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Do Playboy ao Cavaquinho

Por Luiza de Paula

Agradecimento especial à Gabriela Melo, por ter me mandado essa imagem linda e me salvar na difícil escolha de selecionar uma imagem para crônica. Fonte: Dicionário de Símbolos.

Neste momento está tocando Los Hermanos no meu Youtube. “Conversa de Botas Batidas”. Há pouco estava com Aldair Playboy. “Amar, amei”. Agora, Nelson Cavaquinho, com o seu “Juízo Final”. 

Em questão de minutos, andou acenando por aqui o rock nacional, o samba os anos 70 e algum gênero que eu não consigo definir – estou desculpada pela ignorância? E por não ir até ao Google pesquisar, também? É que inventei de seguir o desafio Power de exercitar assumir pessoalmente e publicamente quando não souber de algo. O “não sei” é tipo o adesivo de incompetência, mas eu ando achando o suprassumo da elevação espiritual. Chiquérrimo. 

Agora, já sigo com Natiruts. E como é bom transitar do Aldair Playboy ao Nelson Cavaquinho. Porque na vida não somos só funk. Nem somos só samba. Oscilamos. Misturamos os ritmos. Somos múltiplos e não unos. Mas aí, um dia desses, ouvi de um cidadão – cheio de pompa, falsas ilusões, bancando o intelectual e com o tom altamente pejorativo: “Funk não toca no meu som. Jamais.” Pensei: um desfibrilador, urgente, por favor! Logo em seguida, um café quente. Usar o argumento de que é intelectual e justamente por isso não reconhecer a riqueza cultural que é o Funk? Mas que contrassenso. Perdi o compasso do ritmo e não consigo mais acompanhar a dança. 

Nessas horas a gente percebe o porquê que andam confundindo Al Jazeera com Al Qaeda. O porquê afirmam categoricamente que o Nazismo foi de esquerda. O porquê que dizem que a existência do trabalho análogo ao escravo foi coisa para o século XX e por aí vai... Tá tudo meio nebuloso. Meio não, totalmente. 

Engoli o discurso. A discussão nociva está perdendo espaço para a minha outra missão: exercitar a racionalidade. Não sei se o que eu tinha a dizer teria alguma importância, portanto, discutir seria inútil. E tirando o lado nobre do raciocínio para eu não ter confrontado o sujeito com a minha falta de delicadeza, é que neste ano tem eleição. Preciso me resguardar também para o acalorado segundo semestre de 2018. Ah, e uma observação pessoal: preciso melhorar também a minha falta de delicadeza. 

Até essas frases nonsense têm o lado positivo: me lembrei de agradecer a Gestalt-Terapia, a filosofia existencialista em geral, sobretudo a Sartre por dizer (vou copiar na íntegra lá do Google) que “não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la.” Ufa! Desse jeito, posso ser quem eu quiser. Não estou condicionada por uma força natural a nada. Não preciso me enfiar em uma única caixinha. Não há o padrãozinho figurativo da postura que o intelectual deve ter – alô autor da desprezível frase lá de cima. O exercício da intelectualidade não proíbe o Funk no seu Spotify. 

Posso ser parte integrante do Poder Judiciário e criticar o fato da balança pender, por vezes, só para um lado. Posso ser jornalista e refletir sobre uma parte da mídia que é golpista. Posso ser advogada e não ter a malícia correndo no sangue. Posso ser cronista e acadêmica. Posso ser do Funk, do Samba, do Reggae, do Forró, da Música Popular Brasileira. Do que eu quiser. E você também. 

Posso ser da Filosofia Epicurista, mas daqui a pouco mudar de ideia e achar melhor me resguardar sob a proteção de São Tomás de Aquino. Posso seguir alterando meus quereres. Posso associar meus quereres. Posso ser advogada e jornalista. Posso ser várias. E você também. 

A vida é efêmera e admite de nós várias versões. 

Comecei esse texto com Aldair Playboy e termino neste exato momento ao som dos Novos Baianos, especificamente com “A menina dança.” E curto os dois. Ainda bem. 

Será que eu passo bem pelo Juízo Final? Interceda por mim, Nelson Cavaquinho.

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