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Potigoiana, que ri e encanta

Nascida em Goiás e residente no RN, Natália Beatriz usa de paixão e de gargalhadas para encarar a vida e suas adversidades

*Por Maria Clara Pimentel 

Um grande sorriso me acolhe na porta da casa 22. Estou na Residência Universitária Biomédica da UFRN e ela cheira a cuzcuz. Natália Beatriz França de Lucena, goiana de vinte e dois anos e estudante do 6° período de Fonoaudiologia, me recebe suada da aula de capoeira e me pede para entrar. Ela termina de preparar o bolo de milho que faz para mim – tradição de família – e me dá um tour pela habitação, enquanto me conta das meninas com quem mora. Com seu ‘R’ puxado, apresenta cada uma com que nos deparamos, seguindo um certo padrão determinado: “olha, essa é a Fulana, ela faz Fisioterapia” ou “ah, essa é a Beltrana, é de Serviço Social”.

Aos 22 anos, na cozinha de sua casa, na Residência Universitária (Foto: Arquivo/Natália Beatriz)

São 120 pessoas morando na residência e é bem possível que conheça os nomes e cursos de cada uma delas. Parece chocante, só não para quem a conhece. Nada realmente surpreende vindo de Natália, que gosta de se fazer atuante em qualquer mínima coisa que faça – a gente acostuma. Ela faz parte do Conselho da Residência, por isso é sempre chamada “pra resolver os rebuliço”, acolher pessoas novas nas moradias e receber reclamações em geral. É até alvo de brincadeiras de suas companheiras de quarto, que dizem que, por conhecer todo mundo, sairá candidata nas próximas eleições. Eu não duvido.

A goiana faz parte da Coordenação de Articulação e Saúde da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Fonoaudiologia (Denefono), é representante da saúde no Diretório Central dos Estudantes da UFRN (DCE) e é a coordenadora geral do Centro Acadêmico Lourdes Bernadete (CALB). Com ela, não há tempo ruim. Natália está sempre participando das coisas. Já fez curso técnico de impressão gráfica; pequena formação de corte e costura humano; trabalhou na confecção de arranjos de flores para vender na feira; assim como participou de um encontro para aprender a fazer sorvete, também para comercializar. Quando mudou-se para o interior do RN, vendia CD, DVD, cabo, controle, pendrive, trufa... Chegou até a vender uma cartela premiada do Natal Cap, quando para lá trabalhava, e hoje é revendedora da Avon.

Para contar sua história ela vai desde antes dos seus pais saírem de Lagoa Nova, município localizado na região central do estado, onde se conheceram e para onde voltaram, anos depois. Por uma proposta de emprego, foram viver em Goiás e construir sua família. A gravidez foi de risco. Sua mãe se alimentava muito mal porque trabalhava em uma fábrica de refrigerantes e, na função de lavar as garrafas, bebia os restos quando tinha fome. Natália queria sair da barriga com sete meses, mas a mãe tomou remédio para que esperasse mais um mês, e deu certo. Veio ao mundo com baixo peso e prematura: a bebê mais feia de lá, segundo a mãe. “Eu era toda engelhada, pequena e só tinha cabelo,” ela ri alto. Também nasceu com uma pequena má formação: o pé direito torto e menorzinho que o outro.

Não achando o suficiente – como gosta de brincar – sofreu um acidente aos 12 anos que retirou 3 centímetros do osso da mesma perna. Saindo de uma lan house e com pressa para chegar em casa, aceitou a carona de um amigo que a deixaria de moto. Ao tentarem fazer uma ultrapassagem, uma outra Natália, de 14 anos, aprendendo a dirigir um carro, atingiu os dois. Teve duas costelas trincadas, a bacia e os dois fêmures quebrados. Queimou boa parte da barriga, machucou bastante a boca (já que estava de capacete e usava aparelho), entre outras coisas, como ralar as pálpebras e deixar os dedos das mãos em carne viva. Quando sua mãe chegou, ela estava estendida em cima do meio-fio da calçada, mas, em vez de no joelho, suas pernas dobravam no meio das coxas.

Natália, aos cerca de 5 meses, com o pézinho enfaixado (Foto: Arquivo/ Natália Beatriz)

“Foi bem tenso”, ela diz, mas relata que não foi o pior período de sua vida. “Foi uma época que aprendi muito. Perdi uma parte da minha adolescência mas acho que soube dar valor às pequenas coisas.” Ela reflete e comenta: “Se eu tivesse morrido ali, o que teria deixado?” Pausa. Talvez isso diga mais sobre ela do que qualquer outra coisa que tenha me contado esta tarde. Por fim, Natália revela que seu maior sonho é “ser mais conhecida que pedra”, e de preferência por alguma coisa boa. “A gente nunca espera que seja em um escândalo ruim, né?”, ela gargalha.

A jovem faz o curso de Libras e gosta de ensinar algumas palavras, a quem queira aprender, sempre que possível; ama poesia, dançar forró e usar óculos (pois esconde as olheiras). É cordelista e apaixonada por saraus poéticos. Também gosta de aleatoriedades e ama contar histórias. Para toda e qualquer uma, gesticula ao ritmo da narrativa e faz pausas teatrais. Do nada, diz que vai contar a história do seu pai, por exemplo, e se põe a relatar sobre um tal carro que fazia parte da família, e de como todos só o conhecem por seu apelido – ninguém sabe o seu nome. Do mesmo modo, dispara sobre como seu irmão é “gato” e como é injusto ele, cinco anos mais novo que ela, ter uma namorada há mais de um ano - enquanto ela só tem breves relacionamentos com “os novinho”, sua especialidade. Natália brinca que será muito bem-sucedida no futuro, para bancar o seu próprio.

Paramos a conversa por um momento e outra surpresa. “Minha cor favorita é vermelho”, ela joga e, mais uma vez, começa a rir. Diria que a risada é outro dos seus passatempos favoritos – ela o faz com tanto gosto e frequência. Particularmente, é uma das mais contagiantes que já ouvi. Além de me chamar de “muiézinha”, me cozinhar um bolo de milho maravilhoso e terminar nossa entrevista dizendo que vai “banhar”, a goiana comenta que escolheu Fonoaudiologia por ser a ciência da comunicação, e não esconde que ama se comunicar. Também se interessa muito por movimentos estudantis, e diz que fará seu Trabalho de Conclusão de Curso virado a essa vertente, para reivindicar maior credibilidade à Fono no processo de saúde coletiva.

Natália é uma mistura potiguar e goiana, onde só habitam energias positivas. Nem mesmo acidentes terríveis são capazes de a pôr para baixo a longo prazo. Quando a conheci, ela insistia em narrar sua história: “Não me importo, eu gosto de contar”, dizia com o sorriso no rosto. Apesar disso, não se considera uma pessoa que pensa demais no passado: “Só em época de TPM, sentar na janela no ônibus, naquelas insônias...”, ela comenta, rindo. Tampouco gosta de pensar no futuro. “Eu deixo um rascunhozinho ali, mas nada de ficar apagando e escrevendo”. Prefere se manter no presente e, aos 22 anos, é uma das únicas pessoas que conheço que vive intensamente, à sua maneira. Ela realmente encanta.

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