, “pessoas que insistem em gostar do bairro” e o próprio público do Café Salão, a expectativa é que o público seja bastante variado. Há ainda o convite oficial feito à COOPERE – Grupo de Trabalho de Projetos Estruturantes da Ribeira e Entorno.

Com o objetivo de trazer um público diferente ao bairro, o Projeto Ribeira Desenhada oferece uma chance única de enxergá-lo pelos olhos dos seus admiradores, conscientizando-se sobre a região que ainda é o lar da comunidade alternativa e boêmia de Natal. “Quanto mais a gente sair e conseguir fazer uma articulação do que a gente pensa para a cidade, melhor,” conclui José Clewton.

O primeiro encontro da Ribeira Desenhada terá reunião de Urban Sketchers, roda de conversa com moradores, apresentação cultural e a exposição “Apropriar Ribeira”. Ele ocorre neste sábado, dia 24 de março, no Nalva Melo Salão Café, situado na Avenida Duque de Caxias, no histórico bairro da Ribeira.

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