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Sororidade

Por Maria Clara Pimentel


Me pego escrevendo sobre esta bonita palavra porque acabei de a conhecer. E mesmo só sendo oficialmente apresentada a ela neste minuto, é como se já fôssemos amigas de longa data - essa é a sensação que tenho, ao menos. Para você que também não sabe sua definição, eu te explico um pouco melhor. Sororidade quer dizer a união entre as mulheres, baseada essencialmente no companheirismo e na empatia. Significa nos protegermos entre si, como irmãs. Sentimos na pele os preconceitos que sofremos e as imposições que nos são feitas, diariamente, pela sociedade, devido à simples condição de sermos mulheres. E eu nem falo daquelas que sofrem em dobro ou triplo, dificuldades das mais diversas - negras, faveladas, trans, lésbicas. Não tenho nem mesmo propriedade para tratar tais assuntos, então me limito às mulheres, como um todo, sendo mulheres “somente”. 

O termo expressa a institucionalização, digamos assim, de uma fraternidade só nossa. Reflete uma aliança simbólica feminina. Quer dizer, entre outras coisas, não contribuir para os preconceitos que ainda persistem na nossa sociedade, apesar de serem constante e veementemente negados. São os estereótipos que muitas pessoas dizem “não mais existirem”, porque “não acreditam mais neles”, mas que continuam sendo reproduzidos em conversas afora e piadas de mal gosto. Eles permanecem na mentalidade de muitos e muitas - e é aí onde mora o problema. As mulheres (mais do que os homens), por serem as principais vítimas, deveriam compreender a necessidade de aniquilação de tais discursos.

Em redes sociais, acompanho diversas contas de pensamentos e lutas feministas. Basicamente, são meninas ao redor do mundo que defendem a urgência de nos unirmos frente a todas as dificuldades que as mulheres ainda têm de passar nos dias de hoje. Não importa de onde venha, a cor da sua pele ou sua religião. Elas postam sobre conquistas - grandes e pequenas - de mulheres que não conhecem, mas que admiram, porque entendem que a vitória de uma vale um prêmio para todas. É lindo de se ver, realmente, e é algo que deveríamos incorporar à nossa realidade. 

O que me frustra é que vejo o quão distante essa dimensão está, de fato, da nossa vida. Acredito que isso acontece, fundamentalmente, quando mulheres deturpam os valores do feminismo e o rejeitam. Permanecem à margem do movimento e ajudam a corroborar para estereótipos sexistas. A falta de empatia de algumas de nós acaba fazendo-as reproduzir discursos machistas e que, além de depreciar a imagem, ajuda a encarcerar a liberdade de muitas mulheres de agir, vestir-se, portar-se e ser. O ideal é entender que nós apenas queremos respeito e igualdade de direitos. Por isso, digo: o que falta é sororidade.

Criticar o tamanho da saia da transeunte, chamar de “homem” a menina que tem cabelo joãozinho e falar que a colega que decidiu sair de casa sem sutiã “só está querendo se exibir” são exemplos recorrentes advindos da carência de empatia. Assim como maldizer a prima que só veste roupas largadonas, chamar de “puta” a garota que gosta de sair com a barriga pra fora ou achar que a menina é lésbica só por usar piercing e ser tatuada. É absurdo fazer suposições e pré-julgamentos acerca da sexualidade, do gênero ou dos valores de alguém tendo como base sua postura, a cor do seu cabelo ou seja qual for o elemento superficial que analisar. Dizer que mulheres se vestem como se vestem ou são como são para chamar atenção ou qualquer outro motivo absurdo do tipo é censurar a maneira delas de se expressar. É, dura e especificamente, ser burra também. Principalmente se você quer para si o direito de se manifestar livremente, usar a roupa que quiser, o cabelo do modo que preferir, os acessórios que gostar no seu corpo - sem ser repreendida por ninguém ou receber comentários repugnantes assim. É o velho “não faça com o outro o que não desejaria para si”. Sem competitividade, sem diminuir pessoas por se expressarem diferentemente de você, sem intolerância.

O que deveríamos fazer, na realidade, é exaltar as mulheres de quem falei anteriormente, achar lindas suas atitudes e tomá-las como exemplo. Nos inspirar nelas no modo como não ligam para a possibilidade de julgamentos alheios e como escolhem a sua liberdade de modo prioritário. Elas têm todo o direito de se vestirem como querem e agirem como preferirem, assim como você tem o seu. Não vê que até essa separação machuca? Nós, todas nós - nem uma a mais e nenhuma a menos - somos livres. A ideia é, em vez de dizer que tais mulheres não merecem ser censuradas, se incluir nessa linha de pensamento. Nós todas temos esses direitos. Sororidade é essencialmente isso. Não fragmentar, não distinguir as mulheres entre si, mas assumir o seu papel como tal e não tratar mais desse assunto se não estiver usando a primeira pessoa do plural. Nós somos lindas, nós temos direitos e nós merecemos respeito. Entre nós mesmas, frente aos homens, e na sociedade em geral. Simples assim.

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