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A Política por Trás da Bola: Grupo G

Uma série de perfis nem tão futebolísticos dos 32 países da Copa do Mundo da Rússia

Por Yuri Gomes

A Inglaterra, da Rainha Elizabeth, vem com time renovado para tentar repetir o título de 1966. Edição: Paulo Prado/Caderno de Pauta

O Grupo G da Copa do Mundo de 2018 abriga países com cenários políticos muito distintos. Dona de um título mundial, a Inglaterra vive um impasse diplomático desde a aprovação do Brexit, a Bélgica vê a ascensão de movimentos da extrema-direita e os tunisianos enfrentam forte crise econômica e de representatividade. O Panamá ainda festeja a inédita classificação. 

Acompanhe a política por trás da bola de Inglaterra, Bélgica, Tunísia e Panamá.

Inglaterra

Em junho de 2016, a Inglaterra e os outros países do Reino Unido se encontraram diante da mais importante decisão política em anos: sair ou permanecer na União Europeia. O país sempre mostrou resistência ao avanço da integração econômico-política entre os países do bloco. A sua ausência no Tratado de Schengen, acordo que aboliu as fronteiras e permitiu o livre trânsito de pessoas entre os países signatários, é um exemplo desse tímido isolamento. A Libra Esterlina foi mantida como moeda dos britânicos, mesmo após a criação do Euro. 

É importante frisar que, diferentemente do que acontece nas Olimpíadas, os países do Reino Unido competem separadamente nas competições da FIFA. 

Ah não, Mick Jagger! Os ingleses foram campeões em casa, na Copa do Mundo de 1966, a única vez em que o país conquistou a taça. Desde lá, o melhor desempenho da seleção foi em 1990, quando terminou a competição em quarto lugar. Seu torcedor mais ilustre é o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, que sempre está presente nas eliminações de seu país. Os fãs de futebol lhe deram o título de pé frio.

Bélgica 

A União Europeia tem o seu centro simbólico e de poder na Bélgica, mais especificamente em Bruxelas, não somente a do país, como também a capital formal de todo o bloco europeu. A política internacional belga desde muito tempo busca a interação econômico-política com seus vizinhos. É tanto que, juntamente com Luxemburgo e Holanda, ainda em 1958, criou a Comunidade do Benelux, que instituiu um acordo de livre comércio entre os três países. Era um embrião do que hoje é a comunidade europeia. 

Porém, essa inclinação à cooperação comercial e ao livre trânsito de pessoas - bases da União Europeia - foi fortemente impactada nos últimos anos. Os atentados terroristas de Bruxelas, em março de 2016, reivindicados por jihadistas do Estado Islâmico, inflamou discursos xenófobos da extrema-direita belga. Principal nome do campo político, o ativista Tom Van Grieken, do partido Vlaams Belang, fez a promessa de expulsar todos os muçulmanos do país, caso eleito nas eleições federais de maio de 2019. “Nunca dará resultado vivermos juntos", declarou, dois anos atrás.

Na contramão dos discursos nacionalistas, o Partido dos Refugiados foi apresentado na última segunda-feira, 18, na capital belga. Formado por cidadãos, em sua maioria refugiados, o movimento tem a intenção de radicalizar o debate público sobre as condições humanitárias dos imigrantes que chegam à Bélgica. O partido está focado nos pleitos do próximo ano. 

O cabeça de chave do Grupo G participa da copa pela décima segunda vez e o seu melhor resultado foi um quarto lugar em 1986, no México.

Tunísia 

Sucessivas crises econômicas, corrupção e repressão instalada em um governo autocrata, este era o cenário da Tunísia no final de 2010, quando eclodiu as primeiras manifestações da Primavera Árabe. Nos protestos que se seguiram, 300 pessoas foram mortas e o ditador Zine al-Abidine Ben Ali foi obrigado a renunciar, após 23 anos no poder. Em outubro de 2011, os tunisianos foram às urnas pela primeira vez para eleger sua assembléia constituinte. 

Sete anos após a queda de Ben Ali, a política nacional encontra-se dividida entre o partido islamita Ennahdha, grande vencedor das eleições municipais de maio deste ano, e o partido secular Nidaa Tounes. A economia patina nas incertezas que o quadro instável pós-revolução impõe aos investidores internacionais - os tunisianos já tiveram 9 governos desde 2011. O desemprego atinge 15,5% da população e a moeda nacional, o dinar tunisiano, sofreu depreciação de 40% em relação ao Euro. Os severos cortes de gasto por parte do governo, em resposta ao lento ritmo de crescimento, paralisam alguns serviços públicos essenciais, causam revolta da população e põe em cheque a frágil democracia tunisiana. Apesar da atual instabilidade, a Tunísia é o único país que saiu da Primavera Árabe com um sistema democrático minimamente consolidado. 

O retrospecto da Tunísia em Copas do Mundo é de cinco participações, contando com a edição deste ano. As Águias de Cartago, como é conhecida a seleção, obteve seu melhor desempenho em mundiais em 1978, na Argentina, quando terminou o torneio em nono lugar. 

Panamá 

Uma estreita faixa de terra caribenha entre o oceano Pacífico e o Atlântico: este é o Panamá, sempre lembrado pelo seu famoso canal que reduz o tempo de viagem de navios cargueiros de todo o mundo. Inaugurado em 1914 pelos americanos, o Canal do Panamá foi um domínio dos Estados Unidos em território panamenho até 1999. A presença norte-americana no país durante 85 anos moldou a cultura e a sociedade de seu povo. 

O ápice da interferência americana no país ocorreu às vésperas do Natal de 1989, quando soldados do exército dos Estados Unidos invadiram o Panamá para derrubar e capturar o ditador Manuel Noriega. Aproximadamente três mil foi o número de civis mortos ou desaparecidos após a operação militar. O episódio inflou um sentimento anti-americano nos panamenhos.

As relações entre geopolítica e futebol, nesse caso, se estreitam. Nas eliminatórias para a copa deste ano, o Panamá venceu a Costa Rica, classificou-se para o torneio pela primeira vez em sua história e ajudou a eliminar os Estados Unidos, a potência interventora imperialista, na visão dos panamenhos. A torcida invadiu o campo, a festa no país foi generalizada e o presidente declarou feriado nacional no dia seguinte. 

A Copa do Mundo de 2018 marca a estreia da Seleção Panamenha em mundiais. 

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