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Projeto Bunekas: o artesanato e a solidariedade ligando pessoas e nações

Por Erika Artmann, Layane Vilela e Mayara Oliveira 

Etapas de produção da boneca. Foto: Mayara Oliveira/Caderno de Pauta

Do portão, risos alegres eram ouvidos. Ao entrar, a alegria estava estampada também nos rostos dos seis voluntários que estavam presentes na oficina do Projeto Bunekas naquela manhã de segunda-feira. O grupo se encontra semanalmente na grande Natal-RN e representa uma imensa corrente do bem em terras potiguares, ligando vários estados brasileiros ao Continente Africano. Os voluntários reúnem-se e produzem bonecas de pano, que são enviadas às crianças que vivem em Guiné-Bissau, na África.

Voluntárias participam do processo de montagem da boneca. Foto: Erika Artmann/Caderno de Pauta

O projeto nasceu no interior de São Paulo a partir da percepção de Michele Bordinhon, 40, psicóloga, sobre a falta de brinquedo para as crianças, principalmente meninas, nos lugares em que viajava com seu marido à trabalho voluntário na África. Camila Medeiros, artesã, 24, coordenadora do projeto em Natal, nos conta que "os meninos acabavam tendo mais brinquedos, eles pegavam qualquer coisa e brincavam, já as meninas, elas ficavam mais recolhidas e não tinham acesso à brinquedos".

A Buneka. Foto: Mayara Oliveira/Caderno de Pauta

Michele começou a pensar em uma boneca que pudesse enviar às meninas, mas ela procurava por algo que carregasse algum significado, que não fosse somente algo comprado e enviado. Camila afirma que a boneca "não tem sorriso, não tem muita expressão no rosto, tem os olhinhos e uma boquinha em forma de coração, porque é uma boneca de projeção, que é para a criança projetar o próprio sentimento na boneca". O nome Buneka, é uma referência ao dialeto africano usado pelas meninas.

Menina recebendo a Buneka na África. Foto: Arquivo pessoal de Michelli Bordinhon

Cada parte do corpo do brinquedo foi minuciosamente pensadaa desde a cor da pele até o cabelo que é feito de florzinhas de feltro em 3D - que deixam uma textura parecida com a do cabelo crespo. Para as voluntárias, é importante que as meninas se vejam nas bonecas e se sintam lindas, fugindo assim, dos prejuízos causados pela imposição do padrão de beleza Europeu em um continente majoritariamente negro. Além disso, as bonecas são enviadas com calcinhas, elas foram pensadas pela psicóloga, devido à preocupação com os altos índices de violência sexual infantil, conta Camila, "quando eles levam as bonecas elas falam da importância do uso da calcinha já que muitas meninas não usam e também por questão de saúde, para evitar infecções".

Camila Medeiros, coordenadora do Projeto em Natal-RN. Foto: Mayara Oliveira/Caderno de Pauta

Em Natal, o projeto chegou há cerca de um ano, depois de algumas oficinas ministradas pela psicóloga em uma igreja na Zona Norte. Depois de algumas oficinas, Camila tomou a frente da organização e divulgou o projeto nas redes sociais. Hoje o grupo conta com vinte e dois voluntários, eles planejam enviar cem bonecas este ano, tudo feito de forma artesanal e solidária, com os custos bancados através de doações das próprias integrantes. "A gente vai conversando e cada uma vai doando como pode", relata a coordenadora do projeto.


Lucas Kuniyoshi, Vera Lúcia Fernandes e Evanilda da Rocha, voluntários do projeto. Fotos: Mayara Oliveira/Caderno de Pauta

Outro ponto importante é a amizade entre os voluntários, como expressa Lucas Kuniyoshi, estudante, 25, "esse projeto também impacta as pessoas que estão nele, podemos ver aquela pessoa que era mais reclusa ficando mais aberta, fazendo muitas amizades, ou, a pessoa que não sabia fazer nada de costura, aprendendo". O Projeto Bunekas está mudando a vida de crianças na África, e de pessoas, principalmente mulheres, no Brasil.

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