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Invisível: uma exposição sobre violência de gênero

Por Erika Artmann e Marcelha Pereira

você me diz para ficar quieta porque 
minhas opiniões me deixam menos bonita 
mas não fui feita com um incêndio na barriga 
para que pudessem me apagar 
não fui feita com leveza na língua 
para que fosse fácil de engolir 
fui feita pesada 
metade lâmina metade seda 
difícil de esquecer e não tão fácil 
de entender

Rupi Kaur, em Outros Jeitos de Usar a Boca

O que você pensa quando escuta o termo violência de gênero? Provavelmente, sua mente vai para os casos de assassinatos de mulheres e pessoas LGBTI+ que aparecem na televisão e em sites de notícias. O fluxo de reportagens sobre a violência cotidiana contra esses grupos sociais nos estados brasileiros não para um só instante e muitos estão cansados de serem informados sobre esses acontecimentos. Mas… o que mais você considera como violência?

Pensando nesta temática, os alunos dos cursos de Artes Visuais e Design da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) construíram a Exposição Itinerante sobre Violência de Gênero, nomeada como Invisível. Os trabalhos expostos do dia 20 de agosto a 07 de setembro tinham o intuito de chamar atenção para manifestações de violência simbólica contra mulheres e pessoas LGBTI+, que passam despercebidas dentro e fora da Universidade. 

Obra da seção de Estereótipos da exposição Invisível. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta

A professora organizadora da exposição, Luiza Falcão, conta que a motivação partiu da observação do contexto de interação masculino/feminino dentro do Departamento de Artes (Deart) da UFRN. “Achei coerente levar essa discussão para a sala de aula como uma forma de conversar com os alunos sobre o tema, e fazer com que eles formassem uma opinião crítica sobre o assunto”, afirma. “Nós (professores, coordenadores e chefes de departamento) nos encontramos numa posição hierárquica em que algumas atitudes podem ser configuradas como assédio, e os alunos precisam entender qual o limite deste tipo de relação no ambiente acadêmico”, acrescenta. 

A exposição fez parte de uma ação de extensão e Luiza contou com a ajuda das professoras Helena Rugai (coordenadora e professora do curso de Design), Elizabeth Romani (professora do curso de Design) e Bettina Rupp (professora do curso de Artes Visuais) para juntar e mobilizar as turmas de Artes Visuais e Design. Duas professoras do curso de Teatro da UFRN, Melissa Lopes e Monize Moura, também contribuíram com a iniciativa ao organizarem uma oficina sobre Teatro e Gênero, na semana de lançamento da exposição. 

Dentro da temática da violência de gênero, os alunos escolheram subtópicos em que pudessem expressar as vozes silenciadas das minorias. As obras traziam à tona desde violências mais severas, como estupro e feminicídio, até violências sutis que se escondem em frases e atitudes aparentemente inocentes. As questões de assédio, luta LGBTI+ e estereótipos também foram abordadas por eles.

Espaço destinado para as obras com temática LGBTI+. Foto: Marcelha Pereira/Caderno de Pauta

Jojo de Paula e Jackie Rocha, estudantes de Design da UFRN, trabalharam juntos na exposição, tendo a transfobia como objeto. Eles buscaram retratar em seus cartazes a forma respeitosa e humana de tratar as pessoas trans, sem esquecerem de também mostrar a violência presente em certas frases que essas pessoas costumam escutar. Segundo eles, o trabalho foi um grande desafio que exigiu resiliência e sensibilidade, e, por serem parte da comunidade LGBTQI+, o processo de pesquisa e resgate dessas violências mostrou-se ainda mais complexo.

O também estudante de Design, Rafael Germano, produziu sua obra com base em um questionário no qual mulheres, as principais vítimas do machismo, colocaram frases corriqueiras, aparentemente inocentes, mas que trazem grandes cargas de preconceito. Ele diz que, como homem, tornou-se “uma pessoa mais consciente com esse cartaz” e que espera que isso aconteça também com outras pessoas.

É comum achar que violência de gênero acontece só quando gera dores físicas. Essa concepção costuma apagar o peso das violências que são feitas por meio da fala e afetam o psicológico. Na exposição, as obras estavam representando pessoas que, como no poema de Rupi Kaur, são silenciadas e violentadas por meio de ações simbólicas. A expressividade e força das obras foi a responsável por tornar a exposição Invisível um evento belo e representativo.

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