Recentes

Com quantos beijos se completa um homem?

Por Maria Clara Pimentel

Ela pediu um tempo. Me assustei, a princípio. Na verdade, ainda estou tentando compreender. Me beija cotidianamente, várias vezes ao dia. Quem vê, pensa que somos jovens apaixonados curtindo o primeiro amor. Seja com boca de café ou de hortelã, recebo beijos enamorados incontáveis vezes ao dia.

Nossa vida vem sendo a mesma nos últimos três anos de namoro. Nosso cotidiano segue um roteiro aparentemente estático - apesar de que ela sempre faz questão de manter um ritmo bailado e suave, quase ao eco da voz e chiado de Chico Buarque. É monótono todo dia ela mandando eu me cuidar, dizendo que me espera para jantar e me recebendo no portão quando eu retorno do trabalho. Quero dizer, ela me dá total liberdade no geral, mas gosta de se mostrar muito cuidadosa sempre que estamos juntos. O que acontece é que, para mim, isso é demais!

Às vezes dou um basta, digo que não, e ela se entristece. É descomedido, em alguns momentos, e eu simplesmente não dou conta. Por que ela age assim comigo se eu não faço metade do que ela faz por mim? Fico incomodado em alguns momentos porque seus trejeitos são capazes de me enlouquecer. Então permaneço calado, com a boca de feijão e a mal-agradecida vontade de ter nada mais que um relacionamento ordinário.

Ela faz o que as namoradas de todos os meus amigos fazem, mas é evidente a discrepância dos seus modos e reais intenções - sempre as mais puras. Ela se importa, de verdade; me beija beijos molhados e amorosos - não os secos e meramente de rotina que recebem os meus colegas. E me parece que só agora percebo tudo isso. Há muita intensidade em sua alma. Ela não foi feita para dar meio-amor, jogar meio-charme e ser meia-namorada. Ela é por inteiro; duas vezes ainda, se duvidar.

À noite, quando ela jura amor eterno e me aperta como que querendo me sufocar, seu beijo enlouquecido aparenta desesperador - ela me chupa a língua como se bebesse de uma fonte que não fosse jamais capaz de lhe sanar. Compreensível. Não sei se o gosto de pavor do nosso beijo é realmente dela, se não meu. Afinal, eu sou esse poço do qual ela tenta tão fortemente beber, extrair algo de bom, há anos. Mas é como tentar tirar leite de pedra. 

A verdade é que nunca me acostumei com todo o seu fervor e toda a sua paixão, desmedida e recorrentemente provada. Porque não sou merecedor nem de uma milésima parte do seu sentimento por mim. Aliás, creio que eu sempre soube disso, de um modo ou de outro, mas acho que ela só percebeu agora. Ainda estou atônito - agora porque não acredito que vou deixar passar essa mulher maravilhosa. Parece que só agora, prestes a perdê-la, reconheço de fato o seu valor.

Ao menos, vou tentar aproveitar ao máximo nosso próximo beijo, há grandes chances de que ele seja o último. E não a culpo, ela faz bem em terminar comigo - até me pergunto como aguentou tanto tempo ao meu lado. Meu erro foi querer um relacionamento meia-boca com alguém que simplesmente não conhece metades. E agora só o que consigo fazer é ansiar pelo gosto de café com hortelã da sua boca, e refletir: com quantos beijos será que se completa um homem?


Reinterpretação da música “Cotidiano”, de Chico Buarque.

3 comentários: