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O silêncio das marés

Por Tiago Silva de Oliveira 

"A morte de Ofélia", de Odilon Redon.

Sinto um vazio insosso, neutro. Infinito fosso que habita a memória de escaravelhos nos desertos do tempo contaminar a solidez da matéria viva das ruínas de meus templos inacabados. Ajoelho-me ao que é milenar. Ao perene. Ao que sempre existiu. A morte sempre existiu. A morte é. Só existe vida porque existe morte. Antes de existir vida já existia morte. Ela é o princípio. Nossa verdade mais antiga. Antes de nossas inúmeras tentativas de ser célula, antes do orgânico, morremos várias vezes. Também, antes de sermos orgânicos – bem mais perto do princípio –, várias estrelas morreram. A morte mais bela. A morte nunca foi horrenda. Tem pele perfeita, sem escamas aparentes ou poros dilatados. Exala suavidade, viço e frescor. Um brilho intenso. Infinito. Intermitente. Elegante. Ela tem o elixir da longa vida. Vim ao mundo defendê-la, apagar mentiras. Pois digo: ela não é treva nem escuridão. Talvez uma noite clara, bem-iluminada, no máximo. Com mil luas cheias no céu. É isso. Te assustei? 

O efêmero causa-me constrangimento. Gosto da aderência, do que permanece, do atrito da pele. É fácil vencer o atrito. Impressa na madrugada, sozinha, minha arcaica juventude é inútil, rápida. Preencho-me desta quietude e dormência que é a espera. Espero o sol – verdadeira e exata. Esta bacia de prata, não, de alumínio, tão fria e amassada e fosca, enorme, que não consigo abraçar, é perene e arcaica. A bacia. Nossa bacia. Quando mamãe diz para pegarmos a bacia, é esta. Só ela. A bacia de lavar roupa, a bacia de banhar bebês. Sonhei uma vez com a bacia. Banhava-me, nua e infantil, livre, quase divina, em frente à porta dupla de pesada madeira. Eu tinha asas e era anjo ou ave. Espirrava água para fora. Voava. Ascendia em direção ao sol que fugia. Estava pronta para receber a noite com água-de-colônia. 

A bacia para colocar o milho de molho, como hoje. Coloquei o milho no sereno antes de dormir e ele já é outro milho. Passou. Nossa avó nos ensinou. Ela também é milenar. Quando nasci, ela parecia ter a mesma idade que tem hoje. Os cabelos, tão brancos, amarelaram. Ela sempre corta as pontas amareladas. Gosta deles curtos, curtíssimos. Perguntei se já tinha deixado os cabelos passarem dos ombros, disse que sim. Certa vez, quando estávamos procurando sua certidão de casamento, achamos sua carteira de identidade. Uma moça tão milenar quanto ela, em preto e branco, cabelos castanhos ondulados em cascata, escorrendo pelos ombros. Os lábios, finos e nus. Secretos. Como os meus. Herdara sua boca e arco. Vovó não me deixava pintá-los. Só quando me levava para ver minha tia na cidade. Mesmo assim, uma camada muito fina e rala, qual casca de maçã, ela me permitia passar sobre os lábios. Uma tentativa de homogeneizá-los, apenas. 

Eu tinha oito anos e meio quando fomos certa vez à casa de minha tia que mora na cidade. Nunca soube direito o nome dela. Ela sempre fora a tia que mora na cidade. Coerente. Era a única. Acho que se chamava Carmem. Raras vezes a visitávamos. Nesta rara vez, me levou à praia, para conhecer o mar. Nunca viu o mar, coitada, disse minha tia. Minha avó disse o mesmo quando falou ao telefone com minha tia para marcar a viagem. Sou uma coitada? Por quê? Sim, nunca vi o mar, eu sei. Coitada de mim. Quero me livrar desta sensação horrível com urgência, deste oco de alma, destas risadas surdas no pé do ouvido, ser menos detestável e vulnerável. São outras crianças que riem de mim o tempo inteiro, sobretudo. Riram de mim quando falei que as coisas são feitas de átomos ou quando falei de onde vêm os bebês ou algo do tipo. Não entendi. Até hoje não entendo. Será que não me entendem? Sou a melhor da turma e todos riem de mim. 

Minha tia parece ser uma pessoa muito sorridente, parece que o tempo todo sorri. Como pode? Ela é adulta. Adultos são tão solitários e problemáticos. Mas quero ser adulta logo, ah como quero. Por que demora tanto?! Quero ficar pronta logo, estou inacabada. Quero minha solidão de adulto. Minha tia não parece só, no entanto. Minha avó disse que adultos costumam chorar sozinhos, no escuro. Deve ser isso. Estou com medo. 

Este sol parece que não existe. Este céu é de mentira. Alguém pintou. Colocou três nuvens perfeitamente recortadas e muito brancas, só. Simples e bonito. Um céu. É tudo para mim? Não sei a quem agradecer. Emudeci. Emudeci a voz e o corpo. Sou uma estátua de sal e calcário. Sou ainda mais insignificante no mundo, este mar é o tudo e eu faço parte do nada. Não tenho nove e este mar é eterno. Aqui foi onde tudo começou. Fujo para o mar para escapar das chamas. Há um incêndio e ninguém viu a fumaça; mas eu avisei. Disse que tudo ardia e seria devorado. Mas, ah! Nós, como humanos, somos culpados de nossos incêndios, me disseram, e temos que resolvê-los sozinhos. Mas como? Eu sei: me culparam pelo meu incêndio. Disseram que crianças não têm incêndios. Tudo culpa minha, por que você desmontou seus binóculos para usar as lentes, menina? Eu quis, eu precisava daquilo, precisava fazer aquela experiência, fiz escondido e foi uma delícia! Fiz buraco em folhas secas, fui lagarta de fogo ou de sol! 

Aquele cheiro de queimado... minha avó sempre brigava comigo, mas era bom! Mas não é desse incêndio que falo. Falo do perigo. De chamas de verdade, de todas as cores. É como estar dentro de uma panela de água fervendo, mas sem dor. Por isso preciso deste mar agora! Só ele. Inteiro. Puro sal da eternidade. A eternidade parece a morte. Brilha muito, muito. Me cega! Como arde minhas retinas! Será que é isso? Quero chamar minha avó para ver, mas não consigo, não consigo. Emudeci, repito. Só eu me ouço. Que tristeza, oh!, que tristeza. Por que eu sozinha? Devo ser especial, finalmente! Como estou feliz...antes de perder a visão e o chão se desfazer, vi o cristalino da água vibrar cintilante, ainda na superfície. Quero ir ao abissal, será que chego? Guardei secretamente este desejo de minha avó por anos. Não quero mais a superfície. Antes quero ver anêmonas e águas-vivas. Quero a vida séssil dos poríferos. Como os invejo. São tão simples, queria ser tão simples. Uma alga, um molusco... que arrepio... acho que o nome disso é fetiche. 

Foi então que a eternidade revelou-se feroz. Carnívora aquática. Em breve, raias irão me espetar com seus ferrões e este rosnar de tubarões irá cessar. Como é ensurdecedor. Revelei meu eu mais íntimo e atraí tubarões. Tola. Embora esteja cega, agora vejo tudo, tudo. Tenho a verdade mais fresca e morna sobre as mãos. É fluida, densa, viscosa, tem instinto de fugitiva, quer escapar. Não quero prender-te, só entender-te. Só me interessa o caminho e não o fim. Assumi este risco e sacrifiquei um coração vivo. Ninguém pode dizer que sou covarde. Sou a heroína de minha heroica salvação! Detalhe: fui sem escudos ou lanças ou espadas. Minha coragem de aço reluz, brilha intenso e fosco, sulcada. Sou meu eu mais agradável. Que asco. 

Sob o silêncio das marés, a fantasia da vida se desmonta. Aos poucos, eterno frio habita meu corpo. Eterno. Porque acho que isso que é morrer. Quando fiquei internada para a retirada de uma hérnia, foi-me servido um ovo cozido. Já veio descascado. Não gosto muito de ovos. Eles têm um quê de milenar e isso me assusta, sim, o milenar já me assusta. Eles existem desde a época dos dinossauros ou antes. Lagartixas também botam ovos. Dos ovos de galinha só gosto de descascá-los. Minha avó devia ter dito a quem me trouxe este ovo. A gema, esta parece que quer fugir da clara, não como. Está azulada daqui. Minha avó me pergunta como consigo comer apenas a clara dos ovos, e sem sal. Não tem gosto de nada!, ela diz. De nada! Nada sem sal. 

Também me trouxeram uma maçã com casca. Adivinhou: não como a casca das maçãs. Para mim, a textura da casca da maçã em minha boca acaba com toda leveza desta fruta e com a ideia de oco que ela proporciona com sua crocância. Maçã do amor causa-me arrepios. É lindo e detestável um amor maciço. Como o de minha avó. Sentada na sala que acabara de limpar, olhando sempre para a mesma faixa de céu, contorna a casa e vai para o quintal, acende mais um cigarro perto da pia, cuja torneira quebrada pinga o único som que embala esse momento de pulmão rijo e riso amarelo nicotina. Vê seu marido do quintal, enquanto lava dois copos sujos de leite, do mesmo jogo que ganhara de sua melhor amiga, e os mesmos dois copos do dia em que servira leite para ela e seu marido. Ah, aquele dia. Ele disse que queria conversar e ela preparou a mesa, porque conversar com comida era sempre melhor, ele disse que não precisava, mas ela insistiu. Não imaginava que seria destruída. Vovô disse que recebera uma ligação de seus filhos de São Paulo para que ele fosse tratar sua doença, pois lá estaria nas mãos de bons médicos. A notícia a atingiu como a solidão e a frieza de uma guerra. 

Falo de minha sepultura. Meus oceanos flamejam frios e abissais. Dançam anêmonas, rodopiam algas, em combustão dissolvem misérias e deformidades, desejos sintetizados. 

Só sereias choram.

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