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O que temos pra hoje, Dona Maria?

Batalhas de rap na Praça Presidente Café Filho, em Extremoz:“Um mundo que a gente cria ali naquela roda, naquela batalha, um mundo em que qualquer um que tiver o mesmo sentimento pode entrar e participar”

Por Aimmee Araújo e Mariana Batista 

Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

É no início de mais uma noite fria na Praça Presidente Café Filho, em Extremoz, que o cenário começa a ser montado. Estudantes da escola Almirante Tamandaré, que fica em frente ao largo, aglomeram-se nos bancos com a pintura desgastada. Chamam atenção com o barulho das conversas. Um pouco mais distante da pequena multidão, embaixo de um cajueiro situado no lado direito, um pequeno grupo – não mais que quinze pessoas – começa a se organizar. Caminham juntos rumo ao centro do espaço. Um deles segura uma pequena caixa de música que ecoa uma batida de rap e chama atenção de quem passa. Formam um círculo no meio daquela parte mais vazia da praça e mais pessoas aproximam-se. Tem início mais uma batalha de rap na Praça Café Filho.

Natalia (à esquerda) posando para a foto. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

“É mais que uma distração, é mais que um hobby que a gente tem. É um compromisso que a gente tem, é uma casa que a gente tem, é um mundo, é a nossa ideologia, são os nossos pensamentos, os nossos sentimentos que estão todos ali. É uma ligação, uma conexão. Eu sinto isso todas as vezes que eu vou e não importa se é debaixo de chuva, não importa se tiver pouca gente, às vezes estão só os MCs mesmo, uns cinco MCs só, e é isso aí”, diz Natalia Kelly Lima da Silva, 17 anos.

Sempre usando termos como “a gente” e “nós” para dar ênfase ao trabalho conjunto e a relação amigável dela e dos demais organizadores do pequeno evento, conta que a ideia de fazer as batalhas em Extremoz surgiu, pois eles sempre participaram das batalhas e eventos desse tipo na capital, porém o deslocamento entre as cidades é complicado, e como não há muitos  em sua cidade decidiram trazer a batalha para casa. A ideia em si surgiu há algum tempo, menos de dois anos, porém não se firmou por causa da rotina de estudo dos participantes; apenas no final do ano passado passado eles decidiram voltar com a batalha como forma de resistência à opressão e para que mais gente da cidade tivesse acesso a essa cultura.

Natalia e Rubens, estudantes do ensino médio. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta 

Numa folha de caderno, Natalia e Rubens Monteiro Filho, 18, organizam o esquema das batalhas daquela noite. A primeira não acontece, pois os participantes não estavam presentes; passa-se então para a segunda. Eronilton “Eron” Brito da Silva e Caik Fernando de Souza Nunes, ambos com 18 anos, vão para o centro do círculo improvisado. Seleciona-se uma das batidas que eles mesmos baixaram na internet e a batalha se inicia. Segue-se o ritmo “ataque e contra-ataque”; Caik faz seu rap, Eron contra-ataca, enquanto alguns murmúrios dispersos, palavras de incentivo e até mesmo palavrões aliviam a pequena tensão entre os participantes. Por vezes, as vozes dos rapazes são abafadas pela música levemente alta e pelo assobio forte do vento frio, porém isso não impede que a pequena plateia vibre a cada contra-ataque que ecoa, em meio à roda. Eron vence a disputa e Rubens e Natalia gritam “Um salve para batalha!” em uníssono; a pequena plateia vibra mais uma vez.

Final da batalha, da esquerda para a direita, Caik, Eron e a pequena plateia ao redor, esperando o começo de uma nova disputa. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

A plateia se anima ao final da primeira disputa da noite e os cochichos a respeito daquela que está para começar ficam mais frequentes. “Não são todas batalhas em que o público é grande”, diz Rubens. “No entanto, na maioria das edições que acontecem temos percebido que o público vem aumentando e isso nos incentiva a continuar”.

Eron volta para o centro da roda e, desta vez, vem acompanhado por Ektor Fernando do Nascimento Dias, 20; ambos colocam-se frente à frente e Natalia pede um pouco de silêncio para que eles possam começar. A batalha é acirrada, as palavras de ataque são rápidas e as de contra-ataque ainda mais. A atmosfera é uma criatura híbrida entre a tensão e euforia; os gritos de incentivo tornam-se ovações rápidas e tão emboladas quanto às letras dos raps. Saem numa velocidade parecida com as gotas de uma chuva torrencial e se espalham preenchendo a noite, junto com a música de batida forte e palavrões aleatórios. Desta vez, Eron perde, Ektor sai como o vencedor da disputa, ao som das ovações de seu público.

Ektor e Eron (de costas), são fotografados por Natalia durante a batalha. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

A batalha segue para o seu terceiro ato, uma disputa entre Lucas e Tomais, dois rapazes que estavam na plateia. Lucas fica envergonhado, diz que não quer participar mas é incentivado por seus amigos. Eles o empurram para o meio do círculo. Risadas ecoam pela praça quase vazia. Os estudantes que antes estavam em frente ao colégio já foram para suas respectivas aulas. Com o mesmo ritmo das duas batalhas anteriores, porém com uma atmosfera mais divertida, a terceira batalha é marcada pelo nervosismo de Lucas. Após o rap de Tomais, o primeiro ataque, Lucas enrola-se no contra ataque; as palavras saem emboladas, dispersas e quase sem nexo. Depois de algumas tentativas, o rapaz começa a rir de seu comportamento e a vitória da terceira batalha é de Tomais.

Ektor e Tomais voltam para o centro da roda; é a hora da última disputa da noite. A plateia se aproxima, o círculo se torna pequeno e as ovações aumentam. Ektor começa, Tomais contra ataca, Ektor responde ao contra ataque; alguns palavrões são ditos, a atmosfera volta a se tornar tensa. Algumas palavras são abafadas pela música novamente, outras se espalham pelo vento, e se perdem em meio à noite escura. Depois de mais algumas palavras soltas, a plateia vibra mais. Ektor é o campeão da noite. Enquanto alguns gritos ainda ainda reverberam pela praça e a pequena multidão começa a se desfazer, Natalia pergunta “Com essa já foram quantas?”: Ektor responde, mostrando o número nos dedos: “Acho que quatro”. 

Ektor (por trás de Natalia e Rubens) e Tomais à sua frente. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

Dispersada a multidão, resta apenas o mesmo grupo do início, os organizadores da batalhas. Os que levaram suas mochilas as deixam organizadas uma por cima da outra no centro da praça, sentam-se no chão formando um novo círculo e começam uma pequena reunião. Eles conversaram sobre o planejamento da próxima atividade cultural que pretendem organizar. Natalia nos informa que a cultural consiste em reunir a cultura do rap, fazer apresentações, slam (Campeonatos de poesia) e as batalhas; juntar todo mundo, sendo de Natal ou Extremoz, “todo mundo colar lá e gerar uma galera bacana”. No meio da conversa sobre a cultural, se entra no assunto sobre a falta de verba para se adquirir um equipamento de som e explicam que com um som bacana se atrai mais público. Um dos MC’s, Ektor tem uma caixa de som, porém por morar distante nem sempre pode participar da batalha e trazer o equipamento. Com isso, discutem sobre várias formas de arrecadar verba, como ir ao sinal, adquirir patrocínio, vender rifa e comida, fazer camisetas e diversos outros meios.

Todos sentam em roda para conversar. Foto: Mariana Batista/Caderno de Pauta

A conversa chega ao fim. Natalia e Mikael começam a discutir sobre introdução da roda de cordel e poesia, que sempre acontece depois das batalhas, e então Natalia se levanta perguntando: “O que temos pra hoje, Dona Maria?!” e então todos respondem: “Cordel e poesia!”, E ela continua: “Contra o machismo, Dona Maria!” e o grupo repete os dizeres anteriores: “Cordel e poesia!”. O diálogo continua dessa forma:

“Contra a homofobia, Dona Maria!”

“Cordel e poesia!”

“Contra o racismo, Dona Maria!”

“Cordel e poesia!”

E por fim, Natalia questiona novamente: “E quem é ele, Dona Maria, O que ele traz, Dona Maria?!”, então a primeira pessoa se levanta e recita sua poesia. Na sequência se apresentam: Mikael Lucas, 20; Rubens; Natalia; Dyanna Kathleen O’hana Doca de Souza, 17; Rubens novamente; e por fim Ektor fecha o Slam recitando a última poesia.

No slam,o poeta pode recitar sobre o que quiser, é um momento de liberdade, porém já tem que vir com o pensamento pronto. Eles falam sobre os mais variados temas como: intervenção militar, ditadura, pobreza, injustiça, sistema, perdão e amor. Natalia explica que vai de acordo com a ideologia de cada um: “A gente procura abordar tudo e desconstruir alguns preconceitos, principalmente nas poesias. Quando a gente traz poesia, a nossa intenção é essa. Na batalha pode rolar tudo, pode rolar qualquer assunto, depende muito dos MCs, mas na hora das poesias, a gente entra com elas já pra ter esse foco, já que na batalha não tem. Elas [as poesias] nem sempre são autorais, a gente transforma uma música, um rap de outro alguém em poesia.”

“Enquanto o couro do chicote cortava a carne, 

A dor metabolizada fortificava o caráter;

A colônia produziu muito mais que cativos,

Fez heroínas que para não gerar escravos matavam os filhos;

Não fomos vencidas pela anulação social,

Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial;

O sistema pode até me transformar em empregada,

Mas não pode me fazer raciocinar como criada;


Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,

As negras duelam para vencer o machismo, o preconceito, o racismo; 

Lutam para reverter o processo de aniquilação que encarcera afrodescendentes em cubículos na prisão; 


Não existe lei maria da penha que nos proteja, 

Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza; 

De ler nos banheiros das faculdades hitleristas: Fora macacos cotistas; 

Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão, 

Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação;


Navios negreiros e apelidos dados pelo escravizador

Falharam na missão de me dar complexo de inferior; 

Não sou a subalterna que o senhorio crê que construiu, 

Meu lugar não é nos calvários do brasil;

Se um dia eu tiver que me alistar no tráfico do morro, 

É porque a lei áurea não passa de um texto morto;


Não precisa se esconder segurança,

Sei que cê tá me seguindo, pela minha feição, minha trança;

Sei que no seu curso de protetor de dono praia,

Ensinaram que as negras saem do mercado

Com produtos em baixo da saia;

Não quero um pote de manteiga ou um shampoo,

Quero frear o maquinário que me dá rodo e uru; 

Fazer o meu povo entender que é inadmissível,

Se contentar com as bolsas estudantis do péssimo ensino; 


Cansei de ver a minha gente nas estatísticas,

Das mães solteiras, detentas, diaristas.

O aço das novas correntes não aprisiona minha mente,

Não me compra e não me faz mostrar os dentes; 

Mulher negra não se acostume com termo depreciativo,

Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino;

Nossos traços faciais são como letras de um documento,

Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos; 


Fique de pé pelos que no mar foram jogados, 

Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados.

Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria 

É atrair gringo turista interpretando mulata; 


Podem pagar menos pelos os mesmos serviços,

Atacar nossas religiões, acusar de feitiços;

Menosprezar a nossa contribuição para cultura brasileira,

Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra;”

Poesia da rapper Yzalu, recitada por Natalia.

Findado o slam, alguns dos participantes voltam para suas casas; outros poucos ficam conversando na praça. Perguntam por onde anda um dos MC’s da batalha, Jonas José da Costa Neto, 18. Especulam: alguém diz que ele havia saído com a namorada. O pequeno grupo ri alto, não levando muita fé naquilo que foi dito. Entrando na brincadeira, Natalia declara: “A minha [namorada] me ligou, eu falei: oi, te amo, mas tô na batalha”.

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