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Seis de julho

Por Luiza de Paula

Imagem: Site Os Mais

A melhor especialidade da Copa do Mundo é gerar fatos inusitados: quarta-feira ensolarada, férias, 8h da manhã e eu já de prontidão em uma loja de decoração. Na sexta-feira, o estádio do dia ia ser a minha casa, junto com a associação dos Amigos Futebol Clube. Precisava decorá-la, assim me sentia mais próxima do Hexa. Bolas amarelas. Fitas verdes. Plaquinhas que podem ser aplicadas à vida, como um: “fala muito” e “juiz $@!?#%.” 

O data-show sem funcionar minutos antes do início do jogo BRA x BEL me parecia um presságio negativo. Ok, tudo resolvido. Comidas. Cerveja e uma gente do bem reunida. Energia boa. Até o 1 gol da Bélgica. Mas, vai, ainda dá para recuperar. Opa! Gol da Bélgica. Meu irmão chorou. O clima foi ficando tenso. Mas na minha cabeça o hexa era nosso! Nosso até o temido apito final. Foi o último suspiro e... Home sweet Home! Forçoso, sorrateiro, intempestivo e prematuro. Mas vitórias e derrotas fazem parte do esporte, assim como da vida. Ganhar é legal, mas perder também é bonito. E perder com dignidade engrandece o espírito. 

Aprendi com meu irmão, 8, que ressignificar a dor é o caminho mais inteligente. Às 16h, lágrimas rolaram pelas maçãs do seu rosto. Às 18h, ele fez da quadra a sua melhor amiga quando decidiu descer para jogar futebol. E isso é o que há de mais sagaz na vida: cair aqui, mas levantar acolá. 

O esporte também é pedagógico, mas a boça da intelectualidade é desesperadora ao divulgar por aí que copa é unicamente “Pão e Circo”. E se for, bem que estávamos precisando de um pedaço de pão e de uma festa no circo! O Brasil que o Brazil não conhece morre de fome desde 1530. O Brasil periférico tem como espetáculo a criminalidade e não o Circo. Então, que bom que a copa possa propiciar essa ilusão de garantia de comida & cultura, mas como toda ilusão, é efêmera. O pragmatismo e o realismo político batem à nossa porta. 

E isso aconteceu dia 06 de julho de 2018. Lamentável dia. “O hexa” era uma excelentíssima desculpa para reunir os amigos e amigas para os comes e bebes à moda estudantil. Eu só podia narrar t-u-d-o errado 90 minutos de futebol e todos continuarem compenetrados sob a desculpa de fundo “do Hexa.” “O hexa vem” virou clichê, viralizou no meu vocabulário e só agora me dei conta que nem era tanto pela conquista do sexto título mundial, mas sim para ter uns minutinhos com quem amo. 

Ah! 

Intelectuais, não se preocupem! (Quem sou eu para dizer isso?) Mas anda correndo boatos na novela jurídico-político brasileira que há notícia boa para vocês: a normalidade por aqui parece que já voltou: domingo, 08 de julho de 2018, alguns membros do Poder Judiciário seguiram firme na disputa fervorosa na defesa das suas hashtags preferenciadas – de um lado, a #LulaLivre. De outro, #LulaNaCadeia. Tipo batalha entre o #TeamLula e #TeamAntiLulaEAbaixoAEsquerda. Gravíssimo, né? Até Moro, #TeamAntiLula, deu um time nas férias em Portugal para se pronunciar onde nem fora chamado... O interesse pela pátria é grande, caros leitores, devemos compreender. 

De todo modo, a situação de instabilidade no judiciário é um fortíssimo indício de que a Copa do Mundo realmente acabou. Por aqui, tudo sob descontrole – estamos novamente em territórios conhecidos e, por aqui, nada de inusitado.

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