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Luto transformado em ação

Após a morte do único filho do casal, eles reunem forças e fundam juntos o “Projeto Goleiro Jeanzinho” que visa treinar, sem fins lucrativos, meninos com o sonho de ser goleiro

Por Camila Emily, Francisca Pires e Rayssa Mariana 

“Cada menino sonhador que pisa aqui é o retrato do meu filho”. É assim, de forma saudosa e objetiva, que Paulo Jean, 47, define a iniciativa que coordena atualmente. Em junho de 2013, ele e sua esposa Lilázia, 44, perderam o único filho em um acidente automobilístico. Paulo Jean de Medeiros Júnior apesar de jovem, na época com 16 anos, já tinha contrato com o Alecrim e uma proposta para jogar em um clube Europeu. No entanto, quando tudo parecia perdido, aos quarenta e cinco do segundo tempo veio a virada. Saíram da defensiva, causada pelo luto, partiram para o ataque e com reposição de bola do goleiro, os atacantes Lilázia e Paulo Jean conseguiram marcar um golaço. Assim nasceu o “Projeto Goleiro Jeanzinho”. 

Lilásia Costa e Paulo Jean na sede do projeto. Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta 

Atualmente, os atletas assistidos pelo projeto treinam em um campo emprestado pela prefeitura. Localizada em Neópolis, a extensão verde abriga os sonhos de cerca de 45 meninos com idades entre 8 e 18 anos. Alguns vivem em situação de carência, outros nem tanto. Uns ficam tímidos ao perceber nossa presença, outros fazem questão de se fazerem notados. Apesar das diferenças, as trajetórias convergem em um único desejo: jogar profissionalmente na posição de goleiro. 

Atletas do projeto durante o aquecimento para o treino. Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta 

“Esse projeto é ideia do meu filho”. Nos olhando com convicção, Paulo Jean faz questão de frisar a palavra “ideia”, corrigindo a pergunta que fizemos sobre o projeto ser um sonho de Jeanzinho. O gerente comercial conta que quando começou a jogar profissionalmente, o jovem já tinha em mente de que forma montaria um projeto para ajudar crianças carentes que, assim como ele, fossem amantes do esporte: “Nem todos aqui são carentes de dinheiro, mas todos são carentes de oportunidade”, finaliza. 

Paulo Jean concedendo a entrevista. Foto: Rayssa Mariana/Caderno de Pauta 

Satisfeito com as conquistas que o projeto vem alcançando, Paulo demora um pouco para lembrar acerca das dificuldades que enfrentou, no entanto, orgulhoso, relata: “Foi muito duro, mas fundamos na garra. Começamos com três goleiros, eu com minha esposa na diretoria e aos poucos mais pessoas foram chegando e acreditando”. Uma das conquistas mais recentes do casal foi o documento de utilidade pública que concede a eles o direito de angariar qualquer área verde, pertencente ao município, para uso do terreno sem a necessidade de pagar por ele. 

Paulo Jean, o professor César Etcheverry e os atletas. Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta 

“Todos sonhadores” é como Paulo define os meninos que treinam diante dos nossos olhos. Buscando atendê-los da melhor forma, a equipe conta também com um nutricionista, um psicólogo e a assistência de Lilázia que é graduanda de Serviço Social. Os treinos acontecem todo sábado das 08h às 11h30 e já rendem resultados que o casal orgulhosamente nos apresenta: Lucas Dejé e Otair Poli, por exemplo, são nomes de dois atletas do projeto que hoje brilham nos campos do Vitória (Bahia) e Botafogo (Rio de janeiro) respectivamente, além daqueles que já atuam em clubes do estado como ABC, América e Alecrim. 

Equipe “Projeto Goleiro Jeanzinho”. Foto: Camila Emily/Caderno de Pauta

Motivados pelo desejo do filho, o casal afirma que o projeto os ajuda a lidar com a perda e a manter sempre viva a lembrança do jovem. É pedido, portanto, que Paulo apresente com palavras o seu filho a todos que não tiveram o prazer de conhecê-lo. Surpreso com o questionamento, o pai olha para o horizonte saudoso, como se buscasse uma forma de narrar o que todos nós sabemos ser inenarrável: “Meu filho é o retrato de tudo isso que está acontecendo. Ao olhar esse projeto vocês veem tudo que ele nos deixou. Ele se preocupava muito com o outro. Queria ajudar o outro”. E com os olhos marejados, conclui: “Jean era humano”. 

O casal exibe uma tatuagem em conjunto para homenagear o filho. A letra jota, o símbolo do infinito e uma estrela compõe o desenho. Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta 

Dona Lilázia, por sua vez, relata a importância do projeto para o processo de transformação do luto em motivação para realizar o sonho de crianças: “Eu perdi um filho, mas ganhei 45”. A corretora de planos de saúde conta que eles constantemente narram a história do Jeanzinho e a usam como forma de incentivar os jovens do projeto. A cada novo talento descoberto ou a cada vaga conquistada em um grande clube, o vazio da perda do filho é preenchido pela esperança e pela certeza de que através do amor, eles conseguem transformar vidas: “É tudo por ele. Cada bola que é chutada nesse campo é para o meu filho”, afirma. 

Lanche especial em comemoração ao dia do goleiro. Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta 

A disciplina por trás do projeto 

A seriedade e atenção ultrapassam os limites do campo. O comerciante Luiz Cavalcante Moura Junior, 44, para fugir do sol assiste atento ao treino do filho, Thiago Alves, sentado debaixo da sombra de um coqueiro junto de outros pais. Há pouco mais de cinco anos, ele dedica seus sábados ao projeto em prol dos sonhos do garoto. Com brilho nos olhos ao falar do filho, relata: “Ele sempre quis seguir a carreira de goleiro. Se dedica muito. Tanto aqui, aos sábados, quanto nos treinos durante a semana na escola em que estuda. Eu, como pai, sempre o apoiei”. 

Luiz Cavalcante assistindo ao treino do filho Thiago Alves. Foto: Rayssa Mariana/Caderno de Pauta 

O sonho por trás de cada garoto 

O sonho de muitos garotos é defender um grande clube. Dentro daquele campo, cedido pela prefeitura, não é diferente. Cada jovem goleiro traz consigo um olhar de esperança de que pode tornar isso realidade. Thyago Alves, 15, quando perguntado sobre a história do casal afirma: “Sei, sim. Acho muito inspirador para gente”. Ele que está no projeto há quatro anos disse que o esporte melhorou muito sua educação e disciplina. Ainda não conseguiu jogar profissionalmente, porém não esconde a sua enorme vontade. Thiago é um entre tantos garotos do projeto que almeja a oportunidade de alçar grandes voos, literalmente. A cada pulo em direção da bola, a cada defesa e a cada bola espalmada para o lado, anulando qualquer chance de gol, é uma demonstração do quanto eles lutam por esse objetivo. 

Thyago Alves posando para foto. Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta 

Bryan Kevin, 17, está no projeto há três anos e atualmente, mesmo jogando no América, nem cogita deixar o projeto: “Aqui é uma grande motivação, dá muita força para gente. Não queremos só ficar aqui, pretendemos ir para fora do estado. Sair rodando o Brasil”. O brilho nos olhos é tão constante que dá até para sentir a paixão dele em ser goleiro. 

Bryan Kelvin batendo embaixadinha. Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta 

Mesmo em meio as adversidades da vida, é nítido que cada integrante do projeto escolheu, antes de mais nada, jogar no time da força e resiliência. Como em uma verdadeira família, os meninos são aplaudidos, apoiados e corrigidos quando necessário. E quando as dificuldades batem no travessão, eles são ensinados a pegar a bola e colocá-la para jogo novamente como se a vida funcionasse em um eterno tiro de meta.

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