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Aqui não tem espaço para o seu fetiche

Por Allyne Paz 

Imagem: Instagram da Querida Guacha

Ser mulher não é fácil não. Ser mulher é você lutar todo dia. E eu já fui surpreendida com algumas frases, como perguntarem se algum homem já me decepcionou só porque eu estava me relacionando com outra mulher, ou perguntarem ‘quem é o homem da relação?’”. Esse é o relato de Luciana Guedes, lésbica, que sofre diariamente com o preconceito de uma sociedade machista e patriarcal. 

Luciana, 20, é estudante de pedagogia da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e uma das responsáveis pela militância da visibilidade lésbica na universidade que estuda. Ela conta que já sofreu inúmeras vezes com discursos machistas e homofóbicos. “Já perguntaram se poderia participar, se eu estou querendo ser homem, perguntarem como a gente transa e eu acho isso completamente invasivo, sabe? Não te interessa, cara. Não te interessa como nós vivemos. Já ouvi ‘que desperdício’, muitas vezes. E tudo isso é como um resultado da cultura que a gente vive”, afirma. 

Luciana não é a única mulher que vivencia esse tipo de situação. Ela é apenas mais uma das inúmeras lésbicas que sofrem esse preconceito e violência. E, infelizmente, esse quadro não está perto de acabar. Ao fazer o exercício de procurar a palavra “lésbica” no Google, o maior site de busca mundial, infelizmente, nos deparamos com uma série de desprezo à comunidade lésbica que existe, [resiste] e precisa de respeito. Os resultados da busca aparecem de acordo com o que os usuários do site mais acessam e, quando se trata sobre lésbicas, as primeiras buscas são relacionadas a vídeos de pornografia. Isso não é normal. Ou pelo menos não deveria ser visto como tal. 

Atualmente, a sociedade vem discutindo temas que antes eram difíceis de serem debatidos e, a partir do início desse diálogo, muitas questões já foram resolvidas ou, pelo menos, foram colocadas em pauta. Dentre elas, a questão da mulher e a sua liberdade está sendo discutida, contudo, ainda há uma lacuna sobre a mulher em relacionamentos homoafetivos. Essa lacuna é comprovada quando mulheres lésbicas são surpreendidas por discursos machistas que repercutem a falta de respeito e o preconceito exorbitante. E pensando nisso, é fácil perceber que a mulher, mais uma vez, parece estar na sociedade para servir os desejos do homem. 

Mas não, não estamos. 

Lamentavelmente, o Brasil é um país extremamente violento e cruel quando se trata em questões de respeito ao próximo. De acordo com o primeiro Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil, idealizado pelo Grupo de Pesquisa Lesbocídio – As histórias que ninguém conta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a violência contra mulheres lésbicas está aumentando gradativamente. O documento apresenta que, entre o período de 2000 a 2017, foram registrados 180 homicídios contra as lésbicas. 

A ausência de estudos e dados oficiais sobre a vida e saúde das mulheres lésbicas no Brasil só dificulta o combate à esses problemas, que são estruturais e estruturantes. A soma da falta de preocupação com a vida dessas mulheres mais o preconceito resulta em dezenas de lésbicas mortas a cada novo ano. 

Liberdade para relacionamento homoafetivos não é segurar a mão em determinados ambientes ou ter de fingir ser apenas amiga da mulher que é sua companheira. Liberdade em um relacionamento homoafetivo é naturalizar o que é natural. É poder demonstrar afeto em público, é conseguir casar sem que isso seja visto como uma aberração para muitos. Liberdade está relacionada a ser quem você é. Liberdade tem nome de mulher. Está relacionada diretamente em agir como quer, sem ter que se esconder, sem preconceito. 

Essa vontade de ser quem é sem ter medo das pessoas é algo que Clarice Nascimento, 20, estudante de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pretende alcançar quando, mesmo com olhares preconceituosos, permanece de mãos dadas. “Uma das partes mais difíceis é a questão de ficar se escondendo, não poder andar de mãos dadas, por que tal pessoa vai achar ruim. Mas eu ajo como se isso fosse uma intervenção política, sabe? Essa é a minha militância”, declara. Assim, Clarice encontrou uma maneira de lutar e conseguir naturalizar aquilo que é visto como anormal para a sociedade. O único desejo da estudante é simples: “Eu espero que a humanidade um dia aceite com respeito, com amor, sabe? As formas de se amar do ser humano...”. 

Essa luta vai muito além da questão de respeito, é um direito humano que precisa ser garantido para que essas mulheres que sofrem e resistem sejam vistas. As mulheres lésbicas são invisíveis para a sociedade a não ser que estejam em vídeos de pornografia, porque, para muitos homens, é apenas dessa maneira que as lésbicas existem. Essa invisibilização permite que o preconceito reine no dia a dia de mulheres que se relacionam com outras, como é o caso das entrevistadas. 

Para isso, é preciso incentivar estudos sobre o porquê de as mulheres lésbicas estarem morrendo cada vez mais e cabe à gestão de políticas públicas disponibilizar normas e condutas que melhorem a qualidade de vida destas mulheres. Se estamos lutando por uma sociedade cada vez mais justa e igualitária, que seja para todos os gêneros, orientações sexuais e etnias. Afinal, a não preocupação com a vida dessas mulheres é uma irresponsabilidade social ao direito de existência da comunidade lésbica. 


Aqui só tem espaço para o amor entre duas mulheres. Aqui não é o lugar para o homem. Respeite a orientação sexual do próximo como se fosse a sua.

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