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O carisma e competência por trás do nome que apresentou a Logística ao Rio Grande do Norte

Trabalhando desde a adolescência, Karla Motta dedicou sua vida a buscar meios que tornassem as empresas do estado mais competitivas, mantendo o foco no cliente, reduzindo custos e preservando a natureza


*Por Francisca Pires 

Karla com seus primos durante a infância
(Foto: Arquivo Pessoal)
Neta de um dos fundadores da primeira indústria do Estado, o Curtume J Motta, Karla nasceu em uma família engajada no meio empresarial. Filha de Álvaro e Marisa Motta, é a mais velha de três irmãos e herdou dos pais não só o bom humor e a alegria de viver, mas também o gosto incessante pela leitura e a busca por conhecimento. Com cinco anos já tinha aprendido a ler, adorava histórias em quadrinhos e por causa do gosto pela leitura desenvolveu uma facilidade de memorização. “Eu sempre adorei ler. Acredito no princípio de que não precisamos partir do zero em nada na vida, então, se algo está acontecendo e eu não consigo entender muito bem, busco ler sobre aquilo. Essa característica sempre me foi útil na vida pessoal e profissional”, declara. 

Ainda durante sua adolescência, com dezesseis anos, ela passa a dedicar, nas férias escolares, um turno do seu dia para trabalhar ajudando seu pai no Curtume J Motta. Ele que atuou não só no ramo empresarial, mas também na vida pública como deputado estadual, deputado federal, suplente de senador e secretário de estado no RN durante muitos anos, passou a contar com ajuda da filha nas questões administrativas. Segundo Karla, sua responsabilidade era organizar os arquivos, dar um suporte de auxiliar administrativa e orientar o desenvolvimento do sistema de informações da empresa.

Com visível amor, respeito e admiração, ela declara que muitas posturas dos seus pais tiveram influência positiva na sua vida. “Papai sempre repetia e repete até hoje que a única coisa que ninguém nos tira é o conhecimento, por isso é algo que merece o investimento”, conclui. Declarando-se uma curiosa nata, Karla afirma que gostar de conversar e ter a humildade necessária para perguntar ou admitir que não sabe sobre algo, também são características que contribuíram para o seu crescimento pessoal e sua carreira.

Mesmo tendo começado a trabalhar muito cedo na grande empresa da família, Karla, também aos dezesseis, prestou vestibular e foi aprovada no curso de Engenharia Civil da UFRN. No entanto, a grade curricular da época não permitia um contato com as práticas da área, o que com pouco tempo de curso fez com que ela prestasse outro vestibular no meio do ano. “Eu não queria ficar estudando só química, física, álgebra e cálculo. A falta de prática na parte inicial do curso de Engenharia acabou me desmotivando e eu prestei vestibular novamente para Arquitetura, passei e apesar de ter percebido, com um ano de curso, que também não era o que eu queria, neste segundo acabei me formando”, relata.

Karla Motta casou-se em 1985, aos dezenove anos, foi mãe da primeira filha Talita aos vinte um, da segunda filha Camilla aos vinte e dois, e da caçula Rebecka aos vinte e seis: “As duas primeiras gestações ocorreram no percurso do curso de arquitetura e ainda neste período eu comecei a participar de cursos de capacitação pela Federação das Indústrias do RN”. Ela conta que sua família tinha muita proximidade com a Federação, justamente por serem os fundadores da primeira indústria do Rio Grande do Norte, e foi durante um desses cursos que surgiu, através do interesse em questões relacionadas a gestão da qualidade, a ideia de continuar estudando depois de formada, para fazer um mestrado. “Eu me inteirei dos mestrados que haviam na época e descobri um de engenharia mecânica com área da concentração e gerência da produção, fiz um processo seletivo e fui aprovada”, conta.

Conclusão do seu doutorado em Engenharia da Produção
na UFSC (Foto: Arquivo Pessoal)
Seu objetivo a partir daí era montar um programa de gestão da qualidade para implantar no Curtume. Porém, ainda no primeiro semestre, Karla é apresentada à disciplina de logística, ministrada na época pelo professor Domingos Campos que tinha acabado de voltar da Espanha após concluir seu doutorado. “Até então eu me sentia em busca de algo, mas nas primeiras aulas da disciplina tive um sentimento de encontro muito grande. Eu realmente me apaixonei pela logística, esse sentimento virou amor e dura até hoje”, afirma.

Após esse contato inicial com o conceito e os princípios da logística, ela conta que desenvolveu uma admiração por esse foco no serviço ao cliente com redução de custo, visto que entende essa dinâmica como uma questão de fazer o melhor para a empresa, mas cuidando sempre do ambiente, assim como a logística reversa propõe. Além disso, tem a otimização dos recursos, a capacitação das pessoas para fazer o melhor e desse modo, trabalhando com a logística, os indivíduos são estimulados a se desenvolverem da melhor forma.

Ao lado do professor Wattson, Karla ministrou uma
oficina de planejamento de vida profissional na UFRN
(Foto: Arquivo Pessoal)
Outra coisa que a encanta muito é essa visão macro de cadeia de suprimentos, pois enquanto algumas pessoas têm mais facilidade ou mais habilidade para questões focadas e específicas, sua percepção sempre foi mais macro, estratégica. Por gostar muito de planejamento, Karla viu na disciplina uma oportunidade de desenvolver algo que aplicasse essas estratégias em uma grande indústria. Assim, decidiu trocar de orientador, de tema da dissertação e trabalhar no desenvolvimento da proposta de um projeto lógico de um sistema de informações logísticas para ser aplicado em uma empresa e no caso a indústria objeto do estudo foi o Curtume, local onde trabalhava.

Ao concluir o mestrado, em meados de 1998, Karla observa que o ambiente empresarial não era muito receptivo às questões da logística. Tal resistência se dava porque o conceito era ainda muito novo na época. “As questões da logística proporcionavam uma visão inovadora de integração de fluxo de materiais e fluxo de informações transversal à organização toda. E eu vi o benefício que poderia trazer, principalmente por causa da localização estratégica do Rio Grande do Norte, mas pelo contato pessoal com muitos empresários, notei que os conhecimentos de logística não eram aproveitados por que as pessoas nem sabiam do que se tratava”, constata. Afim de mudar esse cenário, ela começou uma movimentação para trabalhar com logística e disseminar suas práticas no meio empresarial.

Karla em uma Feira de Mini-empresas com amigos
do SEBRAE e IFRN (Foto: Arquivo Pessoal)
“Ainda em 1998 fiz um processo seletivo para ser consultora no SEBRAE, fui aprovada e no ano seguinte eles trouxeram para Natal a EMPRETEC, que é um programa de formação de empreendedores que também participei”. Karla conta ainda que nessa época se sentia muito confusa, pois muitas oportunidades haviam surgidos para ela. Seu orientador do mestrado a convidou para trabalhar com ele em uma consultoria de logística em uma empresa, ela aceitou o trabalho e gostou muito da experiência. Além disso, tinha as demandas da empresa de sua família, as necessidades do programa de qualidade do SEBRAE e a empresa em que estava fazendo consultoria queria a contratar como gerente de logística. Mesmo com tantos convites e oportunidades, o chamado que mais a inspirava era a missão e o desejo de disseminar as questões de logística no estado.

“O EMPRETEC me ajudou a enxergar isso com clareza, a perceber o que era prioridade e relevante para minha vida. Essa questão da logística para mim ela é muito munida de sentido e no EMPRETEC eu montei uma estratégia de cinco anos, que visava disseminar o conceito e as práticas de logística no Rio Grande do Norte”, relata. Nesse contexto, essa disseminação precisava ser feita de maneira abrangente. Para tanto, Karla montou o projeto de um curso de especialização em logística empresarial que foi o primeiro do Nordeste, com a primeira turma no ano 2000. Segundo ela, quem estava participando também do EMPRETEC era Kelermane Martins, na época diretor de extensão da pós-graduação da UNP, então, em conjunto eles fizeram um convênio das Federações da Indústrias com a UNP para assim possibilitar a realização desse curso de especialização em logística empresarial.

Karla acompanha uma entrega da UPS em San Diego (Foto: Arquivo Pessoal)

No entanto, os únicos professores de Natal especializados na área eram ela e o Domingos Campos. Para resolver tal problema, Karla montou o projeto do curso e foi com as disciplinas e a ementa na mão para um evento de logística em São Paulo, onde contou com a indicação do precursor da logística no Brasil, Antônio Galvão Novaes, à época orientador da amiga Mônica Luna no doutorado na UFSC. A estrutura do curso era baseada nos princípios Bowersox e ela ia para as palestras referentes aos temas das disciplinas. Analisava o perfil dos palestrantes e caso julgasse que se encaixava no que ela pretendia trazer para seu curso, fazia o convite. Todos os convidados aceitaram fazer parte da equipe e desse projeto pioneiro.

Paralelamente nesse processo de disseminação da logística, além do curso de pós-graduação, Karla montou também um ciclo de palestras que aconteciam nas Federações das Indústrias para os presidentes de industrias e dirigentes do sindicato, uma vez que seu foco era disseminar os conceitos para os gestores empresariais. As palestras aconteciam uma vez por mês e contavam com a presença de empresários que, após uma introdução conceitual feita por ela, contavam suas experiências com as práticas logísticas e como era a realidade da empresa dele em termos logísticos.

Alunos do curso de Especialização em direito e gestão do judiciário (Foto: Arquivo Pessoal)

Outro fator que ajudou nesse processo de disseminação foi o fato de Karla ter sido convidada pelo Ricardo Alves, o diretor da Tribuna do Norte para escrever artigos no caderno de economia do jornal. “Teve em 2008 um seminário chamado Motores do Desenvolvimento do RN e eu fui convidada para apresentar o perfil da logística do estado. Nisso, fiz um mapeamento da infraestrutura, contei o que tinha e o que não tinha e apresentei nesse evento. Após a palestra o Ricardo Alves me procurou e fez o convite. Eu passei um ano escrevendo artigos todos os domingos, falando sobre vários aspectos da logística e procurando os associar a questões do dia a dia, o que ajudou muito na disseminação dos conceitos. Então eu procuro sempre levar a logística de maneira muito simples, porque ela é assim”, conclui. Ela acredita que quando as pessoas passam a ler sobre o assunto, entendem que sua agenda semanal, sua ida ao médico, os suprimentos que compram para suas casas, a forma com que administram seu tempo e recursos, tudo isso é logística. O desconhecimento é que distancia as pessoas do conceito de logística, e quando elas entendem, o abraçam.

Workshop The Future of Education, com a professora
do IFRN Renata Guidi e do pesuisador Henry Etzkowitz
(Foto: Arquivo Pessoal)
Nesse período em que montou o curso de especialização em logística, as grandes empresas do estado que participavam da Federação das Indústrias começaram a demandar serviço de consultoria. Karla explica que esse era mesmo seu objetivo, fazer com que as pessoas conhecessem o que era logística e querer aplicá-la. Desse modo, seus alunos acabavam tornando-se seus clientes e assim ela atuou dos trinta aos quarenta e sete anos como autônoma. “Trabalhei nesse sentido por muito tempo e criei minhas filhas, fiz tudo sempre com muita alegria, emoção e gostando muito do que fazia”, relata. Ademais, através do contato com as microempresas do SEBRAE, ela percebeu como coisas simples poderiam salvar e evitar que muitas empresas fechassem. Pensando nisso, resolveu criar um programa de logística chamado PROLOG e foram realizadas no SEBRAE várias rodadas com a participação de quatrocentas e vinte empresas do estado inteiro.

Com relação a uma atuação do ponto de vista mais macro, no ano de 2006 participando de um Fórum Internacional de logística no Rio de Janeiro, Karla teve oportunidade de conhecer, casualmente durante um almoço, outra pessoa muito relevante na sua vida. O engenheiro Marcelo Perrupato que na época era secretário nacional de políticas de transporte, e estava coordenando o plano nacional de logística e transportes (PNLT) e após uma conversa, a convidou para participar do seminário. Voltando para Natal, Karla entrou em contato com ele para organizar mais alguns detalhes e descobriu que o Rio Grande do Norte não havia enviado nenhuma demanda de infraestrutura a ser incluída no plano nacional.

Ela, então, começou a se mobilizar, foi até o DER- Departamento de Estradas e Rodagens, depois até a secretaria de infraestrutura e, por fim, entrou em contato com a Federação das Indústrias. Toda essa articulação resultou na reunião de um conjunto de obras necessárias no estado que foi levada e apresentada nesse evento: “Isso foi um marco bastante significativo, porque fizemos parte de um momento da história da logística do país. E partir daí nós começamos a uma mobilização para que o estado do RN tivesse seu plano estadual de logística e transportes”, conta. Segundo Karla, na época, a governadora Vilma de Faria chegou a fazer uma licitação visando contratar uma empresa, aquela que venceu iniciou o estudo, mas o governo não teve condição de continuar pagando e até hoje nós não temos esse plano.

Karla e seu amigo Bento Herculano, atual
presidente do TRT21, no dia de sua posse
(Foto: Arquivo Pessoal)
Atualmente, Karla encontra-se diante de um novo desafio de sua carreira: um convite para assumir a coordenadoria de gestão estratégica do Tribunal Regional do Trabalho durante os próximos dois anos. O convite resultou em um pedido de cessão feito pelo TRT ao IFRN, e ela diz que “A partir de janeiro estarei no TRT conhecendo pessoas, aprendendo coisas novas, aplicando a visão macro da estratégia e procurado contribuir para o desenvolvimento da sociedade, das pessoas com que me relaciono e me divertindo, porque é assim que gosto de trabalhar.”, comenta com muita felicidade.

Todos os acontecimentos supracitados se deram em paralelo ao crescimento das três filhas. Nesse ínterim, Karla se separou do primeiro marido e cinco anos depois se casou com Miguel Josino, que faleceu em um acidente em 2014. Porém, como acolhe bem os fatos da vida e mesmo o imponderável, Karla conta que com sua inquietude logo voltou a trabalhar e a rotina ajudou a lidar com a perda. Assim como ela, suas filhas sempre foram muito estimuladas a buscarem conhecimento e aproveitarem o que o mundo poderia oferecer. Nesse sentido, as meninas já fizeram um grande mochilão juntas quando eram bem novas e estudaram fora do Brasil: “Papai sempre disse que viagem ruim é aquela que a gente não faz ou faz por motivo de doença. Por isso, sempre que possível viajei e as minhas filhas também”, conta.

Família de Karla reunida (Foto: Arquivo Pessoal)
Karla relata que seu primeiro neto, filho de Talita, se chama Bernardo e nasceu no mês anterior a morte de seu marido: “Esses são os sincronismos de Deus. Ele me trouxe um amor muito grande para depois me tirar um grande amor, é como se Ele se fosse arrumando a vida”. Dois anos depois, nasce seu segundo neto, o Felipe. Além da forte ligação com as filhas e os netos, Karla o tempo todo demonstra ser muito ligada aos pais. Eles foram os principais incentivadores de todos os aspectos de sua vida, além de serem donos de uma alegria e bom humor que ela afirma ter herdado deles.

Na sala de aula, Karla costuma dar aulas como se estivesse contando uma história, assim consegue facilitar o entendimento por parte dos alunos. Afirma que apesar de existir uma parte conceitual que precisa ser exposta, é associando os conceitos ao dia-a-dia que o aluno consegue aprender de fato a matéria e entender o porquê ele precisa estudar aquilo. Dona de um enorme carisma, ela conta que é feliz por que se sente muito abençoada, é saudável, tem muitos amigos e sempre se sentiu amparada nos momentos de dificuldade.

Ela afirma também que procura lidar com tranquilidade com os problemas, pois dificuldades todos passamos, mas depois de um baque vem alguma coisa que ressurge, o que segundo ela é uma grande benção. Praticante assídua da musculação, Karla conta que adora se exercitar, além de praticar também, ainda que com menos frequência, ioga no núcleo da UFRN. Em 2004, aprendeu a fazer planejamento pessoal e desde então procura repassar a prática para as pessoas. Hoje ela ensina aos seus alunos a planejarem, porque acredita que definir esse planejamento ajuda a dar um rumo para vida e a fazer com que as pessoas entendam se o que estão fazendo tem sentido e vai levá-las até onde desejam chegar.

Karla com o corpo docente do campus IFRN - São Gonçalo do Amarante (Foto: Arquivo Pessoal)


Além de um constante sorriso no rosto, a professora sempre está muito elegante. Maquiada e de salto alto, sua postura é de quem sempre está disposta a fazer o que precisa ser feito. “Eu tenho uma alegria nata que é uma grande característica minha. Adoro dançar, sempre fico muito feliz quando danço. Também adoro cantar e por mais que não cante muito bem, quando todos cantam eu canto junto”, confessa. De perspectiva para o futuro, Karla destaca o desafio de trabalhar no TRT e conta que deseja nesse período continuar trabalhando com logística, em paralelo, escrevendo sobre o tema e disseminando informações, pois segundo ela é importante que a logística tenha uma voz no estado. Ademais, Karla segue no intuito de conseguir desenvolver o plano estadual de logística do RN. Mesmo com tantas contribuições para sociedade, a mulher que nasceu para ser pioneira segue usando sua alegria e competência para encher sua vida de planos e reunir forças para realiza-los, buscando sempre otimizar a logística da vida e a do Rio Grande do Norte.

3 comentários:

  1. Me apaixonei pela logística na sua primeira aula de fundamentos de logística Karla, vc me fez ver que, não só nas empresas podemos usar nossos conhecimentos, mas também nas nossas vidas, 4 ano integrado de logística IFRN campus São Gonçalo do Amarante te parabenizam nessa sua nova jornada, te amamos Karla Motta

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  2. Que artigo muito b escrito e que faz jus à grande profissional que é karla
    Pessoa dotada de carisma incomum e de muita personalidade. Ilumina tudo que faz no trabalho e na vida. Parabéns a karla e a jornalista que soube tão bem fazer seu retrato.

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  3. Que lindo!!!! Parabéns a autora do texto, lindo relato da trajetória de Karla no desenvolvimento pessoal e logístico do nosso estado. Não posso deixar de dizer... te amo karla.

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