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A sede da insatisfação

A ânsia de se ter cada vez mais o que já se tem cresce e se dissemina entre as gerações, afetando em cheio o público jovem 

Por Filipe Cabral 

Segundo uma pesquisa feita pelo Banco Central em 2005, o endividamento das famílias brasileiras chega a 46,3%, sendo o maior número em 10 anos. O fato representa uma realidade vivida por pessoas de várias gerações e contextos, generalizando ainda mais sua área de atuação. Focalizando em um só terreno, observa-se uma outra descoberta feita pelo Sindicato do Comércio Varejista de São Paulo que afirma que os jovens entre 16 e 26 anos, representam quase metade dos consumidores de um shopping center, diagnosticando um problema que tem crescido e tomado cada vez mais espaço entre os membros mais novos de uma sociedade. 

Uma das raízes e fator condicionante do consumismo apontado por alguns especialistas da área é a própria publicidade. Não se precisa de muito para observar o quanto a poluição visual de cartazes, panfletos e produções audiovisuais é presente na rotina do jovem brasileiro. Seja nas redes sociais, nos sites de busca ou nos comerciais televisivos, a propaganda se espalha e faz adeptos até inconscientes, cumprindo nada mais do que o seu papel social. 

Fonte: Blog Mônico Reis 

Lúcia Lima, 28, por exemplo, é uma estudante de Radialismo da UFRN e se afirma abertamente consumista. Seu dilema é a insatisfação em ver certos produtos na prateleira e deduzir que pode precisar e, devido ao peso na sua consciência, acaba comprando tanto que acaba não usando, reafirmando o conteúdo das próprias pesquisas mencionadas anteriormente. A assistente ambiental desabafa que já foi ao supermercado comprar uma caixa de leite e voltou para casa com todo um carrinho de compras. 

Ao ser questionada se comumente ela aproveita tudo o que compra, ela admite “Geralmente não, eu não uso. Roupas, por exemplo, eu tenho mais de um guarda roupa de roupas que está tudo com a etiqueta ainda. Final de ano, geralmente, eu junto umas duas ou três caixas de sapatos, roupas, bastante coisa eu doou”. Acrescenta ainda que gosta de preços baixos, mas se não tiver e ela quiser algo, ela compra de todo modo. 

Outro caso é o de Monike de Azevedo, 25, formada em Nutrição (UNP) e atualmente estudante de Saúde Coletiva (UFRN), que não só afirma ser consumista, como também, relata não resistir às promoções. “Quando eu vejo plaquinha de promoções, tudo mais, é uma coisa que me chama muito atenção e me faz consumir muito. Por exemplo, quando o vendedor fala o preço que o produto tinha, quanto eu vou economizar isso acaba me fazendo consumir mais”, reitera. Monike afirma que nunca segue a moda, normalmente quando vai fazer as suas compras, se baseia apenas nas placas, fazendo-a consumir mais do que deveria. 

Ademais, a estudante reconhece que existem formas de se consumir menos. A necessidade de uma educação financeira para os jovens, um maior exercício de filtragem das publicidades veiculadas midiaticamente e uma boa seleção do círculo de amizades – visto que eles podem auxiliar a compra de determinados produtos, não agindo ou incentivando a compra consciente – foram os pontos citados por ela. 

O professor de Publicidade e Propaganda da UFRN, Luiz Fernando Dal Pian, 34, ressalta que a relação entre publicidade e consumismo é íntima e bastante simples. Ele esclarece que desde a pré-história o consumo já era uma prática inerente aos seres vivos, visto que toda espécie possui as suas necessidades primordiais – alimentação, calor, água, etc. Dal Pian explica que com o passar dos anos, as comunidades foram criando métodos de venda e comercialização baseados nessas urgências através da linguagem publicitária. O resultado do amplo desenvolvimento dessa comunicação e, por consequência, de seus novos métodos implantados, deu vazão ao acúmulo de bens e a compra excessiva entre os indivíduos de várias sociedades: consumismo. 

Já sobre a relação entre o público mais jovem e o consumo não consciente, o professor afirma que a linguagem publicitária proporciona uma adequação do produto ao cliente, podendo afetar as várias faixas etárias de formas diferentes. Cada geração possui seus hábitos de consumo e seus canais de maior visibilidade e compra – o lugar aonde o produto poderá ser divulgado para determinado público, logo, suas necessidades mercadológicas. Por serem os grandes afetados pelas várias tecnologias, os jovens são igualmente atingidos pelas propagandas. 

Por fim, o fato é que o consumismo se tornou uma prática cotidiana nos mais diversos países, entre as mais variadas classes sociais e nas mais numerosas idades. Logo, com base no que foi apresentado, tal prerrogativa salienta problemas sociais, políticos e ambientais. Um presente duvidoso para quem ainda está por vir.

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