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Poesia Compilada: Misturando Literatura e Tecnologia

Por Marcelha Pereira

Em 14 de abril, aconteceu no palco Educação do Futuro, na área livre da Campus Party, a palestra “print(‘Você já leu/escreveu algoritmos com uma criança hoje?’)” e o workshop “Quantos prints são necessários para criarmos um poema?”. Ministradas por Soraya Roberta, as duas atrações foram complementos uma da outra para mostrar na teoria e na prática o trabalho desenvolvido pela Poesia Compilada. 

No ar desde 2015, o projeto compila poesia, elemento da Literatura, e algoritmos, da área da Tecnologia da Informação. No início, o objetivo era apenas juntar dois mundos que a encantavam e criar artes junto a seu amigo Felipe Tavares. Porém, em 2016, a Poesia Compilada entrou como projeto de pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando Soraya decidiu incentivar o ensino de algoritmos na educação de crianças de escolas públicas. 


A metodologia do projeto de pesquisa ainda está sendo validada, mas já foram feitas oficinas em dois Institutos Federais e duas escolas públicas (uma estadual e outra municipal), além da UFRN. Desmistificando a ideia de que Humanas e Exatas não se misturam, a criadora do projeto partiu do questionamento do papel social do estudante de Tecnologia da Informação no incentivo ao aprendizado de algoritmos com as crianças.

Nos trabalhos desenvolvidos, são utilizadas poesias criadas pelas próprias crianças, poemas de grandes autores e música, tudo o que estiver ao redor da criança e possa incentivá-la à leitura. Com o primeiro passo garantido, o de ler, é hora de iniciar o ensino de algoritmos. O aluno e a aluna escolhem um trecho que gostam e, através dele, a brincadeira de transformá-lo em código acontece. 

Página no Facebook da Poesia Compilada
Soraya e o seu coordenador, o professor Humberto Rabelo, continuam testando as metodologias e pensando em como aplicar a Poesia Compilada em outros lugares e a diversas séries, independente da faixa etária. Eles também contam com a colaboração de outros professores de diferentes instituições para ajudar na disseminação do projeto. Contudo, obstáculos sempre aparecerem. 

“Quando eu falo que é Poesia Compilada, o pessoal já olha tronxo, principalmente quem é da área de Exatas. Eu encontrei um embate muito grande tanto na Academia quanto fora dela. Às vezes quando eu publico uma poesia compilada na página o pessoal fala logo ‘hm, coisa de mulher, tinha que ter poesia no meio’. Sempre o machismo tenta encontrar um caminho para sustentar o preconceito. Tem sempre alguém, principalmente os homens, que vão lá comentar falando mal”, ela compartilha. 

A maior inspiração de Soraya é a tia Gersi Medeiros, que desde pequena a incentivou a ler autores como Machado de Assis, Clarice Lispector e Jorge Amado. Hoje em dia, a Poesia Compilada tem o próprio Manifesto Literário, que você pode conferir no site: http://poesiacompilada.com/

Por fim, seu poema preferido é “Motivo”, da Cecília Meireles, e Soraya já fez até mesmo trocadilho com ele para a Poesia Compilada: 

Motivo
Trocadilho com o poema de Cecília Meireles. "Dev" significa Desenvolvedor. 

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

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