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Sonho de infância, homem vende pipoca há 20 anos

Rubens já foi agricultor, é servidor público, mas seu desejo era trabalhar como pipoqueiro 

Por Irecê Garcia, Josué Cruz e Tatiane Targino 

“O que você quer ser quando crescer?” Esta é a pergunta que quase toda criança escuta de um adulto. Dentre as respostas mais comuns dadas pelos pequenos ouve-se: “quero ser médico(a)”, “quero ser professor(a)”, “quero ser astronauta”. Para José Rubens de Souza, atualmente com 58 anos, a resposta era diferente, embora ninguém o perguntasse qual seria sua profissão quando crescesse, com seus então 6 anos, ele alimentava dentro de si um sonho diferente: vender pipoca. 

Natural do município de São Pedro do Potengi, no estado do Rio Grande do Norte, a 54 quilômetros da capital Natal, José Rubens de Souza de 58 anos, relata que desde que tinha 6 anos, observava os pipoqueiros de sua cidade. Achava a profissão muito bonita. Hoje não trabalha somente como pipoqueiro, tal atividade é um complemento de renda, mas exerce esse ofício há 20 anos. 

Foto: Josué Cruz/Caderno de Pauta

Rubens ao lado do seu querido carrinho de pipoca. Ele fica no Centro de Convivência da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), de segunda a sexta, das 16 às 19 horas. Trabalha na UFRN há 37 anos, 20 só como pipoqueiro.

Foto: Josué Cruz /Caderno de Pauta

O pipoqueiro relata que antes de vir à capital, trabalhava como agricultor em sua cidade. Largou essa atividade por ser insalubre e mal remunerada. Disse que quando decidiu sair da agricultura para tentar algo melhor jogou fora a enxada, tal como uma declaração de alforria do trabalho exploratório que exercia. 

Foto: Irecê Garcia/Caderno de Pauta

Antes de vir à Natal, Rubens morou no Rio de Janeiro durante um ano e 9 meses, em busca de melhores condições de vida. Lá trabalhou no ramo da construção civil. Depois retornou ao RN, desta vez à capital. Ele trabalha no Núcleo de Primatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), desde de 1981, alimentado os macacos. Trabalha no período da manhã, das 8 às 15 horas e depois do expediente vai fazer o que mais gosta: vender pipoca. 

Foto: Tatiane Targino/Caderno de Pauta

Rubens também gerencia uma lojinha de bijuterias junto a um sócio e amigo que é servidor aposentado. Afirma que administrar a lojinha e vender pipoca depois de seu expediente o afasta dos bares, pois às vezes recebe convites para beber depois do trabalho. Relata também que guarda seu carrinho de pipoca no setor onde trabalha. 

Foto: Irecê Garcia/Caderno de Pauta

Quando criança Rubens encontrou um pequeno chocalho (sino) na localidade onde morava. Na ocasião o guardou e manteve consigo por 30 anos, com o intuito de colocar no seu carrinho de pipoca quando realizasse seu sonho. Assim o fez: o chocalho permanece em seu carrinho durante esses 20 anos. Ele o agita quando passa ou então enquanto permanece em seu ponto de vendas, para chamar atenção dos clientes. Afirma que o chocalho é a forma como o pipoqueiro anuncia sua chegada. 

Foto: Josué Cruz/Caderno de Pauta

Seu carrinho é como uma espécie de mural onde algumas lembranças são exibidas. Há a foto de sua querida cadela falecida, a Jupira, que na ocasião estava cheia de filhotes. Durante os anos que trabalha vendendo pipoca, simpático e comunicativo Rubens fez muitas amizades e conseguiu namoradas.

Foto: Irecê Garcia /Caderno de Pauta

Rubens, para agradar sua clientela, faz promoções em dias comemorativos baixando o preço da pipoca. Relata que tem clientes fidelizados e que as vendas variam de acordo com os dias e a época do ano. Diz que também vende seu produto durante as férias universitárias. Como não há muitos alunos e professores no campus nesse período, as vendas diminuem, mas com a volta às aulas logo são alavancadas novamente. Dentre seus clientes, há alunos, professores, servidores e pessoas que trabalham próximo, como nos bancos e nas lojinhas, por exemplo. Diz que nunca vendeu fora da UFRN. 

Foto: Irecê Garcia /Caderno de Pauta

Quanto à família, Rubens afirma ser separado, mas tem uma namorada há 2 anos. Tem 4 filhos e 4 netos, a filha mais velha tem 32 anos e o mais novo 25. Relata que seu pai teve 19 filhos. De vez em quando o pipoqueiro retorna à sua cidade para espairecer. Afirma: “Quando tenho um dinheirinho e tempo vou para o interior, para o sossego”. Apesar de gostar de visitar sua cidade, reclama que lá não há estrutura turística para receber bem as pessoas, tais como pousadas, por exemplo. 

Rubens afirma que não pensa em se aposentar tão cedo, pois não saberia o que fazer depois de aposentado. Acha que ficaria doente e logo morreria, então trabalha todo o dia para se sentir útil e ativo. O pipoqueiro é a prova que qualquer sonho, por mais simples que seja, é válido, e que a alegria reside nas pequenas coisas, como fazer o que se gosta, no caso dele vender pipoca. 

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