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Velhice, poesia e abandono: uma visita ao Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio

Vidas humanas em sua melhor fase

Por Ylanna Pires

O Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio é uma organização não governamental, situada em Currais Novos (RN), e tem como missão, desde 1963, acolher idosos de dentro e de fora da cidade que se encontram em situação de vulnerabilidade ou abandono parental.

O “Lar”, como é carinhosamente chamado pelos moradores e funcionários, leva o nome de um sacerdote cuja obra na região transcendeu as fronteiras da religiosidade – sendo, antes de tudo, humanitária – e carrega consigo o preciosismo e a complexidade de lidar, diariamente, com mais que pessoas idosas; vidas humanas. E, de quebra, em sua melhor fase.

Fachada do Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio (Foto: Facebook)

A instituição pensada há 55 anos atrás para acolher idosos do Seridó e região, conta atualmente com seu maior contingente de internos. São 37 pessoas da melhor idade e diversas regionalidades – de norte-rio-grandenses à sulistas – vivendo sob os cuidados de 16 profissionais de várias áreas (limpeza, saúde, assistência social e etc) contratados pelo município em uma parceria, os quais auxiliam os moradores em sua rotina e convívio.

Um dos corredores da instituição (Foto: Ylanna Pires)
Mas, como até nas melhores fases há espinhos, as histórias encontradas em um abrigo de idosos projetado para uma parcela carente da sociedade, apresentam, por via de regra, resquícios de abandono afetivo e negligência parental. Tais fatores são numericamente confirmados por dados do IBGE, que apontaram um salto de 33% no número de idosos morando em asilos ou albergues públicos entre os anos de 2012 e 2017, os quais, em sua maioria, não recebem visitas dos familiares.
Entretanto, para fugir do esperado – que seria tratar o tema com toda a tristeza que o envolve – gostaria de apresentar duas personas que usam da sabedoria adquirida para driblar a solidão e a melancolia, e fazem jus ao título dessa matéria.

Das letras, as mais bonitas; As que revigoram

Dona Alice Eunice Dantas, a poeta de 79 anos
que escreve para melhorar a vida
(Foto: Ylanna Pires)

Natural de Laranjeiras, sítio do município de Acari, Alice Eunice Dantas, mora no abrigo com sua irmã Aliete, desde junho de 2016. Na juventude, atendendo aos chamados vocacionais, saiu do interior para dedicar-se ao convento, mas a saudade de casa e a forte ligação com os pais, trouxeram-na de volta.

“Eu só podia estar no país das maravilhas quando decidi isso,” brinca a leitora assídua e escritora fervorosa.

Alice, que dedicou-se a cuidar dos pais, não casou nem teve filhos. Morou até os 76 anos com a irmã em uma casinha na cidade, até sofrer uma fratura no fêmur e decidir, por conta própria, mudar-se com Aliete para o Lar. Aliete, por sua vez, é viúva há muitos anos e não tem contato com os filhos, que já não moram mais na cidade. 

Dona Alice conta que, depois do sonho de ser freira, sempre almejou tornar-se escritora: “Escrever eu sempre gostei; me ajuda, me revigora. Quando eu era menina, escrevia na areia do sítio, vinha a brisa e apagava. Eu ficava triste”.

A poeta explica que desde que se mudou para o abrigo, não passa um dia sequer sem escrever seus versos e juntá-los em seu “caderno-livro” intitulado “Poesias da Alice”.

“A poesia me ajuda a superar a solidão. É terapia. Eu leio elas e me encontro com Deus,” explica. Atualmente, dona Alice escreve para um programa televisivo da pastoral de Currais Novos, onde semanalmente seus poemas são declamados.

Máquina de escrever de Dona Alice (Foto: Ylanna Pires)
O processo de criação da poetisa acontece em uma máquina antiga de escrever – um presente dos seus amigos clérigos –, na qual ela redige apressada os versos que, por vezes, fogem na memória, mas que fazem-se presentes como válvula de escape para uma realidade tão dura. 

Pergunto a ela sobre a convivência no abrigo, sobre como ela se sente naquele lugar: “Aqui não é minha casa, mas se tornou. Casa é o lugar que a gente se sente bem em estar; eu tenho muito carinho por todos aqui, fiz um caderno para ter a assinatura de cada um dos meus amigos daqui. Agora você é minha amiga. Assina?”.

Caderno para assinaturas de amigos (Foto: Ylanna Pires)

Seu José, resiliente

Do alto dos seus 86 anos, na época, José Garcia, natural da zona rural de Currais Novos, decidiu trocar a sua casa pelo Lar de idosos: “Não é que fui jogado, como muitos aqui. Eu vim porque não cabia mais lá”.

Viúvo há dez anos, seu José conta que morava com uma das suas três filhas, mas não se sentia em casa; isso o motivou a também tomar a iniciativa de procurar o abrigo. “Eu conheço quando não sou bem vindo em um lugar. E olhe, a gente cria filho para o mundo, não pra gente”.

Apenas uma das filhas do pedreiro aposentado reside na cidade e segundo ele, não o visita muito. O último encontro de seu José com a mesma foi há um ano atrás. 

José Garcia Sobrinho, 88 anos. (Foto: Ylanna Pires)
“Se eu sinto falta? Sinto, e muita. Mas as coisas de Deus ninguém explica. Família é muita coisa: igreja, parente, amigo. Aqui eu tenho família porque tenho muitas amizades… Inimizades também; aí o homem só para de ter quando morre. E morto, eu não tô”.

José Garcia dedica seus dias a cuidar da saúde, jogar dominó e ir para as festas religiosas e quermesses do município. Sendo um dos moradores com mais idade da casa, alega: “Velhice não é triste; a gente que deixa triste, ou feliz. A derradeira parte da vida tem que ser a melhor. Existe aquele ditado, não sabe? ‘O melhor vem sempre por último’”.

Sobrevivendo ao tempo, apesar das dificuldades econômicas e sócio-administrativas, o Abrigo Monsenhor Paulo Herôncio conserva-se intacto em seu propósito principal: doar-se, em forma de morada e abrigo, para aqueles que já doaram-se tanto ao longo da vida.

O Lar é aberto para receber visitas todos os dias: pela manhã, das 9h às 11h, e à tarde, das 15h às 18h. Além disso, a instituição organiza, anualmente, uma campanha de Natal para arrecadar presentes para os internos, a qual pode ser acompanhada pela página do Facebook.

Diante de tantas vidas humanas que se revigoram nas simplicidades do cotidiano, o choro do poeta Vinícius faz todo sentido quando diz: 

“Um velhinho com uma flor assim falou; 
O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando chega sangrando
Aberta em pétalas de amor”.

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