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Das ruas à Universidade: uma tentativa de crescer enquanto tenta sobreviver

Ex-morador de rua aprovado em segundo lugar no curso de administração da UFRN tenta, no presente, compensar os erros do passado investindo em sua própria educação 

Por Francisca Pires

Mário Batista.
Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta
“A partir do dia de hoje, Mário Batista da Cruz Júnior não é mais uma boa associação para nós nem para nossos filhos. Segundo a bíblia, uma fruta podre estraga todo cesto e um pouco de fermento leveda toda massa, portanto devemos evitar aproximações com tal indivíduo, visto que más associações estragam hábitos úteis”, decretou no púlpito o líder religioso. Nesse dia, aos 15 anos, Mário foi expulso da igreja onde seus pais eram missionários, acusado de apostasia e fornicação: “E era tudo verdade”, declara sem arrependimentos. 

Família 

Filho de Hilda da Cruz e Mário Batista, o garoto nascido em 1982 recebeu o nome do pai e, junto a ele, a missão de ser dele “uma versão melhorada”. A intensa projeção do filho perfeito rendeu ao homem uma infância constituída por duas facetas: a família religiosa modelo e sessões constantes de espancamento. A esta parcela de sua vida, Mário opta por usar o termo tortura: “Existia até um ritual: primeiro, nós liamos juntos o trecho da bíblia que dava aos meus pais o direito de me bater como forma de castigo, depois eu tomava um banho para que minha pele ficasse mais macia e então pegava uma tira de couro bem grossa que ficava na sala como enfeite e a entregava para com ela apanhar”, relata. 

As constantes surras deixavam cicatrizes expressivas pelo seu corpo, tão expressivas que Mário chegou a mostrá-las na diretoria da escola onde estudava em uma tentativa de pedir ajuda. Os responsáveis pela escola, por sua vez, chegaram a chamar seus pais para uma conversa e ameaçaram comunicar ao Conselho Tutelar caso as agressões continuassem. No entanto, elas continuaram de forma mais silenciosa, porém ainda muito intensas. A essa altura, o garoto passou a apanhar nas mãos e pés, lugares onde há dor, mas não marcas. 

Em paralelo ao papel de agressores, o casal também desempenhava a função de incentivadores à leitura e estudo. Filho único, ele conta que seus pais sempre o incentivaram a buscar conhecimento através da leitura, ler tudo o que aparecesse na sua frente. Contudo, apesar da relação turbulenta e de não manter contato com seus pais há cerca de um ano, Mário faz questão de destacar: “Meus pais fizeram muito por mim e por mais que meu pai quisesse que fosse um cara ainda melhor que ele, isso era impossível”. 

Nessa relação de amor com os estudos, o jovem considerado “nerd” pelos amigos, cresceu com o sonho de cursar psicologia para aplicar seus conhecimentos na área gerencial das empresas, formando equipes, trabalhando com projetos ligados a motivação e gestão de pessoas. “Por isso acabei escolhendo administração, olhando a grade curricular percebi que essa era a área mais condizente com o que eu queria para minha vida, além de ser extremamente amplo, com uma variedade incrível de atuação”, explica. 

No entanto, o sonho que está sendo retomado agora em 2018 foi interrompido lá atrás, logo após sua expulsão da igreja. O ocorrido fez com que sua família automaticamente começasse a se preparar para sua expulsão de casa; fato que veio acontecer três anos depois, quando Mário completou a maioridade. 

Expulso de casa, ele decide ir morar com uma namorada da época, o relacionamento dura pouco mais de um ano e não resulta em filhos. Porém, esses viriam mais a seguir: ao todo, são cinco, frutos de três casamentos diferentes. Quanto a sua relação com eles, Mário prefere não falar muito, abaixa a cabeça e conclui que é complicado demais. No entanto, não hesita em descrever com orgulho sua escadinha: “Tenho o Mário Neto de 17 anos, a Moana de 14, o Moabe de 13, o Isaac com quatro e minha pequenininha Maria Valentina que está agora com dois anos”. 

A complicação pela qual o homem se refere fica evidente quando ele relata que atualmente seu pai terminou o casamento de 29 anos com sua mãe e casou-se novamente com a sua segunda ex-mulher, mãe do seu filho mais velho. Com a atual esposa do seu pai, Mário revela ter tido constantes brigas com até mesmo casos de violência física. O primeiro por ela ter persuadido seu pai a não lhe entregar um dinheiro referente à separação do casamento e o segundo quando ele alega ter visto essa mulher agredindo sua mãe. “Na primeira vez, eu fiz por raiva. Iria usar aquele dinheiro para comprar uma casa simples, um carrinho usado e nessa casa eu montaria uma bodega que seria o pontapé inicial da minha vida. Já na segunda, ela agrediu minha mãe na minha frente e eu não poderia deixar. Dessas agressões eu não me orgulho, mas também não me arrependo”, conclui depositando confiança em cada palavra. 


Vida nas ruas 

Segundo Mário, são raras as pessoas que ficam na rua o tempo todo. Geralmente, maior parte delas tem passagens pela rua, ficam lá durante um tempo, quando a situação melhora, saem, mas depois, pela própria falta de medo da rua acabam voltando sem se preocupar muito com a situação, afinal, através das vivencias já puderam constatar que conseguem sobreviver. 

O primeiro contato com as ruas aconteceu logo após o fim do seu terceiro casamento: “Quando acabou meu relacionamento, eu pensei que Natal não tinha mais nada a me oferecer. Decidi que iria aonde o vento me levar, coloquei uma mochila nas costas, cem reais no bolso e fui até o posto Dudu. Fiquei lá observando o tempo passar, esperando algo acontecer”, conta. Foi assim que, vendendo passagens em um carro de lotação, Mário se deparou com seu primeiro destino: a cidade de Mossoró. Três dias depois já se encontrava em Canoa Quebrada no Ceará e nesse ritmo, com ajuda de caronas e juntando o pouco que recebia, ele percorreu Fortaleza, Feira de Santana, Salvador, Aracajú, Maceió, Recife e João Pessoa. 

Foram dois anos como nômade até ele decidir voltar para Natal. Esse tempo fez com que Mário perdesse o medo da rua e do mundo, uma vez que após vivenciar situações como um ocorrido em Salvador, viver nas ruas da cidade do sol não lhe causava mais nenhuma angústia. “Lá uma vez me roubaram tudo. Roupa, dinheiro, documento, me deixaram com a roupa do corpo e cinco reais no bolso. Nesse dia, comprei uma lata de cachaça, alguns cigarros e fui beber enquanto chorava sozinho na praia”, desabafa. 

Mas essa não foi a única situação crítica que ele enfrentou enquanto estava em situação de rua, outra época difícil, segundo Mário, foi o período em que ele viveu na chamada “casa do terror” localizada no Juvino Barreto. Sem dar muitos detalhes do que viveu no casarão, o homem limita-se a contar que o dono do imóvel se suicidou após reunir o maior número de moradores de rua que conseguiu e define como uma época terrível que ele prefere esquecer.

Um dos passatempos dele no Centro Pop de Parnamirim era jogar com os amigos. Foto: G1RN

Durante o tempo em que viveu nas ruas de Natal, Mário dormia em albergues e utilizava serviços básicos como saúde, educação e atendimento jurídico do Centro Pop de Parnamirim. Sobre esse período, ele afirma que existe muito preconceito por parte dos prestadores de serviço. “Se um morador de rua precisar de atendimento médico, ele vai levar um chá de cadeira grande. Colocam todo mundo na frente como se quem estivesse precisando não fosse uma pessoa como as demais”, lamenta. 


Dependência química 


“Existe um termo usado no NA (Narcóticos Anônimos) que fala sobre uma série de comportamentos compulsivos. Eu nasci assim, compulsivo. Tudo comigo precisava ser muito, seja droga, bebida, comida, sexo ou até mesmo trabalho e estudo”, detalha Mário enquanto come o segundo lanche no intervalo de uma hora. Além de comida, ele carrega sua garrafa de água sempre cheia e um maço de cigarros, pois conhecendo sua condição psíquica melhor que ninguém, o homem precisa estar sempre preparado para suprir suas compulsões e não demonstra desconforto algum ao falar ou lidar com elas. 

Seu primeiro contato com o álcool aconteceu em uma festa de ano novo em família, quando ele tinha apenas nove anos. Sozinho e escondido, ele tomou quase um garrafão inteiro de vinho. Falando sobre esse consumo altamente exagerado, Mário diz acreditar que sua dependência química não foi desenvolvida ao longo dos anos, mas sim sempre esteve presente com ele. A maconha, por sua vez, surgiu no seu décimo terceiro aniversário. Na ocasião, ele conta que sabia com quem conseguir a droga e, como queria muito experimentá-la, assim o fez. 

“Além da curiosidade normal do jovem, o abuso que eu sofria dos meus pais também me fez sentir esse desejo por buscar o que era proibido. Usar as drogas era uma forma de quebrar aquele padrãozinho em que estava submetido, mas isso daí é material para muita terapia”, brinca Mário. Por causa do vício, o homem de 36 anos contabiliza 16 internações em clínicas de reabilitação e para manutenção dele, cometeu crimes como assaltos, furtos e estelionato, que resultaram em cinco passagens pela cadeia. Somando todas as entradas, tem-se o total de quatro anos e meio de pena. 


A Universidade 


Mário Batista na UFRN.
Foto: Francisca Pires/Caderno de Pauta
Após viver tantos anos em situação precária e enfrentar os mais diversos tipos de dificuldades, através de pessoas que faziam trabalhos de assistência social como distribuição de alimentos e um padre chamado Murilo, Mário começa a perceber que tinha potencial e vontade de mudar sua história. “As pessoas sempre falavam que eu era inteligente e muitas me incentivaram a concluir o Ensino Médio que parei no primeiro ano”. Ao saber que fazendo a prova do ENEM poderia conseguir seu diploma de Ensino Médio, ele resolve estudar sozinho e realizar a prova. 

Aprovado em segundo lugar no curso que tanto queria, Mário conta que ficou surpreso e, claro, muito feliz por poder retomar seus planos antigos, consequentemente mudando o rumo da sua vida. Porém, ele enfrentou mais algumas dificuldades dentro da universidade. Seu pedido de moradia na residência estudantil foi negado, pois, segundo o sistema, ao ser atendido pelo Centro Pop de Parnamirim, ele não tinha perfil socioeconômico para ocupar a vaga. 

Por causa disso, Mário se viu obrigado a alugar um kitnet em Potilândia, porém o aluguel custava 500 reais, quantia inviável para sua situação financeira. Vendo suas opções diminuírem cada vez mais, foi passar uma temporada em Mãe Luiza, na casa do primo de um amigo. Nesse local, ficou sabendo sobre a Casa do Estudante, local onde mora atualmente e que corre o risco de ser fechado por causa de uma ação civil pública aberta pelo Ministério Público. 

Vídeo do Mário sobre a sua história na Casa do Estudante. Foto: Print do Facebook por Francisca Pires/Caderno de Pauta 

“Ser ambulante não é uma novidade na minha vida, mas hoje estou fazendo isso para custear minha morada na Casa do Estudante e assim tentar de alguma forma impedir que ela feche. Caso contrário, terei que voltar para as ruas e estando lá, fica inviável me manter na faculdade”, desabafa. Para Mário, a UFRN é sinônimo de oportunidade, a partir dela pretende fazer um bom networking e trabalhar com empreendedorismo social. Ele conta que pretende compensar todo mal que já pode ter feito aos outros, investindo em formas de trabalhar para construir uma sociedade melhor. 

Quando questionado sobre como sua história pode inspirar e influenciar positivamente a vida das pessoas, Mário responde humildemente que não quer ser visto como herói, tampouco como exemplo, visto que reconhece todos os erros cometidos durante sua trajetória. “Não existe só o Mário perfeito, nem só Mário mau. Existe o Mário de verdade que é a junção dos dois”, afirma. 

Dono de seu destino, o ex-morador de rua agora cursa o segundo período de administração e logo mais será um grande empreendedor social. A vida desenhada pelos pais e entregue a ele como modelo a ser seguido foi condenada ao fracasso quando ainda pequeno o Mário Junior revelava traços de sua forte personalidade. Seu caminho foi redesenhado por ele mesmo a cada decisão tomada. O curso da sua história tomou a direção de suas próprias vontades quando ele suportou as surras, foi expulso da igreja, de casa, decidiu ir morar na imensidão da sua incerteza e depois voltar para a certeza que só o conhecimento traz, provando que ele não se resume a uma má associação, uma fruta podre ou um fermento capaz de levedar toda uma massa. Mário não se resume a nenhum título como ele mesmo faz questão de definir: “Eu sou o Mário e pronto. Isso basta”.

Um comentário:

  1. Que orgulho desse homem, que mesmo diante de tanta dificuldade conseguiu entrar numa faculdade federal e que hoje pensa em fazer o bem. Superação é o nome dele (:

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