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Pegadas da solidariedade

As limitações e as conquistas na marcha diária do cadeirante Diego Pereira 

Por Filipe Cabral 

Ele é jovem, orador, enérgico e possui um humor contagiante. Diego Leonardo Barreto Pereira, 30 anos, palestrante em colégios e igrejas, bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e que, recentemente, iniciou os processos burocráticos para início do mestrado na mesma instituição, é também cadeirante desde os seus 13 anos de idade, no entanto nunca fez da deficiência uma protagonista em sua vida. 

O cientista social possui paralisia cerebral, deficiência que apresenta, na maioria dos seus sintomas, alterações fisiológicas com possibilidade de até mudanças neurológicas, agindo nos movimentos e na percepção de seus portadores. Diego desde pequeno se locomovia segurando em objetos e só aderiu à cadeira de rodas por volta dos seus 13 anos de idade, devido ao encurtamento de um dos tendões de suas pernas. Com essa adaptação, novos desafios também foram surgindo quanto à acessibilidade nos lugares que já frequentava. 

Nascido em 1986, confessa ter tido uma infância saudável. Ao contrário do que socialmente é estigmatizado, Diego esteve comumente bem entrosado nos vários contextos de sua vida, sempre cercado de amigos e pessoas que lhe viam como igual. No ensino fundamental e médio, era popular e até bastante conhecido na escola, assim como na igreja que congregava com seus pais. 

A entrada na faculdade veio repleta de expectativas para o jovem sonhador que acabara de deixar o Ensino Médio para trás. Diego iniciou sua carreira acadêmica cursando Ciências Sociais, que além de ser sua primeira graduação concluída, foi também onde iniciou seu mestrado, admitindo ser um espaço de conforto por ser visto de igual para igual. “Os preconceitos em Ciências Sociais são diferentes dos preconceitos no geral, porque aqui o pessoal tem uma visão mais aberta, mais libertária”, explica. 

Roda de conversa na UFRN (Foto do arquivo pessoal do Diego Leonardo) 

Ademais, não é novidade que sua mãe e seu padrasto sempre o ofereceram apoio incondicional, desenvolvendo uma superproteção que o tal entende bem. “De início, minha mãe ficou um pouco espantada quando eu tinha 12 anos e ia para a escola sozinho. O primeiro passeio que eu fiz sozinho, só com os professores, ela chorou, foi uma resenha. Mas hoje ela é bem mais acostumada com isso”, reitera sobre o excesso de cuidados resultado da soma entre o fato de ser filho único e ser deficiente. Todavia, como filho presente, reconhece e confessa que todas as conquistas em sua vida foram, também, por influência de seus pais. 

É válido salientar que, apesar da boa aceitação social, ele não foi isento de discriminações. Como ressaltou, mesmo com o seu bom relacionamento com as pessoas que convivia nos ambientes escolares, Leonardo já sentiu na pele, através do juízo de valor contido em expressões e piadas, o quanto ainda se é necessário um aprimoramento da reflexão e do pensamento crítico no que tange a humanização dos deficientes físicos. Ele conta que essa necessidade de desconstrução vai desde a vizinha que fazia comentários preconceituosos à médica que aconselhou a sua mãe para não “forçar” o filho portador de necessidades especiais porque o que ele conseguir “já está de bom tamanho”. 

Além disso, foi na igreja que o também palestrante encontrou abrigo, propósito e uma zona de conforto/acolhimento. Por volta de seus 13 anos de idade, se converteu ao cristianismo e se integrou à Igreja Adventista do Sétimo Dia – na qual ele congrega até hoje, pouco antes de começar a usar a cadeira de rodas. Como fruto de seu fácil entrosamento, anos depois de sua entrada, Diego já começou a ministrar em cultos e ofertar palestras, sejam elas direcionadas ao público cristão ou não. 

Ministração da Palavra por ele em sua igreja (Arquivo pessoal do Diego Leonardo) 

Como cadeirante, falar de acessibilidade para Diego sempre trará inúmeras experiências que pôde viver em sua trajetória até aqui. No que abrange o Campus da UFRN, ele cita que já encarou conflitos diversos: árvores no meio de calçadas, ausência de rampas em escadas, pessoas mal humoradas em respeitar o espaço do deficiente, entre outras. Das situações vivenciadas, o jovem lamenta a dificuldade de locomoção no próprio Departamento de Fisioterapia – pelo menos há alguns anos quando o visitou, já que é um dos ambientes mais propícios à aceitação de portadores de necessidades especiais. 

Entretanto, infelizmente, as dificuldades não param por aí. Segundo estatísticas do IBGE, no Brasil, existem mais de 9.300 cadeirantes, no entanto o número de transportes públicos adaptados não chega a ser nem em média equivalente, demostrando o quão precária ainda se mostra a assistência às pessoas com algum tipo de dificuldade de locomoção. Diego Leonardo, por sua vez, já afirmou que desistiu de tentar usar os coletivos da cidade, admitindo ser inviável para cadeirantes, visto que são “invisibilizados” pelos motoristas e cobradores. 

Dessas maiores complicações quanto ao uso do transporte público, ele reforça que além da ausência de plataformas, os cadeirantes lidam com motoristas que não querem parar quando lhes veem na parada, a falta de empatia das pessoas que não oferecem ajuda, a violência e a superlotação dos ônibus – sendo estes últimos problemas ainda mais abrangentes. 

Além do mais, os obstáculos são maiores quando se trata de um cadeirante universitário, porque além de, obrigatoriamente, lidar com os horários de pico, precisam cumprir com a carga horária das disciplinas, impossibilitando muitas faltas. “O transporte público, hoje, ele não é bom pra ninguém, mas a pessoa com deficiência se sente totalmente excluída dele e, quando consegue se inserir, é com muitas dificuldades”, acrescenta. 

É importante ressaltar o que essa realidade, de acordo com a fala do cadeirante, é mais corriqueira do que muitos imaginam. No próprio curso que é graduado ele convive com casos de deficientes que, graças às dificuldades de circulação nos coletivos, estão tendo suas vidas acadêmicas afetadas por ausência nas aulas e não comparecimento de atividades avaliativas. 

Segundo o estudante, a CAENE – Comissão de Apoio a Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais, teve papel fundamental no auxílio não só do transporte, através da bolsa de apoio técnico, mas também na inserção e manutenção do aluno na própria UFRN. Todavia, apesar de ser um serviço um tanto acessível, ele não deixa de reconhecer que nem todos os deficientes conseguem tais benefícios. 

Já sobre o seu futuro, o mestrando de Ciências Sociais ressalta a sua grande expectativa sobre sua dissertação de mestrado, abordando como se dá a representação da pessoa com deficiência no Facebook, visto que é uma pauta de representatividade inspirada na própria vivência do autor. Além disso, ele reconhece ser bastante sonhador e querer ingressar na Academia, logo após a conclusão do seu doutorado – que ele também pretende fazer. Mas, por agora, ele só deseja viver o presente com um passo de cada vez. 

Por fim, Diego demonstra ter uma visão bastante diferenciada sobre seus próprios desafios. Citando Fernando Pessoa ao relembrar uma de suas mais célebres frases “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo”, ele exibe além de uma auto estima saudável, a força de superação invejável forjada com muitos dilemas e barreiras. Conforme o próprio, todos nós somos deficientes, porém uns mais do que outros, humanizando, assim, uma raiz para o preconceito e a exclusão social. Em resumo, a vida de Diego Leonardo Pereira é uma maratona e ele busca, ainda que entre tropeços e solavancos, ganhar a medalha de ouro todos os dias.

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