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Super K vs Câncer - O game que está melhorando a vida de crianças com câncer

“Sabe a diferença que você quer no mundo? Faça você mesmo”, Paulo Paiva 


Por Suzie Chagas

Uma das mais belas e tocantes apresentações da Campus Party Natal não teve público lotado. As primeiras fileiras estavam vazias, não tinham pessoas espremidas nas laterais do palco, nem focos de luz colorido chamando atenção para a apresentação. Se engana quem pensa que a quantidade de pessoas diminuiu a grandiosidade dessa história. O palestrante não era um programador, um médico ou um engenheiro de software como a maioria que se apresentou no palco Games e Creativity naquele dia. Paulo Paiva é um vendedor de água mineral de Mossoró e seu game está mudando a vida de crianças com câncer em todo munícipio. “As crianças não estão deixando de morrer por causa da minha iniciativa, mas o Super K está dando esperança a elas. ‘Se ele consegue vencer o câncer, eu também posso’, elas pensam. Elas não estão deixando de morrer, mas pelo menos estão morrendo feliz”, diz Paulo. 

A história do herói Super K começou quando seu criador, Paulo Paiva, apresentou quadro depressivo severo e por ocasião foi visitar a ala de crianças com câncer no Centro de Oncologia e Hematologia de Mossoró. Durante sua visita, uma garotinha o viu em uma cadeira isolada e foi conversar com ele: “Porque você tá triste tio?” “Coisa de adulto” “Vou fazer um desenho para o senhor ficar feliz”. “Foi naquele momento que ela me deu a maior lição de moral de toda minha vida, o maior tapa na cara, o melhor tratamento para a minha doença, nenhum psicológico, psiquiatra ou terapeuta conseguiu curar a minha depressão de uma maneira tão eficaz quanto aquela menina e o seu desenho”, comenta. 

O desenho que ela fez era parecido com um tabuleiro de xadrez, em que cada quadrado tinha uma pessoa desenhada com uma parte faltando em seu corpo. No centro do desenho havia um quadrado preto com o único personagem completo do desenho. “Foi aí ela me explicou: Tio, esse desenho é a gente aqui no hospital, todos esses quadradinhos coloridos somos nós, as crianças, cada parte que está faltando nelas é a parte do corpo que está com câncer. No centro é o senhor, a única pessoa boa, mas triste daqui. Naquele momento a cura para minha doença se iniciou. Eu percebi que não tinha o menor direito de ser infeliz”, Paulo desabafa. 

Depois desse episódio, Paulo ficou motivado a lutar contra sua doença e passou a visitar regularmente a menina no hospital e as crianças na ala de quimioterapia. “Em um momento, deixei de ir no hospital, na correria do dia-a-dia fiquei sem ir para lá algumas semanas. Quando voltei, perguntei para as enfermeiras da ala infantil onde estava a menina. Elas me informaram que ela tinha morrido alguns dias atrás. Fiquei tão triste com aquilo que decidi criar o jogo como uma forma de homenageá-la. De transmitir todo o bem que ela me fez para outras pessoas”, conta emocionado. 

Quando Paulo é convidado para palestrar, os organizadores e o público se surpreendem com sua profissão e por ele não possuir formação superior. Porém, criou o jogo com embasamento científico e psicológico que ajuda as crianças no tratamento de câncer na parte mais agressiva do tratamento, na quimioterapia. Ele notou que na hora desse procedimento muitas crianças vomitavam, tinham febre e mal-estar. Ao indagar os profissionais do hospital sobre o motivo, diziam que aquilo se dava como efeito da medicação. Paulo não se conformou com a resposta pronta que era dada sempre a essa pergunta. 

Com o passar dos dias, notou que as crianças ficavam horas no hospital sendo mau alimentadas e com muito desconforto, depois eram obrigadas a ficar imóveis durante horas recebendo a quimioterapia que é aplicada de maneira intravenosa, ou seja, ainda envolviam agulhas que causam ainda mais medo e desconforto. “Imagine você numa situação como essa, imagine como é difícil para uma criança de cinco ou seis anos que quer brincar, quer correr, ficar ali por tanto tempo sofrendo um tratamento tão doloroso, cheguei a conclusão de que aqueles sintomas não eram causados somente pela medicação, mas era por conta do stress que aquelas crianças passavam”, disse Paulo durante a palestra. 

Para solucionar o problema, Paulo pensou em algum método que distraísse as crianças para assim tirar a tensão no momento do tratamento. “Ah, eu jogo pra me distrair, talvez as crianças talvez consigam fazer isso também com um jogo”, explicou. Autodidata, aprendeu os princípios básicos da programação na biblioteca pública de Mossoró. E conseguiu desenvolver o aplicativo graças a um amigo que lhe doou o computador a fim de contribuir para o projeto. 

Paulo desenvolveu a empresa Smart Vídeo Games, na Playstore, na tentativa de tirar as crianças daquele ambiente hostil que era o hospital. Inspirado em uma frase de sua mãe, ele conta como surgiu a ideia de ajudar as crianças com o aplicativo para celular: ‘’Você fica nesse celular o dia todo, nem presta atenção em nada, vive no mundo da lua! Minha mãe sempre me dizia. Eu pensei, a lua fica muito longe, né? Vou levar essas crianças para lá, quem sabe lá não exista câncer, quem sabe lá elas possam ser felizes”, explica o criador do game. 

Super K é o primeiro super-herói negro, careca e com câncer do mundo. Seu nome deriva da palavra “criança” em inglês: “Kids”. Segundo Paulo, essas crianças que lutam com essa doença tão agressiva têm super-poderes: “Lugar de criança não é no hospital. Se elas estão aguentando esse sofrimento todo, elas são super-heróis e heroínas”. Além da identificação física com o herói, as crianças do hospital passam a ter fé na cura da doença, elas podem sim vencer o vilão do câncer, assim como o herói fictício. 

O game tem um contrato com Associação de Portadores de Câncer de Mossoró e região, o AAPCMR. E não recebe nenhum apoio governamental: “Um dia apresentei o projeto para um vereador que me disse que não ajudaria porque infelizmente crianças com câncer não votam nele, e nem garantiriam votos. Desde esse dia em diante não aceito nenhuma ajuda governamental”. Todo o lucro proveniente do aplicativo é doado diretamente a uma conta da Associação para que seja criado o primeiro APS para crianças com câncer do mundo. Paulo recebe a satisfação e gratidão dos pacientes em troca e garante que isso já é o suficiente. 

O aplicativo também trouxe como resultado a humanização dos pacientes no hospital. “Antes eu via as crianças ali sendo tratadas como animais”, diz. Hoje, segundo Paulo as crianças são tratadas como tal, recebem atenção, carinho e ajuda especial. “Até os comprimidos delas são coloridos, igual ao do Super K no jogo, uma exigência delas. Hoje em dia as crianças tomam a medicação em comprimido, para quem tem filho sabe que uma das coisas mais difíceis do mundo é fazer uma criança tomar comprimido. E o Super K conseguiu”. 

Se os programadores e entusiastas da área estavam esperando explicações técnicas a respeito de um game, Paulo Paiva saiu do ambiente frio da tecnologia e aqueceu o coração de todos com seu empenho e história tocante. Esse empenho gerou muitos ganhos para os pequenos, no Centro de Oncologia e Hematologia de Mossoró na área de tratamento de câncer infantil os comprimidos são coloridos, a sexta-feira é o dia do cinema e as crianças têm um super-herói: Francisco Paulo Ramon Rocha Paiva, o criador do game Super K vs câncer. 

“O principal aprendizado que tirei disso é não desistir nunca, a verdade é essa. Não importa o porquê esteja triste eu não tenho motivo para estar triste, então eu tenho que acordar todo dia com esse pensamento. Se aquelas crianças que estão naquele hospital me deram aquela lição de moral, que teoricamente deveriam estar tristes e não estavam, porque eu tenho o direito de estar? Então eu não tenho condições de estar triste nunca. Eu tenho que ficar feliz e ponto. A felicidade é uma questão de escolha, e eu escolhi ser feliz. Agarrei essa causa, minha causa é a felicidade”, finaliza Paulo Paiva.

4 comentários:

  1. Que noticia maravilhosa! Parabéns por trazer um pouquinho do lado bom desse mundo.

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  2. Emocionante! Parabéns pela matéria ��

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  3. alguém tem noticias desse rapaz ? pessoal façam uma matéria e nos contem em que pê ficou essa historia toda vez que releio me emociono

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